Octávio corria pela casa, chamando por Mira, por todos. O corpo tremia, a respiração acelerada, o pânico no tom de voz. Implorava por tudo. Suplicava a algo que não o ouvia… que se recusava a ouvir. Galgou as escadas duas a duas, evitando os estilhaços de vidro que voavam na sua direcção. Tapou o rosto com o braço quando o vaso explodiu na parede à sua frente. Correu, gritando pela irmã, pelo cunhado, pelos sobrinhos.

Porque chamaria ele por Mira? Ela já não estava ali. A sua mãe já não estava entre eles há alguns dias. Nico riu-se quando o tio escorregou e quase tombou sobre o corrimão, evitando a queda com a torção do tronco e uma mão num dos móveis. As paredes tremeram e ele correu para o quarto que ocupava há uns meses, desde que viera viver com eles. Nico não sabia porque a mãe o aceitara mas foi depois do tio Octávio ir viver com eles que tudo começara.

Um dos quadros atingiu o tio no ombro e resvalou para o chão de madeira, a moldura abriu, o vidro estilhaçando-se com o impacto. Sujo de sangue, os antebraços cheios de cortes e arranhões, o cabelo da cor do da sua mãe era uma pasta suada e escurecida. Escorregou de novo, amparando a queda com as mãos. Continuou a correr, entrando no quarto. Atrás dele, o rugido ecoava pela casa vazia. Cada vez mais alto, mais perto. Entrou, batendo com a porta que reabriu como se tivesse molas.

Nico gargalhou, seguindo o tio de perto até ele parar, de costas para a janela e olhos esbugalhados, fixos no corredor. A caixa do saxofone voou, embatendo-lhe no peito, esvaziando-lhe os pulmões e fazendo-o recuar um passo.

– Tu sabias. – Nico declarou, vendo-o empalidecer. – Tu sabias e não fizeste nada.

– Nico? Impossível…

A mesa-de-cabeceira voou, acertando-lhe nas pernas, obrigando-o a recuar até à janela aberta.

– Admite! Tu sabias o que ela me fazia.

– Impossível – voltou a murmurar, de olhos esbugalhados, à procura do sobrinho.

A cadeira rasou-lhe a fronte, despedaçando-se contra a parede. Tapou o rosto com o braço, respirando com dificuldade. Destapou-o, de olhos muito abertos e rosto tão branco como a tinta que cobria a divisão, fixou o redemoinho que se erguia à sua frente. Deu um passo atrás, sentindo as costas embaterem no caixilho da janela. Sem escapatória, voltou as costas à tormenta, passou as duas pernas para o lado de fora e com um olhar de relance para trás, pulou.

Nico aproximou-se da janela aberta. Lá em baixo, sobre o monte de pedras que não chegariam a pavimentar o caminho, o corpo do tio dobrava-se num ângulo estranho. Os olhos permaneciam muito abertos, a boca formava um O, um braço escondido atrás das costas e as pernas dobradas pelos joelhos para o lado errado.

Debruçado sobre o parapeito, Nico contemplou o tio com um sorriso nos lábios. Fechou os olhos e inspirou fundo. Inocente. Também ele não sabia de nada. E amava-os a todos como se fossem dele. Os filhos da irmã eram como se fossem dele…

Nico voltou costas à paisagem. No quarto tudo regressara aos devidos lugares. Nada partido. Tudo em paz… Tudo, menos ele. 

actos de dor

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