“Mãe, Pai… lamento imenso por fazer isto. Quando estiverem a ler esta carta já há muito terei desaparecido. Desde o meu primeiro Susto que descobri que a nossa sociedade não é bem o sítio idílico que os administradores fazem pensar. O meu medo não está apenas nos predadores naturais, mas em todos os animais, incluindo os humanos.

Há algo de errado com o que fazem com os humanos na cirurgia. Vocês podem não entender o que estou a dizer, mas eu percebi-o neste ano. Não fui a primeira, nem serei a última, mas por causa disso terei de fugir para onde não me encontrem.

Não me procurem. Não falem nunca do que leram. Os administradores vigiam-nos de maneiras que não percebemos, eles sabem que eu tenho medo de humanos e querem apanhar-me. Peço-vos: destruam isto depois de lerem. Não me procurem. Saibam apenas que, se fugi estarei num sítio onde me sinta bem, se fui apanhada, já estarei aprisionada ou morta algures, possivelmente com outros que sentiram o mesmo. Amo-vos.

Lauren”

Foi a carta que Lauren deixou no seu quarto, antes de sair pela janela nas primeiras horas da quinta manhã após ter recebido a carta dos administradores. Poucas eram as pessoas na rua, porém a polícia de vigilância não a pararia por caminhar com uma mala de campismo às costas. Teria de fugir antes dos administradores chegarem. Eles não a levariam para o novo emprego, mas sim para algum sítio onde a pudessem esconder.

Levava consigo comida, roupa e dinheiro. Passara o dia anterior a saber o que podia sobre a localização das florestas temperadas no mundo. Na primeira semana apanhara os transportes mais rápidos e que a levassem para o mais longe possível da cidade. Tentara fazer o mesmo na segunda semana, mas foi aí que as dificuldades começaram a aparecer. O dinheiro não era infinito, e se queria continuar a viagem por mais tempo teria de utilizá-lo para comprar comida onde pudesse, antes de entrar em terrenos inabitados.

Na terceira semana acabaram-se os transportes. Após o primeiro mês já não tinha comida nem onde comprá-la. Caminhava durante as primeiras horas da manhã e da noite, onde os seus sentidos estavam mais apurados e conseguia detetar qualquer problema que aparecesse. Durante a noite caçava pequenos animais e assava-os em fogueiras que fazia com algum esforço.

Conforme viajava, o mundo à sua volta mudava. Depois de centenas de quilómetros de metrópole, Lauren começou a ver os edifícios a diminuírem cada vez mais de altura. Passaram a estar mais afastados uns dos outros, quase como pequenos postos de controlo para quem passasse por ali. Que não era quase ninguém. Não eram só as casas a diminuírem, a população decrescia ao mesmo ritmo.

A última vez que vira algum sinal de vida humana tinha sido já há semana e meia. O último posto antes das Grandes Montanhas. Fora nesse posto de controlo que soubera que estava a ser procurada. Havia fotos suas estavam afixadas em placares na estrada, informando que tinha desaparecido e para contactarem caso alguém a avistasse.

Ninguém a viu. Conseguiu passar as Grandes Montanhas a custo, mas passara todos os dias a olhar sobre o ombro, temendo encontrar alguém que pudesse denunciar a sua localização.

Agora, chegara à periferia das florestas temperadas. Não havia qualquer sinal de atividade humana. Estava tudo intocado, o vento sussurrava por entre as árvores enormes e ao longe ouvia-se o barulho de inúmeros animais.

– Cheguei finalmente. – O hábito de falar sozinha aumentara com a fuga, ao ouvir a sua voz sabia que tinha mantido um pouco da sua sanidade. – Padi, onde estás?

Agora que chegara ao seu objetivo, não sabia qual seria o próximo passo a tomar. As florestas eram enormes, hectares atrás de hectares, podia passar meses a percorrer todo aquele terreno sem encontrar Padi.

– Não posso ficar aqui, estou demasiado próxima das montanhas… – Lembrou-se da sua experiência na Arena. De como quando encontrara o leopardo-das-neves, a paisagem era semelhante, com temperaturas frias. Arrepiou-se ao pensar no ataque e decidiu embrenhar-se na floresta.

O tempo foi passando. Os dias de Lauren tornaram-se mais simples, fazia o mesmo que durante a sua fuga, andava pela floresta nas mesmas horas do dia, caçava e cozinhava o que conseguia, agora com maior sucesso com a maior quantidade de presas. Dormia no topo das árvores, por entre os ramos, tal como um panda-vermelho. Lauren começou a sentir que podia finalmente relaxar ali e que os administradores não a apanhariam, se calhar até já se tinham esquecido dela.

Sem perceber, o seu ano de mudança passara e com ele o seu vigésimo segundo aniversário. Agora era uma adulta da População Natural com a sua mudança completa. Mas nada disso surgia na cabeça de Lauren, que agora vivia realmente no seu habitat natural.

Até que o destino a atirou de encontro com outras pessoas da População Natural.

Para Lauren era um dia como qualquer outro. Já estava habituada àquela rotina. Caminhara pela floresta durante aquelas horas antes do sol nascer, onde tudo é um gradiente de cinzento, e, sem obter nada de novo, subiu a uma árvore alta, onde podia ver o topo das outras árvores, preparando-se para descansar.

Tentava arranjar uma posição confortável, quando viu, a alguma distância, um panda-vermelho. A sua cabeça fulva, escondida entre a folhagem olhava para ela com curiosidade. O cansaço desapareceu da rapariga que logo se levantou para ir atrás do animal.

No entanto, quando lá chegou, já ele estava noutro ramo, de uma outra árvore mais à frente. Ainda olhava para ela, como se quisesse que o seguisse. Lauren assim fez. Correu equilibrando-se entre os ramos das árvores, e no chão, quando não o conseguia fazer. E quando finalmente chegou ao pé do panda-vermelho, percebeu que este não era só um panda-vermelho.

A cara era igual à do animal, e o corpo estava coberto do mesmo pelo, mas o tamanho era o de um humano. E, quando percebeu, levantou-se sobre as duas patas, ou pés, e sorriu para ela.

– Bem-vinda pequena. Estavas perdida? – A voz era de um homem.

– N-não. Quem és tu? – A sua voz falhou quando tentou comunicar com outra pessoa pela primeira vez desde há muito tempo.

– O meu nome é Vasd. Sou um humano-panda-vermelho.

– Um homem-panda-vermelho? Tu vens da População Natural? – A ideia de ter sido descoberta pelos administradores apareceu-lhe na cabeça, algo que já não pensava há muito. Começou imediatamente a olhar em volta, tentando achar todas as suas possibilidades de fuga.

– Sim, venho, tal como tu, suponho. Mas já não ponho os meus pés lá há muitos anos.

A nova informação quebrou a atenção que Lauren estava a dar à sua fuga, focando-se totalmente no homem.

– Há anos? Como assim? O que fazes aqui?

– Não estavas à nossa procura? – A cara do homem transformou-se numa expressão de desconfiança, mesmo por debaixo de todo o pêlo e com o focinho, percebia-se como se fosse um humano normal.

– Não, não estava. Mas eu também fugi da População Natural! – disse depressa, antes que o homem percebesse mal as suas intenções. – Eu, na verdade, estava à procura de um amigo meu, o seu nome é Padi.

– Padi? Mas ele está connosco, pequena. Afinal sempre estavas à nossa procura. – Riu-se do que dissera.

– Ele está convosco? Quem são vocês?

– Quer dizer que não sabes mesmo nada de nós?

– Não. Já disse que vim à procura de Padi, não esperava encontrar mais ninguém aqui nestas florestas.

– Oh pequena… vem, segue-me. – Vasd começou a andar sobre os dois pés como um humano normal.

– Eu não vou seguir-te sem que antes me digas quem é que vocês são!

– Prometo que entenderás quando chegares ao sítio para onde vamos. Não te quero mal nenhum. O que te posso prometer é que nada de mal te acontecerá aqui, estás em segurança da População Natural. – Fez um gesto com a mão para segui-lo. – Vem…

Lauren decidiu segui-lo. Andava sempre alguns passos atrás dele, esperando ser apanhada pelos administradores a qualquer momento. O homem de vez em quando olhava para trás, certificando-se de que ela ainda o seguia.

Caminharam por imenso tempo. A única pista que Lauren tinha sobre a direção que iam eram as Grandes Montanhas, cujos picos se afastavam cada vez mais. Tanto caminhavam no chão como subiam a árvores e saltavam por entre os ramos.

– Chegámos. – disse Vasd.

Lauren olhou à volta. Não via nada de especial, nada que sobressaísse do verde e castanho que predominava naquela paisagem.

“É uma armadilha”, passou-lhe pela cabeça.

Contudo, assim que pensou nisso, viu outra pessoa-panda-vermelho. Esta tinha patas traseiras e orelhas do animal e o resto do corpo humano. Começou a olhar à sua volta e reparava em cada vez mais pessoas. Cada uma com características do panda-vermelho: patas, caudas, orelhas, focinhos, pelagem, variava de pessoa para pessoa.

E não eram apenas as pessoas que Lauren notava agora. No meio da folhagem das árvores, estavam construídas pequenas casas da mesma cor do ambiente que as rodeava, que abrigavam essas mesmas pessoas. Ouvia-as agora perfeitamente a falarem umas com as outras, cada vez saindo mais gente e aproximando-se deles.

– O que é isto? – questionou Lauren, perplexa com a vida que explodia ali e que ela nunca tinha encontrado, mesmo após todo aquele tempo a vaguear pela floresta.

– Isto era o que eu estava à procura. – Uma voz familiar fez-se ouvir do meio das pessoas que rodeavam Lauren. A rapariga tentou perceber de onde vinha a voz e, após um pouco de observação, encontrou-a. Padi estava à sua frente, o oposto do que vira da última vez. Sorria e parecia mais leve. Sem o peso do medo nos ombros, era um homem diferente daquele que ela conhecera nas sessões.

– Padi! – gritou enquanto corria para ele para abraçá-lo. – Procurei tanto tempo por ti. Pensei que tivesses sido apanhado pelos administradores. Tentei convencer Lucin a vir, mas ela não quis. Eles andavam à minha procura, pensei que fosse ser apanhada e que ia morrer e…

– Calma, Lauren. – O homem retribuiu o abraço e, quando a rapariga começara a debitar tudo aquilo, as lágrimas dela jorraram – Já passou tudo, não te preocupes. – Afagava as costas da rapariga, tentando acalmá-la.

Ficaram todos ali, à espera que a rapariga acalmasse o seu choro. Alguns olhavam seriamente para ela, outros sorriam num jeito de simpatia. O choro foi diminuíndo até se tornar apenas num soluçar ocasional.

– Como é que chegaste aqui? – perguntou, esfregando os olhos e as bochechas para limpar as lágrimas.

– Fugi no meu carro. Planeei tudo de forma a não notarem a minha ausência durante uma semana. Pedi para ter férias, enchi no mês anterior a casa e o carro com tudo o que precisaria. Depois da última sessão fugi para cá. Abandonei o carro antes do último posto de controlo e, como ninguém me procurava, consegui fugir sem preocupações. – Olhou à sua volta. – Como tinha recolhido informações e mitos sobre a existência de um sítio como este, consegui encontrá-lo passado uns dias.

– Mas que sítio é este?

– É o paraíso para nós, Lauren. Tu fugiste por causa do medo, não foi? – Ao assentir da rapariga, continuou. – Todas as pessoas que aqui estão fizeram o mesmo. Os administradores fizeram-nos pensar que só havia três pessoas-pandas-vermelhos, mas havia muitos mais antes. Mas ninguém sabe porquê, alguns desenvolvem este medo de humanos e têm de fugir. Acabam por vir para aqui, o habitat natural dos pandas-vermelhos.

Lauren olhou para as outras pessoas, eram todas mais velhas que Padi, a maior parte mais velhas até que Lucin.

– E os administradores não sabem que vocês estão aqui?

– Não sabemos… – Vasd falou antes de Padi responder – Alguns de nós acham que eles sabem da nossa existência e permitem-nos viver aqui. Outros dizem que os administradores pensam que morremos algures e não sentem de todo a nossa falta por trazermos uma falha ao sistema deles.

– E vocês não fazem nada?

– Chega desta conversa! – Do meio das pessoas veio uma idosa. O seu pêlo era já de um laranja desmaiado e o branco mais perto do cinzento, também tinha orelhas como um panda-vermelho, que estavam puxadas para trás. Ao andar apoiava-se numa bengala e, atrás de si, seguiam dois pandas-vermelhos, caminhando contentes como dois cachorrinhos. – A rapariga chegou agora, precisa de descansar! Parem de chateá-la com essas tontices. – Agarrou num braço da rapariga. – Ajuda-me a caminhar, vá! Os meus ossos já não são o que eram…

Lauren olhava para Padi e Vasd, questionando com o olhar quem era aquela mulher.

– A nossa estimada anciã, Laura. – Vasd olhou para Laura e disse: – Laura, a rapariga tem nome, chama-se Lauren.

– Lauren, é? Bonito nome… Vem, anda, vamos comer alguma coisa, és muito magrinha para alguém da tua idade, vem, vem. – E puxou Lauren pelo braço.

Lauren caminhou com a anciã por entre os troncos que seguravam as casas daquela aldeia, atrás dela seguiu Padi e Vasd. As pessoas que tinham vindo recebê-la continuaram as suas vidas, subindo para as copas das árvores. As pequenas crianças, completamente humanas, voltaram às suas brincadeiras no chão, a correr de um lado para o outro.

A vida naquele lugar continuou, com a adição de mais uma pessoa que, apesar de ter chegado ali devido ao seu medo, contribuiria para a felicidade do que seria a verdadeira População Natural.

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