As pessoas desembocavam na avenida, rumo à saída do Père-Lachaise e ao mundo dos vivos.

Etienne pisava, a passo apressado, as pedras negras na entrada. Desejava deixar ali encerradas todas as memórias. Talvez não voltasse amanhã, Etienne considerou, saindo pelo portão.

Para Nicolas, a descida era ainda mais dolorosa do que a subida. Cuidava onde assentava cada pé, evitando os blocos incertos. Passou a casinha dos seguranças e pisou a rua, murmurando “Até amanhã, meu amor.” Voltaria todos os dias. Voltaria, até não conseguir caminhar e, mesmo aí, o seu espírito rumaria sempre ali, onde deixara a sua alma enterrada.

Vicente e Giulia caminhavam de mãos dadas para a liberdade. Evitavam o fluxo dos visitantes com a perícia de quem o fizera demasiadas vezes. Avançaram pela saída, cruzaram a pedra que delimitava o cemitério. De mão vazia, Vicente olhou para trás.

A meio da avenida empedrada Giulia restava imóvel.

Do lado de fora, Vicente sabia que voltaria no dia seguinte e todos os que fossem precisos até conseguir trazer a sua noiva consigo.

Por fim, Sebastian deu com o portão. Exalando de alívio, correu para a saída, desviando-se dos turistas que saíam a passo ocioso. Precipitou-se sobre os portões, sem se deter com os arrepios ou as náuseas, as articulações doridas ou os tremores. Com pé direito a trespassar o limite do cemitério viu-se de volta ao local de sepulcro. De novo, em frente à campa mais recente, à mesma placa, àquele monte de terra onde jazia.

De braço dado, Eva e Hélène amaldiçoavam o corrupio de gente. Os curiosos, que tardavam em sair do cemitério, demorando-se como se os mortos fossem coisa que se visitasse por prazer. Evitavam encontrões e as pedras desniveladas. Avançaram para a rua, esfumando-se na barreira invisível que separava os vivos dos mortos. Desaparecendo, no limite onde o ciclo de vida se completa. No ponto onde se interliga com uma outra existência, onde se vive em morte. Porque há vida… até na morte.

a dança sagrada

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