Eva apertou a mão de Hélène. Se aquele miúdo louro se aproximasse ela mostrar-lhe-ia que já não era feita de medo. Mas o rapaz só tinha olhos para o monte de terra à frente dele. Voltou os olhos para a campa do assassino.

– Achas que sofreu? – Hélène perguntou.

– Sim, e que continue a sofrer no fogo no inferno.

Hélène concordou com um aceno de cabeça. Os lábios apertando-se numa linha estreita. Irmãs de tez cinzenta, negrume nos olhos e no semblante, debruçadas sobre o mesmo morto.

Eva carregava a sua culpa. Nem tudo se devia àquele maldito. Se tivesse ido direita a casa. Se não tivesse saído naquela noite…

Ele jogara na perfeição, medira as palavras, cercara-a e atraíra-a. Tinha muita prática.

Mas Eva não se perdoava. Carente e burra. E o nojo que isso lhe provocava. Fechou os olhos e apertou a mão de Hélène.

Todos haviam escolhido, e as escolhas haviam selado o destino. A raiva crescia, o ódio por aquele animal, o nojo de si própria. Confusa e perdida, o que faria sem o conforto da sua irmã de circunstâncias?

Todos os dias o amaldiçoava, rogando que a vida após a morte lhe trouxesse o que lhe era devido. Que a dor que espalhara o perseguisse para sempre, que nunca descansasse paz. Elas nunca a teriam.

Um grande corvo preto pousou na sepultura, bicando algo na pedra, despertando-as da neblina de pensamentos. Os portões encerrariam daí a pouco.

– Temos de ir, Eva.

– Sim.

Com um último olhar na direcção dos restos do monstro, Eva e Hélène encaminharam-se para o alcatrão, rumo à saída.

a dança sagrada

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