Aurora viu Alex debruçar-se sobre ela, enquanto Marco lhe sussurrava ao ouvido coisas como “Vem, amor”, “Vamos fazer a nossa última viagem”, “É o que queres? Não é? Não resistas.” E, por último, uma só palavra murmurada repetidamente “Escolhe”.

Faltavam-lhe as forças, deixou-se cair para trás, a nuca embatendo na rocha, roubando-lhe os sentidos.

Embalada no abraço de Marco, abriu os olhos à miríade de cores que bailavam no céu. O cheiro intoxicante dos pinheiros e espruces envolviam-nos, o silêncio era total, não havia dor. Tudo desaparecera. Apenas o calor de Marco, o céu rasgado em cor e as árvores espinhosas permaneciam. Aurora suspirou profundamente, aninhando-se contra o corpo quente de Marco, com um sorriso de contentamento nos lábios.

– Vens, amor?

– Onde?

– Comigo – os olhos azuis do marido brilhavam.

– A nossa viagem – ela murmurou, enroscando-se mais no peito dele.

– Estamos aqui, na nossa viagem. Agora tens de escolher – Marco sussurrou, enterrando os lábios nos cabelos dela com uma inspiração profunda.

– Já te escolhi há muito tempo.

– Pois escolheste – ele retorquiu, ajeitando-a para que os seus olhos se encontrassem de novo. – Agora tens de escolher de novo.

– Porquê?

– Vês o céu? Aquilo é maior que tudo. A vida é mais do que o céu escuro por cima da nossa casa. Há luz e cor mesmo na escuridão, só precisas de ir até ela.

– Mas eu não quero que vás!

– Estás preparada para ir comigo?

– Eu quero estar contigo.

– Vive, amor. A noite tem muitas cores e a vida tem de continuar.

Aurora sentiu o ar gelado percorrer-lhe o peito. A dor aguda substituída por uma pressão na caixa torácica. Inspirou com rapidez, sôfrega por ar e, ao abrir os olhos, Alex pairava por cima dela, de mãos pousadas por cima do coração e respiração ofegante.

– Aurora? Aurora? Consegues ouvir-me?

Ela moveu um pouco a cabeça, o rosto de Alex mais nítido a cada segundo.

– Aguenta. Vamos levar-te para o hospital.

– Porquê? – A voz era um pálido sussurro.

– O teu coração… parou. Não desistas. Luta!

Por cima deles, embrenhado no céu vibrante, o rosto de Marco pairou esbatendo-se em seguida. No ar, a voz dele morria, murmurando “Vive, meu amor. Vive.”

Tua Aurora

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