Saltei por cima do amontoado de caixotes que bloqueavam a rua estreita. Bati com os pés no topo da pilha, fazendo-a desmoronar. O salto mal calculado quase me fez cair. Recuperei o equilíbrio ainda em corrida. Não olhei para trás. Ainda ouvia os seus passos apressados. Seguia-me o rasto pelas ruas. Queria sangue.

Não podia fugir eternamente, mas não queria acabar como os meus irmãos. Apanhara-nos de surpresa. Caíra-nos em cima num beco sem saída. Vi-o trespassar o peito de um deles com a lâmina do sabre. Ripostámos mas, com um movimento rápido e letal, decepou a cabeça do meu irmão mais velho. Estava sozinho. Fugi.

Empurrei a porta de um dos velhos edifícios da cidade e entrei. Avancei pela escuridão. Tacteei o meu caminho pelas paredes cobertas de vegetação enquanto os meus olhos não se adaptavam à fraca luminosidade. Os corredores apertados e cheios de entulho formavam autênticos labirintos onde poderia despistá-lo.

Ouvia-se a madeira a estalar e a partir e depois, um estrondo. Comecei a correr. Não o via, mas ouvia os passos rápidos aproximarem-se. Encontrara o meu rasto.

O piso por baixo de mim cedeu. A estrutura demasiado fragilizada não aguentou com o meu peso. Caí, desamparando a altura de um andar, estatelando-me contra o piso da cave inundada.

Mergulhei na água fria. O nível da água devia estar a meio metro do chão. Dorido, tentei levantar-me. Senti uma dor aguda na perna esquerda. Coxeei até a um canto.

Arrastei-me para a porta da cave e saí para um corredor apertado, também ele inundado. Ouvi passos no piso de cima. Ele estava cada vez mais próximo.

Apoiei-me contra a parede de tijolo, coxeei até à base da escadaria que levava de novo ao piso de cima. Cerrei os dentes e com a perna a sangrar, comecei a subir os degraus gastos e escorregadios.

Ofegante, alcancei o topo. Empurrei a porta de madeira entreaberta e avancei para uma pequena sala cuja mobília estava desfeita a um canto. Cambaleei para a janela mais próxima. Estava no piso térreo, talvez conseguisse fugir por ali.

Uma sombra abateu-se sobre mim. Lancei as minhas garras em direcção ao atacante, mas este era mais rápido que eu. Procurei esquivar-me, porém, antes que me pudesse mexer, senti o frio do aço atravessar-me o peito. Perdi as forças que me restavam e desequilibrei-me. A lâmina do segundo sabre voou na minha direcção. Escuridão…

***

Jean-Pierre puxou o sabre e retirou a lâmina do peito do demónio morto. Finalmente apanhara o desgraçado. Havia já três semanas que procurava aquele trio de demónios. As bestas tinham ganho o gosto pela carne humana. Num mês contavam doze adultos e três crianças mortas.

Pegou num farrapo e, pressionando-o contra a lâmina da arma, limpou-a o lodo que  a cobria. O sangue dos demónios corroía o metal. Olhou para a cabeça de réptil decepada que jazia no chão. Os caninos afiados sobressaiam do maxilar superior, prontos a rasgar a garganta das presas.

Jean-Pierre suspirou, exausto. Um dia, seria ele a presa e não o caçador. Até esse dia, a sua missão era clara: matar todos os demónios que encontrasse pelo caminho, até que a Humanidade se livrasse daquele flagelo.

O Caçador

Anúncios