Vida, natureza viva por todo o lado. Aurora inspirou fundo, o sal misturando-se com as fragrâncias dos arbustos ali tão perto. Ancoraram à beira duma floresta feita de árvores esguias e pontiagudas. Uma imensidão de verde que se estendia a perder de vista e trepava pelas encostas das montanhas. De dia, a costa norueguesa era qualquer coisa de extasiante. Agora era tempo de esperar a noite, pedir um céu límpido e uma dança de luzes.

Um bote levou-os até à margem, permitindo que o início da segunda noite do passeio fosse passado na floresta boreal. Duas experiências distintas, a privacidade e a novidade haviam feito Aurora esvaziar perto de metade das suas poupanças. Tudo para poder realizar um desejo e cumprir um desígnio.

Sentou-se numa elevação de rocha, tão perto da água que se esticasse os pés, ficariam de molho. Os outros deambulavam entre as árvores, investigando um pouco da preenchida orla florestal. A noite caía e o céu começava a encher-se duma escuridão bem-vinda. O frio mordia-lhe as bochechas e Aurora enrolou os braços à volta das pernas, o seu casaco de penas formando uma bola branca.

– Posso fazer-te companhia? Ou queres que me vá embora? – Alex murmurou, permanecendo de pé, ao lado dela.

– Podes ficar. Senta-te.

– Se quiseres estar sozinha, posso ir atrás do casalinho em lua-de-mel… – ele ofereceu, com uma gargalhada.

– Deixa-os gozar a natureza. – Aurora retorquiu, com um sorriso.

Alex sentou-se, com um sorriso nos lábios, imitando a posição dela. Olhou o céu, permanecendo calado.

– Porque estás aqui? – ela murmurou, ao fim de uns momentos.

– Férias. Sempre quis observar a Aurora Boreal.

– Sozinho? Não é habitual…

– Pois… não era suposto estar sozinho. Mas tu também estás aqui – ele afirmou, com um sorriso pouco entusiástico.

– Sim, estou. Vim despedir-me do meu marido – murmurou.

– Faleceu?

– Sim. Há dois anos. E tu? Quem devia estar aí contigo?

– Noiva… Esposa, se aqui estivesse.

Aurora olhou para o perfil do rosto dele, os cabelos escuros emprestando-lhe uma tristeza que antes lhe escapara.

– Lamento muito – ofereceu.

– Eu também. Por mim e por ti.

Os primeiros rasgos de cor materializaram-se sobre o horizonte escuro, como caminhos que invadiam os céus, espalhando a luz, protegendo a terra da noite. Uma miríade de luzes que cruzavam o céu, iluminando-o, transformando a noite em dia, a escuridão em luz.

– Lindo! – Alex murmurou, ficando de lábios entreabertos perante o espectáculo de cor.

Com o peito num aperto, Aurora colou os olhos no céu. “Aqui estamos, amor”, pensou com a sensação que uns braços a envolviam e a recostavam contra algo quente, familiar. Ficaram ali sentados. Os dois corpos físicos e a presença etérea de Marco. Um momento desejado, o qual, a presença de Alex não conspurcava.

Aurora sorriu e uma brisa quente soprou-lhe ao ouvido “Estou aqui contigo, meu amor.”

Não podia estar mais próxima dele do que estava naquele momento. Fora por isso que viera até à Noruega, que comprara aquela viagem e arriscara deixar tudo para trás e partir sozinha para uma despedida. Marco era agora uma presença constante. No seu coração doído, na mente repleta de lembranças, no próprio espaço que o seu corpo ocupava.

A aurora boreal, rodeada pela floresta boreal, na costa recortada da Noruega, era tudo o que desejara. Era mais do que isso, com Marco a seu lado, em cada momento realmente importante.

Uma dor aguda no coração fê-la recostar-se no corpo etéreo do seu marido. De respiração entrecortada, os sentidos rodopiavam ao ritmo das luzes dançantes. Faltava-lhe o ar, a visão turvou e Alex murmurou qualquer coisa que ela não percebeu. Agarrou o braço esquerdo e segurou-o contra o peito, as golfadas de ar não aliviavam a pontada de dor constante, que aumentou até a paralisar.

Tua Aurora

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