O seu pai baptizara-a Aurora, por dois motivos. Ela fora o presente que ele nunca julgara vir a ter e porque tinha uma paixão incomensurável pela Aurora Boreal.

Oferecera-lhe o primeiro telescópio, levara-a em todas as noitadas de observação de estrelas, incutira-lhe o bichinho de vir a ver o fenómeno ao vivo. Marco, o seu marido, partilhara com eles a mesma paixão e as viagens com o grupo de astronomia da zona. Fora assim que se haviam conhecido.

Aurora abriu os olhos e fixou a pequena lâmpada que pairava por cima da sua cadeira. O avião começava a descer sobre o aeroporto de Tromso. Espreitou pela janela sem discernir nada mais do que a escuridão da noite. Doíam-lhe as costas de tantos transbordos. Primeiro Heathrow, depois Oslo e finalmente, descia sobre Tromso, onde em breve poderia esticar-se numa cama e dormir as restantes horas que lhe faltavam até embarcar na viagem da sua vida.

Agarrou o medalhão que trazia ao pescoço. A pequena ametista cobria-se do roxo escuro habitual mas, sob a luz certa, sobressaía uma tonalidade rosa. Lembrava-a dum quadro com a aurora boreal, ainda pregado na parede do escritório de sua casa. Era a sua aurora boreal personalizada, brincara Marco ao oferecer-lhe a jóia. Rodou o pendente nos dedos e sentiu-o aquecer sob o seu toque. Tinha dois lugares vagos ao seu lado, no avião que seguia para norte. Sorriu, contemplando qual dos seus dois homens, se pudessem ali estar, estaria a apreciar mais a viagem. O pai, com toda a sua paixão de astrónomo amador, ou Marco que o havia sido na realidade. Suspirou, deixando o medalhão cair dentro da gola e fechou os olhos. Ambos teriam adorado.

Agarrou a mala do compartimento superior e trilhou atrás das dezenas de passageiros. Sozinha entre tantos outros que buscavam o mesmo que ela. O mesmo, não. A sua experiência pessoal e única de um dos fenómenos naturais mais deslumbrantes do planeta… e a possibilidade de se sentir próxima daqueles que amava e já haviam partido.

Durante dois anos recusara fazer a viagem. Aquela que sabia que teria de fazer, mais cedo ou mais tarde. Perdera o pai e, dois meses depois, Marco. A dor fora demasiada para ainda rebolar na mágoa, por isso, adiara. Mas era hora. Hora de aceitar que ambos os homens haviam partido. Hora de regressar à vida.

Foi com uma picada aguda no peito que assentou o pé no solo norueguês. Aurora queria despedir-se… talvez, depois, pudesse recomeçar. Mas o seu coração parecia determinado a relembrá-la do passado. Rumou ao interior do aeroporto, em passo apressado e de coração aos pulos, recuperou a bagagem e seguiu o seu caminho.

Um táxi deixou-a no hotel. No dia seguinte iria até às docas onde o barco, que a levaria até uma das ilhas mais a norte, estava ancorado. Decidira contra as grandes viagens comerciais, os percursos turísticos arranjados, os enormes paquetes que carregavam gente até ao gelado mar da Noruega. Não, naquela viagem precisava de se sentir conectada com outra natureza que não a humana. Optara por um grupo mais informal, um percurso em que podia apear-se numa das ilhas e observar o fenómeno, sem o burburinho de centenas de turistas abonados e mal-educados. Precisava de paz para reflectir no que a atormentava… paz para se despedir e enterrar, de vez, o homem da sua vida.

Adormeceu, assim que a cabeça pousou na almofada da pitoresca residencial. Voos e aeroportos, a imagem do pai e a voz de Marco, preencheram os seus sonhos. Acordou com um aperto no peito quando a luminosidade na rua era uma pálida amostra da que existia na sua terra, àquela hora, em pleno mês de Fevereiro. Abriu os olhos à penumbra do seu quarto. Empurrou a colcha para os pés, e sentou-se contra a cabeceira, amaldiçoando uma dormência num braço. Sentia as gotas de transpiração a escorrerem-lhe pelas costas abaixo. Deixou-se ficar no escuro, no quente. Abraçou as pernas quando uma voz tão familiar como a sua a despertou da contemplação.

–  Já cá estás, amor. – Marco murmurou, materializando-se, sentado aos pés da cama com um sorriso nos lábios.

– Sim. Já cá estou…

Tua Aurora

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