O comboio parou na estação anterior àquela em que Marta costumava sair.

Diese Zug endet hier, bitte alle aussteigen! – Informaram pelos altifalantes.

Ficou de olhar fixo na direcção do som, esperando compreender o que tinha sido dito. As pessoas começaram a sair. Hesitou, mas a possibilidade de ficar sozinha acabou por ditar que as seguisse. Assim que os pés entraram em contacto com a plataforma isolada, em metal pintado de vermelho, viu no painel que o comboio iria voltar para trás.

Foi então que se lembrou que algo havia sido anunciado. Soprou com força o ar que tinha nos pulmões. Não entendia quase nada do que ouvia. Durante todo o dia era confrontada com o alemão. Ninguém falava inglês. Talvez não soubessem, talvez não quisessem. Apesar de estar a aprender, pouco mais captava que as gravações automáticas dos transportes públicos. Prestar atenção às palavras estranhas deixava-a com dores de cabeça e ignorar era tão mais fácil.

Ouviu os motores de um avião ali perto. Olhou para o céu e o som desapareceu tão rápido como tinha aparecido.

Reteve a respiração e o coração falhou uma batida. Tinham passado poucos dias desde que tivera aquela visão no largo em frente a casa. Esfregou os olhos. As pernas tremiam-lhe. Sentiu os joelhos enfraquecer.

– Malditos alemães! – Murmurou, cambaleando até se sentar num banco.

Odiava quase tanto a frieza dos povos germânicos como duvidar da sua própria sanidade. O comboio começou a movimentar-se no sentido de onde tinha vindo.

As forças regressaram-lhe. Levantou-se e desceu as escadas, saindo da estação, que ficava uns dois andares acima do nível do solo. A linha passava por cima da estrutura de betão que cobria o pequeno largo. Uma pequena multidão concentrava-se ali, esperando não se sabe bem pelo quê. Vagueou, esperando encontrar alguém que falasse uma língua que Marta compreendesse.

– Não sei, o Rui saiu meia hora antes de mim – explicou um trintão de boné na cabeça.

– Eles só fecharam às sete. A esta hora já deve estar em casa… – acrescentou uma mulher baixa e forte.

Receosa, aproximou-se do trio, deliciada por ouvir a língua materna ao vivo. Quando se deu conta, os olhares dos três estavam fixos nela, apercebendo-se que estava a fazer figura de parva.

– Boa noite, desculpem, podem-me dizer o que se passou com os comboios?

– Encontraram uma bomba e decidiram cortar o tráfego perto da ponte – respondeu o mais velho, que cultivava um bigode.

Marta franziu o sobrolho. Seria possível que esta loucura do terrorismo tivesse também chegado à Alemanha?

– E como é que posso ir para Veddel?

– Ui, só lá vais de táxi! – sugeriu o de boné.

Marta sabia que não tinha dinheiro para isso. Não contava ter de passar tanto tempo ao ar livre e as mãos começavam a gelar-lhe.

– E a pé?

– A pé não vais lá não!

– Ah! – exclamou, ficando de súbito interessada nas suas sapatilhas. – Obrigado, então… e boa noite.

Virou costas aos imigrantes, decidida a voltar para a plataforma e resguardar-se do vento frio.

A sirene fez-se ouvir. Um holofote varreu os céus.

Piscou os olhos. Nada, nem holofotes nem sirene. Tudo tinha voltado ao normal. Sentia-se ofegante. Da outra vez também tivera dois avisos antes de ser enviada, ou achar que o fora, para o passado.

Colapsou nos degraus da escada, com uma lágrima a nascer no canto do olho. Enterrou a cara nas mãos e nem assim o tremor no braço diminuiu. Tudo lhe parecera tão real. Sentia a sanidade escapar-lhe por entre os dedos.

O som de travagem de um autocarro fê-la levantar a cabeça. Tarde demais, as pessoas que se acumulavam à porta nunca conseguiriam entrar. Levantou-se, irritada por ter perdido a oportunidade de sair dali. Limpou as bochechas, ainda mais aborrecida por ninguém lhe ter perguntado se estava bem. A típica afabilidade alemã.

Depois de muita confusão, num estilo nada alemão, o autocarro partiu e uma pequena multidão continuava ali. Caminhou entre eles, reconhecendo as várias línguas que ali falavam. Espanhol. Italiano. Inglês. Harburg parecia ser o lugar dos imigrantes. Achegou-se à frente, disposta a não deixar escapar a próxima oportunidade de sair dali.

O frio era o mesmo e a escuridão muito mais densa. Um edifício do outro lado da rua estava bastante danificado. A multidão e a ponte haviam desaparecido. Um holofote varria os céus. O som dos motores zumbia por cima da sua cabeça. Olhou para o firmamento sem conseguir encontrar a fonte do ruído que parecia vir de todos os lados. Não se via vivalma na rua.

Ouviu um estrondo e depois outro. Haviam sido ali perto. Não percebeu se eram bombas a rebentar ou disparos das anti-aéreas que havia visto dois dias atrás num museu. O negrume oprimia-lhe os sentidos. A pouco mais de meia centena de metros, viu um par de sombras. Quando uma parca luz incidiu sobre eles, percebeu que eram soldados.

– Merda! – articulou, ao perceber o sarilho em que estava metida.

Tentou prever o que aconteceria quando eles a interpelassem e, tendo em conta a época em que viera parar, nenhuma das possibilidades lhe parecia promissora. O coração dava pulos no peito. Para piorar, deduziu que só falariam alemão. Susteve a respiração. Tudo se resumia a uma questão: ficar ou fugir?

As duas figuras avançaram em passo rápido. Marta, num arranque súbito, atravessou a estrada esburacada. Os militares gritaram qualquer coisa. Esperou ouvir disparos a qualquer momento. No instante seguinte, foi projectada para a frente. Tropeçara em algo. A queda pareceu-lhe durar uma eternidade. Não ia conseguir fugir. Fechou os olhos.

Os braços ampararam-lhe a queda. Uma buzina fez-se ouvir com intensidade. Sentiu uma dor aguda no cotovelo. Descerrou as pálpebras. Estava deitada no passeio do lado oposto da estrada. As pessoas e os carros haviam voltado. Deixou-se ficar no chão. Ninguém se preocupou em ajudá-la.

Estava a ficar maluca. O que acabara de acontecer era prova disso. A consciência da situação roubou o que lhe restava da vontade de se erguer. Autorizou lágrimas a percorrerem-lhe as bochechas. O frio do pavimento entranhou-se na roupa. Começou a tremer.

Pareceu-lhe real. Tal como da outra vez.

Levantou-se num ápice, atraindo as atenções de quem a rodeava, determinada a não se deixar vencer por um par de alucinações. Maluca ou não, a vida haveria de continuar.

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