Randirath ú-vistar (Nem todos os que deambulam estão perdidos)
Nunca seria digno de Arwen. Palavras de Elrond, o seu pai, e a minha mais profunda convicção. Mesmo consciente dessa verdade, não impedia o meu coração de acelerar a cada vislumbre da sua beleza etérea, a cada lembrança desse rosto, fadado a não ser meu.
Aragorn, o Rei sem trono, acolhido como filho por Elrond, como irmão por Elladan e Elrohir, nunca seria mais que um descendente dos Homens e, por isso, indigno de Arwen, a Undómiel.
Com o cansaço imbuído nos ossos, entrei em Lothlórien, onde esperava que a familiaridade élfica apaziguasse as inúmeras batalhas nos confins de Mordor. Recebido pela Dama Galadriel que, na sua imensa beleza e sabedoria, se esforçou por retirar do meu corpo, se não do meu semblante, todos os vestígios da estrada.
Décadas haviam corrido por baixo dos meus pés. Calcorreara-as todas com a incerteza dum destino firmado, ou a esperança de algo maior do que eu próprio. Arwen, a Undómiel, era uma chama acesa no meu âmago. Eu queria-a como a nenhuma outra. Mordor não me afastara dessa sede que me consumia a cada passo, um poder que só o impossível detém sobre os Homens.
Não me preparara para um reencontro. Desejava-o, mas não me cuidara e quando a vi envolta numa longa túnica prateada, os cabelos negros caíam pelos seus ombros, os seus olhos cinza, a sua beleza etérea, fui incendiado por tudo aquilo a que me negava há tanto tempo. Olhei-a com demora, enquanto ela deslizava pelo salão, trocando murmúrios aos meus ouvidos com os convidados de Galadriel.
Os seus olhos reluzentes contemplaram os meus por uns momentos, e desviaram-se para o próximo conviva. Tremi. Avancei alguns passos, acercando-me do seu caminho.
– Estel. – Arwen murmurou.
– Senhora. – retorqui, com uma vénia.
Sorriu, iluminando-me o espírito.
– Vem. Preciso de te falar.
Segui-a pelo salão até ao jardim suspenso que ocupava a varanda. Os sons da noite espalhavam-se pelo ar, música e cantares, copos e vozes, os grilos e a água corrente que enchiam a noite estrelada de música natural. Encostei a anca ao rodopio de ferro forjado que protegia o balcão e Arwen firmava o olhar no horizonte obscurecido, as suas mãos pálidas entrelaçadas sobre o seu regaço.
– Senhora?
– Há quanto tempo, Estel. Tantas luas passaram e eu pensei… Não! Eu acreditei que seriam a diferença entre o que é e o que poderia ser.
– Demasiadas. – concordei.
Os olhos cinza de Arwen embateram nos meus, requisitando indivisa atenção. Não me atrevo a considerar o que terá visto neles, mas não retiraria nada desse olhar. Não, quando senti a sua mão no meu peito, o calor da sua palma chegando ao coração. O seu aroma doce invadiu-me as narinas, asfixiando os meus sentidos.
– Estel…
Aquietei-me debaixo do seu toque. Apenas a sua palma era uma dádiva graciosa e eu sabia que não podia ter nada mais. Mas os seus olhos cinzentos fixavam os meus com um brilho estranho. Algo que eu nunca vira, no empedernimento daqueles seres, fadados a viver para sempre.
– Valinor. – murmurei, receando quebrar o encanto do seu toque.
– Eu escolho a Terra Média. Onde teria paz se a abandonasse à escuridão de Sauron? Onde seria completa se me afastasse?
– Promessas que não posso fazer. A escuridão ganha terreno a cada lua que passa.
– Tenho esperança, Estel. Em ti, por ti e em nós.
– Arwen… – suspirei, oferecendo a minha palma calejada aos contornos do seu rosto.
– Estel, prometo-me a ti. Interligo o meu destino com o da Terra Média e dos seus povos. Ofereço-te o que sou e sinto.
Os meus joelhos embateram no chão, o peso dum corpo cheio de sentimentos prostrando-me a seus pés. Agarrei as suas mãos e olhei-a com reverência. Oferecia-me a Arwen, a Undómiel, tudo o que era e tudo o que seria. E, por isso, tinha mais um motivo para combater a escuridão, pois ela era a minha Estrela Vespertina.
No dia seguinte trocámos promessas no monte de Cerin Amroth. Ali, unimos os nossos caminhos. Ali, provámos a esperança.
Órenya ná ve óretya. (O meu coração é como o teu)
À janela dos nossos aposentos, os olhos cinzentos da Rainha contemplavam Minas Tirith. A cidade que veria, por fim, um Rei no seu trono.
– Arwen… – murmurei.
Acerquei-me e envolvi-a pela cintura, pousando o restolho num dos ombros da minha Rainha.
– Um novo dia que desponta, Estel. – declarou, envolvendo-me os antebraços com os seus.
– Uma nova época.
– Próspera e pacífica.
Voltei-a para mim e, no círculo dos meus braços, encarei os brilhantes olhos cinzentos. Ela percorreu com as pontas dos dedos os contornos do meu rosto, afagando cada cicatriz com a emoção de quem compreende as lições da vida. Espalmou as palmas das mãos no meu peito, substituindo o calor das minhas vestes com o da sua pele. Despiu-me a fina camisa de linho, deixando-a cair aos nossos pés e acariciou cada contorno do meu tronco, demorando-se em cada linha imperfeita, provas das inúmeras vezes que algo me rasgara a carne.
Os seus dedos encontraram o palmo de cicatriz que me cobre o abdómen, que me levara de volta a Lothlórien, há alguns anos atrás, e às nossas promessas trocadas no monte de Cerin Amroth.
– Carregas dor em demasia. Cada traço um sacrifício, uma vitória sobre a escuridão. – Arwen murmurou, sem desviar os olhos dos meus.
– Conto os suficientes para ser digno desta honra?
– Digno de louvor e honra. – ela assentiu, com um sorriso.
– Elrond parte de manhã para Rivendell.
– Despedir-me-ei.
– Tens a certeza? – perguntei, apertando-a mais um pouco contra mim.
– Esta é a minha escolha, que me ofereces de volta mesmo depois de me tornar tua Rainha. Não tenho dúvidas sobre onde é o meu lugar. Na imortalidade de Valinor meu pai sabe o quanto se enganou.
– Uma ocorrência rara.
Arwen assentiu.
– Duas. – afirmei. – O engano de Elrond e escolheres a Terra Média e o Crepúsculo do Homem.
– Escolho-te a ti e ao teu destino. Antes o crepúsculo a teu lado que atravessar todas as eras em solidão. Tu honras-me. Eu farei o mesmo.
Aproximei-me dos lábios da minha Rainha e afaguei-os com os meus. Uma promessa silenciosa, num acto maior que quaisquer palavras.
Longo foi o tempo de negação, tão extenso como aquele que existíramos em promessa. Mas, nem todo o tempo do mundo seria capaz de nos negar aquelas décadas de união. A noite eterna seria o nosso amargo presente, um pouco mais doce, se em vida o amor a preenchesse.
Nota da Autora:
Esta é a minha homenagem a um dos escritores mais importantes no mundo da Fantasia. Não pude deixar passar a oportunidade de criar algo dentro dum universo tão rico como o de J.R.R. Tolkien, nem de agradecer aos meus colegas o incentivo. Espero ter feito jus à infinitésima parte do conhecimento tolkiano nesta minha modesta tentativa mas, acima de tudo, espero que vejam esta curta narrativa como uma oportunidade de prestar a minha sincera homenagem a um homem cuja imaginação não conhecia limites e cujo esforço criativo dificilmente é igualado ou suplantado por outros.
Teria preferido a utilização de outras personagens desconhecidas para os fãs, pelo interesse que teria ver um dos anónimos que orbitam em torno das personagens principais.
Adorei! Parabéns 🙂
Gostei muito deste conto e da forma como trataste estas duas personagens. Admito que talvez tivesse preferido ver um conto com a Éowin, mas é só porque gosto mais dela do que da Arwen xD
Pavoroso do início ao fim, sem uma côdea de sentido literário, linguístico ou narrativo que se relacione com a obra original. Fanfiction no seu pior – coisa que Tolkien assaz detestava e detestaria ver como homenagem.
Pingback: Sobre a Semana Especial ‘Fantasy & Co. homenageia…’ | Sara Farinha
Pingback: 12 Meses/12 Contos: Conto de Abril de 2013 | Sara Farinha
Pingback: Diário de Bordo: Adeus 2013!!! Olá 2014!!! Metas Anuais | Sara Farinha