Brilhando como uma pequena lua, a moeda prateada redopia alto dezenas de vezes, parando em pleno ar durante uma fracção de segundo, antes de descer e aterrar-me na palma. É o sinal. Funcionou. Estou em Coimbra de Baixo.

Sob os meus pés, iluminada por candeeiros e faróis, já não está a Ponte de Santa Clara, mas uma caótica mistura de todas as pontes que ali existiram. Sou o único que nota. Os carros continuam a cavalgar o alcatrão, indiferentes.

– Silva!! – Da Costa, abraçando-me pelo pescoço, puxa-me com o habitual entusiasmo. – Estás atrasado, gaiato.

– Desculpa – peço ao trajado, cujo gorro está enfiado até ao nariz.

– Deixa lá. Toma. – Atirando a cabeça para trás para me conseguir ver, saca dois copos de plástico com traçadinho da capa negra, cujo interior está tão cheio de emblemas que não se via o tecido. – É beber e andar, pá, que o Mercado Flutuante já começou.

Forço um sorriso e deixo-me arrastar, evitando pensar na troca que irei fazer.

Estava bêbado a primeira vez que vi para além do véu que separa Coimbra de Cima de Coimbra de Baixo. Nesta cidade, esse vislumbre fugaz já aconteceu a imensa gente, a única diferença é que eu não o descartei como um delírio alcoólico.

Excepto durante o Cortejo, quando outro género de loucura rege a cidade, Coimbra de Cima não interage com Coimbra de Baixo, por isso, o caótico bazar pseudo-medieval que dá pelo nome de Mercado Flutuante pode ocorrer em locais como o Pátio da Universidade ou no Cemitério da Conchada sem que mais ninguém além dos vendedores e clientes note. Desta feita, foram escolhidos os corredores de pedra do criptopórtico, por baixo do Museu Machado de Castro.

A pedra das paredes e as pequenas bancas são iluminadas por lucernas, archotes, velas, candeeiros a petróleo e até faróis de halogénio pescados do lixo. O som distante de uma guitarra é quase completamente abafado pelos pregões dos vendedores no mar de gente. Vende-se de tudo, desde jóias roubadas há milénios a uma matriarca romana, a pedaços de vidro partido encontrado no lixo da noite anterior; cerveja feita com técnicas há muito esquecidas a garrafas de vinho verde meio cheias, surripiadas a qualquer estudante desatento, e comida grelhada ali mesmo, cujos vapores odorosos acumulam-se nos arcos do criptopórtico.

Mais invulgares e variados que os produtos que vendem são os próprios vendedores. Pessoas que, pelos mais diversos motivos, caíram pelas fendas do mundo, esquecidas pela sociedade e pela História, alguns a semana passada, outros há milénios.

O meu favorito é o Velho Basílio com a sua banca de “Ideias que Nunca Foram”. Embriões de livros, artigos e planos nascidos da névoa alcoólica ou simplesmente das mal calculadas ambições juvenis, que nunca cresceram, perdendo-se na memória de cada um dos milhares de estudantes da Lusa-Atenas. Ao longo dos anos passei muitas horas por lá, encontrando coisas absolutamente geniais e outras hilariantes, contudo, hoje não me posso distrair.

Tendo uma bifana numa mão e um copo de cerâmica com vinho da Bética na outra, sigo Da Costa para o centro do criptopórtico, em busca das câmaras mais baixas e pior iluminadas. Ainda estamos dentro do mercado, mas a caótica animação fica para trás. A maioria mantem-se longe daquele espaço opressivo, a não ser que tenha negócios obscuros a tratar. Da Costa fala com uma das razões para tal, uma mulher alta e seca, lisa como uma tábua e com o sentido de humor de uma. Em noites como aquela, Quebra-Costas deixava o seu habitual posto a guardar a Alta para proteger uma das pessoas mais importante de Coimbra de Baixo.

Deixa-nos passar após um arrulhar autoritário do pombo no seu ombro. No interior, iluminados apenas com uma dúzia de velas, dois velhos jogam dados.

– É preciso ter muita lata para vir aqui, Da Costa – atira um dos idosos sem se virar, mantendo os olhos nos dados. Um pombo perneta voa pelo corredor, aterrando no ninho feito de galhos e cotão, que o ancião tem nos desgrenhados cabelos brancos, enquanto outro lhe passeia pelo ombro esquerdo. – Ainda nos deve… Quanto era, Sôr Mendes?

– Duas patuscadas, uma piela e um favorzinho, Sôr Pinto – responde o zarolho, pousando a caneca e cortando um pedaço de queijo.

– De certeza que era um favorzinho e não apenas um favor? Cacete, erro meu. Mas o que trago aqui vai ajudar a saldar esse pequeno mal-entendido. Este é…

– Nós sabemos. Não é, Sôr Mendes?

– Nunca me esqueceria, Sôr Pinto.

– Maravilha. E onde está o…

Antes que possa completar, os berros e gemidos param no compartimento do lado, e o Eterno Veterano afasta a cortina, cambaleando para o seu trono, feito de grades de minis e barris de vinho. Pelo canto do olho vejo uma mulher seminua a escapulir-se pelas sombras, com uma cabra pela trela. Apenas uma noite como as outras para o supremo hedonista.

Eterno Veterano. O nome dizia tudo sobre o obeso e alegre Baco lusitano. Não tenho dificuldade em acreditar que mantém a mesma bebedeira desde os tempos da Carbonária e que da última vez que se descuidou, tendo um momento de sobriedade, ficou de ressaca durante cinco anos. Se alguma vez tivera traje, desfizera-se há muito, deixando para trás apenas uma capa esfarrapada para lhe cobrir as vergonhas, função que a esforçada peça de roupa cumpre mal. Sempre que o badocha se mexe vejo mais do que quero.

– Ei, Pinto, que é lá isto?

Normalmente quando se cai pelas fendas do mundo não há volta. Ou se é de Cima ou de Baixo. Mas a alguns de nós é concedido um salvo-conduto, um modo de viajar entre as duas Coimbras. Chamam-nos “turistas” e somos muito raros.

– Da Costa e o “turista” José Silva, ó Supremo Beberolas. Ao que vêm ainda não sabemos.

– É lá, um “turista”? Bicho cada vez mais raro por estas bandas. Mas senta-te, senta-te, Zé. Já tens pinga? Cinco Estrelas! Então, bebe um copinho e conta lá.

– É assim Eterno aqui o meu amigo Silva…

– Ei, Da Costa qu’é lá isso? Nã… Voltas a beber comigo quando pagares o que deves. Levanta lá o rabinho da grade e põe-te na alheta. A minha conversa é aqui com o menino Zé. Não me ouviste? Baza! Ou tenho de chamar a matulona? Então, agora nós. Enche o caneco e conta lá que me queres.

– Acabei o curso, partirei em breve. Na verdade, este é a minha última noite em Coimbra de Baixo.

– A sério? Porra, não desejo isso a ninguém. É uma merda para ti, mas o que tem a ver comigo? Se é a tua última noite não devias estar no Jardim a devolver o salvo-conduto à Sereia?

– Devia… A cena é, vou embora, só que não quero perder a sensação de estar aqui, de ser daqui. Sei que por mais que tente evitá-lo, eventualmente, as memórias começarão a diluir-se, a perder força, especialmente as de Coimbra de Baixo e deixarei de…

– Galifão arrogante! Quem pensas que és? Atreves-te a pedir isso ao?…

– Calma, Pinto, não é preciso ficares todo espigado. Puto, tranquilo, já topei o que queres – disse o Eterno Veterano tirando das sombras uma garrafa verde de vinho sem rótulo e beijando-a com uma reverência quase religiosa. – Essência de Coimbra. Isto é o néctar dos deuses. Cada golo é… bem, é Coimbra. Mais do que isso, é a tua Coimbra, cada sensação e memória que cá viveste. Podes estar do outro lado do mundo, daqui a quarenta, cinquenta anos, e continuarás a sentir-te um jovem “morcego”. É, acima de tudo… caro, muito caro.

– Demasiado caro – garantiu Mendes.

– Especialmente para um “turista” – reforçou Pinto.

– A questão é: o que tens para dar em troca que valha tanto?

Sem hesitar tiro a moeda de prata que tenho no bolso. 500 reis de 1910, com a efígie de Manuel II, o último rei de Portugal, na última moeda cunhada antes do escudo. O valor monetário é completamente insignificante perante o que representa. Ela é o meu salvo-conduto. Aquilo que me permite entrar em Coimbra de Baixo, quando usada no local certo.

O peso da minha oferta silencia a câmara. Até o Eterno Veterano fica boquiaberto.

– Falas a sério, Zezinho? Compreendes os riscos? Sei que não a podes levar contigo, mas se ma deres, assim que saíres do Mercado Flutuante nunca mais poderás regressar a Coimbra de Baixo e a Sereia não ficará nada contente contigo.

– Eu sei… Compreendo os riscos e estou disposto a aceitá-los. Querias algo de valor? Aqui tens. Aliás, nem sei se a trocarei apenas por uma mísera garrafa de Essência de Coimbra… – Rasgo um sorriso travesso apesar de me sentir tonto com o peso do negócio.

– Ah! Ah! Ah! Ah! Pinto! Mendes! Ouviram isto? Ah! Ah! Ah! Gosto deste miúdo. Nem sequer vou regatear, a moeda vale três garrafas e vou dar-te mais duas por és um puto interessante. Que dizes? Ora nem mais! Aperta aí! Agora que tal celebrarmos em grande a tua última noite? Pinto, arranja putas e vinho verde. Mendes, vai buscar a guitarra. Da Costa, ó Da Costa, entra homem. É noite grande, por hoje está tudo perdoado.

Andréa Oliveira

Imagem: Andréa Oliveira

Nota de Autor:

Poucos autores conseguem combinar o fantástico e o corriqueiro com a naturalidade de Neil Gaiman. Homenagear um dos meus escritores favoritos adaptando o rico universo que criou em Neverwhere à realidade portuguesa, não foi tarefa fácil e o limite de palavras não ajudou. Fazê-lo convenientemente requereria uma “tela” muito maior, porém, espero que os demais fãs vejam a narrativa pelo que como é, uma sincera, embora desajeitada, tentativa de mostrar o meu respeito pelo autor.

Se se sentirem particularmente tolerante e acharem que querem ver mais de Coimbra de Baixo, tenho a certeza que conseguirei reunir coragem suficiente para voltar a tentar noutra escala.

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