Quando saiu da Arena, dois homens vestidos com batas brancas esperavam-na. Puseram-se ao seu lado e guiaram-na por vários corredores brancos e cinzentos. Se tivesse de voltar sozinha, provavelmente perder-se-ia no labirinto de corredores, mas os homens pareciam saber por onde levá-la. Por fim chegaram a duas portas de correr, do mesmo branco monótono que tudo o resto.

As portas abriram-se automaticamente, deixando Lauren ver o tanque circular que a esperava, cheio de rodas dentadas e tubos com líquidos transparentes ligados a várias máquinas nas paredes.

Na sua direção veio um homem meio curvado, com dedos longos entrelaçados uns nos outros. Tinha também uma bata branca, que não tapava as listas negras horizontais que tinha junto das cavidades orbitais.

– Bem-vinda à sala de cirurgia, cara Lauren – Disse o homem ao chegar perto de si, as mãos não paravam de se mexer, como se quisesse agarrar algo.

Lauren reconheceu imediatamente a voz do homem como a voz que ouvia na Arena – Foi o senhor quem me guiou…

– Sim, sou o gestor da Arena e da cirurgia, Ricard. – Esticou uma mão num cumprimento – O meu animal foi um guaxinim, animais inteligentes, digo-lhe! Não que o seu panda-vermelho não o seja, siga-me, siga-me.

Agora que Lauren sabia, reparava nas semelhanças com um guaxinim: até no seu andar se balançava como um guaxinim em duas patas. Seguiu o homem até ao tanque.

– Só terá de entrar no tanque e nós trataremos do resto. – Sorriu, tentando mostrar confiança, mas o sorriso parecia trazer intenções maléficas, como se um guaxinim estivesse mesmo a sorrir.

Mas Lauren fez o que foi pedido. Entrou no tanque vazio e esperou que a porta se fechasse num baque seco, deixando de ouvir qualquer som do exterior e isolando-a da luz do exterior.

– Encontra-se num tanque de isolamento sensorial. – Mais uma vez a voz do homem apareceu. – Não entre em pânico por não ver, ouvir ou não sentir o chão. O tanque irá encher com um líquido cheio de nano-robôs que transportam o genoma do panda-vermelho e que o irão inserir em todas as suas células. Terá de respirar esse líquido. Mais uma vez, não se preocupe, não se irá afogar. Entrará num estado de incosciência para a cirurgia correr de forma eficaz.

Desta vez não houve nenhuma pergunta para se assegurar de que Lauren estava preparada. Assim que Ricard se calou, o tanque começou a encher-se do líquido do qual ele falara.

O tanque foi enchendo. Ao atingir a altura do seu pescoço, Lauren sentiu breves momentos de pânico, mas lembrou-se do que lhe tinham dito e manteve-se no mesmo lugar. Quando a água passou a sua cabeça começou a levitar no meio do líquido, sustendo a respiração. Mas os seus pulmões não aguentaram muito e teve de inspirar aquele meio. Não teve sequer tempo para entrar em pânico por se ir afogar, pois o líquido entrou em ação e deixou-a incosciente.

O despertador tocou num barulho ensurdecedor e irritante. Lauren esticou um dos braços, tentando desligá-lo, mas o único resultado que teve foi deitá-lo ao chão, obrigando-a a levantar-se.

Antes de se vestir, olhou-se no espelho que lhe deram há um mês atrás, quando a cirurgia acabara. Continuava quase igual. Tinha apenas uma lista de pêlo fulvo, diria quase vermelho, que lhe percorria a coluna.

– Ainda bem que não me cresceu pêlo em mais nenhum lado – Riu-se da imagem de si cheia de pelagem como um panda-vermelho. Felizmente as únicas mudanças reflectiam-se na lista de pêlo na sua coluna e no seu cabelo. Antes completamente negro ficara com uma tonalidade mais vermelhada, com laivos da mesma cor que o pêlo da sua coluna.

Por outro lado, os seus sentidos ficaram mais apurados. Cheirava e ouvia melhor. A sua agilidade fora outra parte de si a ser melhorada, conseguia agora subir árvores facilmente, tarefa impossível antes da cirurgia. E nunca teria percebido o prazer que subir a àrvores e observar o mundo do seu alto lhe dava. Passava grande parte dos seus dias a fazê-lo, a relaxar por entre ramos enquanto a vida na cidade corria.

Após vislumbrar-se um pouco mais, e de escovar o cabelo e o pouco pêlo a que conseguia chegar, vestiu-se e desceu. Os seus pais haviam já saído de casa, deixando apenas um bilhete a informá-la de que já tinham ido trabalhar. O seu pai, um professor compatível com um elefante, e a sua mãe, responsável pela estufa de orquídeas e compatível com abelhas, levantavam-se de madrugada para cumprir os seus horários. A primavera e o início das aulas tinham essa desvantagem para eles.

– Vejo-os logo à noite… – Sentou-se à mesa a comer uma fatia de pão com compota de frutos do bosque. Ainda tinha uma hora até ter de comparecer numa das únicas obrigações dela.

Quando acordara da cirurgia, instruiram-lhe que, durante o ano que se seguiria, para se adaptar psicologicamente às mudanças, seria introduzida em duas sessões de grupo. A primeira com jovens que completaram a cirurgia há menos de um ano e estavam a passar pela mesma mudança; a segunda com mais pessoas que tivessem a mesma compatibilidade que ela, que contavam as suas experiências, para estar preparada para as mudanças que pudessem ocorrer.

Hoje teria de ir à segunda. Eram sessões mais calmas, só estavam mais três pessoas para além dela, e uma era o moderador, o mesmo das outras sessões, um homem-corvo. Pelo que percebera não havia muitas pessoas compatíveis com o mesmo animal que ela, ao contrário de animais como cães, papagaios e ovelhas.

Acabada a sua torrada, saiu de casa e foi até ao edifício das conferências. A porta estava sempre aberta, pelo que entrou e dirigiu-se até à sala do costume. Apesar de ter chegado adiantada quase quinze minutos, já lá estavam as outras duas pessoas com a mesma compatibilidade que ela.

Uma delas era uma mulher nos seus trinta anos, pequena, herdara o jeito bamboleante dos pandas-vermelhos, mas compensava com a sua boa-disposição e atenção que dispensava a toda a gente. Segundo ela, só a sua cara ganhara pêlo vermelho, no mesmo padrão que o animal.

Já o homem, mais novo do que a mulher, tinha as orelhas triangulares como um panda-vermelho e uma cauda com o padrão anelado, que se encontrava à volta do corpo, a ser escovado pelas suas mãos. A cara estava até um pouco alongada, como se tivesse um focinho, o nariz ligeiramente mais escuro que o resto da cara.

– Bom-dia Lucin, Padi. – Acenou a ambos e foi correspondida com gestos semelhantes.

A sala estava feita para albergar pelo menos quinze pessoas, a multitude de cadeiras que formavam um círculo era inútil naquela sessão, infelizmente. Lauren sentou-se junto de Lucin, ficando de frente para Padi, que deixara entre ele e a outra mulher um lugar vazio para o moderador.

– Então como foi a vossa semana? – O silêncio constrangedor era algo que Lauren não aguentava por muito tempo, querendo preenchê-lo com o que lhe aparecesse na cabeça.

– Oh, nada de mais, sempre o mesmo, não é? Vir a estas sessões, trabalhar nos pomares, cuidar do marido e dos filhos. – Lucin descreveu a sua semana alegremente, como se levantava cedo para ir recolher os frutos das árvores mais altas, graças à sua facilidade em escalá-las. Em poucas horas de trabalho estava em casa. – Saberás como é daqui a algum tempo – dizia ela, sorrindo a Padi, esperando que corroborasse o que dizia.

– E tu, Padi? – O homem estava mais calado do que o costume. Padi era, por si só, uma pessoa solitária. Não tinha família para cuidar como Lucin. Trabalhava como polícia de vigilância durante as primeiras e últimas horas da noite, criando um horário instável. O seu trabalho consistia em vigiar uma parcela da cidade e reportar à polícia de acção caso houvesse algum desacato.

O homem pareceu acordar de algum argumento que estava a formar na sua cabeça.

– Ah-ah sim, tudo do mesmo, a cidade anda calma… – Parecia querer dizer algo mais, mas na sua hesitação decidiu não o fazer.

E mesmo que tivesse querido dizer algo, seria interrompido pela chegada do moderador. Lazif, o homem-corvo, era o ser humano que Lauren vira com maiores mudanças. Os braços tinham sido completamente substituídos por asas de penas negras e brilhantes. O seu cabelo era também composto pelas mesmas penas. As pernas, do joelho para baixo, eram como as patas de um corvo, finas e terminadas em garras. Parecia-se com o mito das harpias das primeiras civilizações que Lauren estudara na escola. Curiosamente, a sua cara e o seu tronco não tinham modificações nenhumas.

Chegou até junto da cadeira e, afastando o manto que vestia, a única vestimenta que lhe dava livre movimento das asas, sentou-se sem fazer o menor barulho.

– Bons dias a todos. – A voz dele era calma. – Vejo que fui o último a chegar. Já estiveram a conversar?

– Sim, contava aqui à nossa nova companheira, Lauren, como correu a semana passada. – O entusiasmo de Lucin transbordava por todos os lados, mas parecia que não atingia os homens.

– Ansiosa por começar a trabalhar e contribuir para a População Natural, Lauren?

– Sim, acho que estou, gostaria de trabalhar nos pomares como Lucin. Sem querer ofender Padi! – Lauren olhou para Padi, esperando não o ter ofendido, mas o homem parecia nem sequer a ter ouvido, o seu olhar estava focado na sua cauda.

– Tens de relembrar que poderás ser escolhida para fazer outra tarefa. – Esticou a asa para abarcar toda a sala – Como vês, não temos muitas pessoas compatíveis com pandas-vermelhos… Pode ser que os administradores da cidade prevejam que sejas uma mais-valia noutra área que não a polícia de vigilância ou colectora de frutos. Ou essas mesmas áreas podem já estar cheias de trabalhadores, pelo que serás colocada num emprego com maior número de vagas.

– Mas que mais empregos podem existir para pessoas compatíveis com pandas-vermelhos?

– Não te sei responder a essa questão Lauren. Mas também não diria que um corvo fosse um bom conselheiro ou tutor quando fui escolhido. Por vezes não se resume tudo ao animal, mas também ao ser humano dentro de ti. – Lazif riu-se, a cirurgia afectara-o também nesse aspecto, parecia um riso maléfico como só os corvos sabiam fazer, mas naquele homem só poderia transportar diversão pelas suas palavras.

A rapariga pensou no que dissera o moderador. Não sabia bem o que quereria fazer se não fosse colectora. Nunca tinha pensado nisso, toda a sua infância era seguida sobre a premissa de que o seu futuro iria ser escolhido por outros, para ela, de forma a adequar-se da melhor maneira possível.

– E quanto às tuas mudanças, como estás?

Lembrou-se de se se olhar ao espelho nessa manhã.

– Igual aos últimos dias, acho que a mudança está a estabilizar.

– Sim, normalmente a grande mudança ocorre nas primeiras duas semanas, mas durante todo o ano o teu corpo pode mudar, dependendo dos estímulos que tenhas. Só ao final de dez meses é que estabiliza realmente. – Olhou para as outras duas pessoas que acompanhavam o seu discurso com acenos de cabeça. – Querem partilhar alguma experiência da vossa mudança?

– A minha mudança também durou muito pouco tempo. Passado um mês e meio já estava como estou agora – Lucin disse com o habitual entusiasmo.

– Padi, e quanto a ti?

O homem foi despertado uma vez mais dos seus pensamentos.

– A minha durou quase oito meses para se completar, talvez por causa da cauda… Ou talvez pelo meu primeiro susto…

– Nunca te assustaste antes de chegares aos vinte e um anos? – Lauren estava espantada com aquele pedaço de informação da vida de Padi.

– Não, Lauren. – Lazif riu-se uma vez mais. – O primeiro Susto não é um susto como estás a pensar. É normal as pessoas serem sobrecarregadas com um instinto de fuga ou luta na primeira vez que se encontram com uma pessoa compatível com o seu predador natural, no caso do Padi, e o teu, um leopardo-das-neves. Mas a maior parte consegue superar o primeiro Susto com raciocínio humano.

– E o que acontece àqueles que não conseguem?

– Vão parar ao hospital. – Padi respondeu antes que Lazif conseguisse. – Enchem-nos de calmantes para conseguirmos sobrepor a nossa consciência humana aos instintos animais. Talvez tenha sido isso a despoletar a formação da minha cauda, antes disso não a tinha.

– Sim, os calmantes administrados nos hospitais acionam com maior força a mudança. Também passei pelo mesmo quando vi uma mulher-falcão, depois de estar no hospital comecei a desenvolver estas asas e patas.

– Lamento pelo que vos aconteceu. – Arrependia-se de ter colocado aquela questão, parecia ter posto Padi ainda mais desconfortável que antes.

– Não tens nada que lamentar, Lauren. Sofrer uma maior transformação não é um mau sinal. Pelo contrário, foi uma benesse, graças a isso consigo voar.

A conversa prosseguiu por mais meia hora, até Lazif a dar por terminada. Lauren despediu-se de Lucin, que a convidava pela enésima vez a jantar com a sua família um dia, quando reparou que Padi sussurrava com o moderador, quase virados de costas para elas.

– O que é que se passa com o Padi?

– Acho que o trabalho anda a afectá-lo um pouco. Anteontem viu outra pessoa-leopardo-das-neves quando estava de serviço e esteve à beira de um colapso. Conseguiu recuperar a tempo, mas a recordação deve estar fresca na sua cabeça. – Olhou para os homens, Lazif pousava agora uma asa no ombro de Padi, a tentar confortá-lo. – Antes de tu chegares, ele perguntou-me se era normal o primeiro Susto perdurar… E se alguma vez tinha tido medo de mais do que leopardos-das-neves.

– E que respondeste? – Lauren estava genuinamente preocupada com o homem, era uma das únicas pessoas que sabia pelo que ela estava a passar agora.

– Respondi com o que soube. – Encolheu os ombros – Eu sofri o meu primeiro Susto já depois da mudança, tive medo, claro, mas passou e agora consigo passar bem por pessoas-leopardo-das-neves. Aliás o panda-vermelho tem vários predadores para além dos leopardos-das-neves, martas por exemplo, mas nunca eu nem ele tivemos sustos com martas… Os pandas-vermelhos têm até medo de humanos como dos outros predadores! – Riu-se, como se fosse uma ideia ridícula ter medo de humanos, mesmo para o mais simples animal – Não te preocupes Lauren, daqui a alguns dias ele estará bem. – Sorriu enquanto inclinava a cabeça, do mesmo jeito que o panda-vermelho da Arena.

Lucin saiu da sala, deixando Lauren para trás. Queria ainda dar umas palavras de apoio a Padi. Aproximou-se do par que falava por sussurros.

– … e humanos, Lazir? – Lauren não ouvira a totalidade da pergunta, mas percebera que Padi estava preocupado com a possibilidade de ter medo de humanos.

– Isso vai passar, Padi. Vai para casa e descansa. – O tom calmo não pareceu surtir grande efeito no homem, que abandonou a sala com as mãos a agarrar a cauda, sem perceber que Lauren queria falar com ele.

– Precisas de ajuda para algo, Lauren?

– Não, não…. Queria ter falado com Padi. – Olhou para a porta por onde ele saíra. – Mas ele não precisa de me ouvir. Vejo-o amanhã na sessão dos jovens?

– Claro, lá estarei. – E assim se despediu da rapariga, seguindo para outra sala do corredor.

Lauren saiu do edifício e dirigiu-se para casa. Adorava estar na rua e observar a diversidade que existia à sua volta. A quantidade de pessoas diferentes era estonteante. Ali uma mulher-gato, acolá um homem-ouriço. Lauren divertia-se a tentar descortinar qual o animal compatível das pessoas, quando teve o seu primeiro Susto.

Vira o homem de relance, mas o pelo branco com as pintas negras que lhe cobriam a cabeça e ombros era distinto de tudo o resto à sua volta. Assim que o viu, o coração de Lauren apertou-se como se alguém o agarrasse por uma mão. Os seus pulmões expeliram todo o ar, encolhendo o máximo que podiam. E na cabeça da rapariga apenas a palavra “fuga” surgia.

O homem caminhava na sua direção, na ida para o trabalho, possivelmente, mas para Lauren ele ia atacá-la, tal como o leopardo-das-neves fizera na Arena. Queria esquartejá-la, despedaçar o seu corpo com garras afiadas.

– Controla-te Lauren, tu consegues – sussurrou para si mesma. Queria passar aquele teste à sua determinação e não pretendia ir parar a um hospital onde seria drogada com todos os calmantes possíveis. Mas os seus músculos estavam tensos, prontos a fugir quando uma via segura aparecesse, algo em que os seus olhos estavam a trabalhar, analisando o ambiente em redor. Parte do seu cérebro dizia-lhe para fugir com uma intensidade brutal, o medo misturava-se no seu sangue. – Não…

Com aquela palavra, esticou-se, encheu os pulmões de ar, pensando que assim estaria mais preparada, mal sabia ela que essa era uma estratégia típica dos pandas-vermelhos. O homem continuou a caminhar na sua direção, ignorante do que se passava na cabeça de Lauren. Estava a poucos passos dela. Estava à sua frente. Desviou o olhar do seu telemóvel e olhou nos seus olhos.

E continuou a caminhar, passando por ela. Lauren expirou o ar que tinha contido sem perceber, a tensão que acumulara desapareceu num instante, sendo substituída pouco a pouco por uma sensação de felicidade.

– Consegui! Consegui! – Riu-se da sua conquista e de si mesma pela figura que fazia no meio da rua a falar sozinha. Hoje já teria algo que contar aos seus pais.

O despertador tocou pela terceira vez, com a sua música estridente e irritante. Lauren desistiu de tentar adormecer e levantou-se. Estava no décimo mês do seu ano de adaptação. Mais um mês e receberia notícias dos administradores e do seu futuro trabalho.

Vestiu-se e encontrou os pais na cozinha. Por momentos, o seu coração deixou de bater. Os pais tinham um aspecto ameaçador. Não era a sua parte animal, mas sim a parte humana que a assustava, pareciam criaturas deformadas e ameaçadoras.

– Filha, estás bem?

A voz da mãe despertou-a daquela imagem, retomando à realidade dos pais bondosos e sensatos que tinha.

– Sim mãe, está tudo… – Sentou-se à mesa onde tinha panquecas acabadas de fazer.

– Oh filha nem escovaste a tua cauda!

Lauren olhou para o seu lado. Apesar de não ter tomado calmantes após o seu primeiro Susto, sofrera mais algumas mudanças. Crescera uma cauda igual à de Padi, mais bonita até, segundo Lucin, que seguia a linha de pelo que percorria a sua coluna. As suas unhas pareciam agora um pouco mais com garras, mas isso facilitava-lhe a subida a árvores, algo que fazia nos seus tempos livres, só pelo prazer de poder observar a cidade e os seus habitantes das alturas.

– Sim, mãe, faço-o depois. Estou atrasada para a sessão…

– Hoje é qual? A dos jovens ou a do panda-vermelho? – O pai adoptara os mesmos nomes das sessões que ela, achando-lhes piada.

– É a dos pandas-vermelhos. Só mais três sessões com eles e ficarei livre. A não ser que apareça mais alguma pessoa compatível, aí participarei como conselheira. – Sorriu, imaginado-se com Lucin e Padi a contar as suas experiências a um novo membro.

Na sua pressa, não comeu quase nada do banquete que a mãe fizera. Despediu-se deles e foi até ao edifício familiar, onde duas vezes por semana estava presente. Quando chegou à sala viu Lazif e Lucin.

– Não fui a última a chegar. Pensei que estivesse atrasada. – explicou, aliviada.

– Lamento Lauren, mas vamos ter de cancelar a sessão de hoje. – Lazif virou-se para ela, a sua expressão era de preocupação. Só quando o homem falou é que Lauren reparou que, atrás dele, Lucin limpava as lágrimas que corriam na sua cara.

 – O que é que aconteceu? – O tom de Lazif preocupou-a mais do que o facto de a sessão ser cancelada, ou de Lucin a chorar, algo que nunca tinha acontecido.

– O Padi fugiu da cidade.

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