A rede de cabos e tubos de metal branco, que dava suporte aos vidros, estendia-se até perder de vista. Formava uma meia esfera com um quilómetro de diâmetro, presa ao chão. À sua frente, as portas encontravam-se abertas, deixando ver um piso completamente liso e tão branco quanto os cabos e tubos que seguravam a estrutura no sítio.

– Temos tudo a postos, cara Lauren. Quando estiver pronta, pode entrar na Arena. – A voz veio da estrutura esférica, mas Lauren não conseguia perceber ao certo de que parte. – Recorda-se do seu papel na Arena ou deseja que seja repetida a gravação inicial?

Passaram-se uns segundos até a mulher responder com um certo nervosismo – Podem passá-la uma vez mais?

– Com certeza, cara Lauren, estamos aqui para ajudá-la neste processo.

O homem por detrás daquela voz carregou num botão apagando a sua transmissão. Ouviu-se um som dum video nos vidros da Arena que, para tal efeito, tornaram-se opacos. Duas cadeias de ácido desoxirribonucleico, comummente denominado como ADN, espiralavam à volta uma da outra. Por baixo lia-se as palavras “População Natural”.

Sem qualquer aviso a imagem desapareceu e deu lugar à figura de um homem, vestido com um fato negro e uma gravata da mesma cor. A sua pele era dourada e à volta da cabeça tinha uma juba de pêlo alaranjado, limpo e sedoso, que balançava conforme se movia. Quando começou a falar, a voz rouca tremia como se estivesse a preparar-se para rugir.

– Bem-vinda cidadã, à capital do nosso país. E parabéns pela chegada à maioridade civil. Como representante da nossa nação cabe-me a mim instruir-te sobre o que acontecerá agora.

“Como aprendeste durante toda a tua vida, a chegada aos 21 anos inicia o teu processo de maioridade civil. Os nossos intensivos estudos mostram que esta é a idade ideal para que todos os indivíduos passem pelo Teste de forma a serem melhorados e entrarem na sociedade de uma forma produtiva. O que é o Teste, perguntas tu?”

A imagem nos ecrãs mudou para mostrar sucessivas ilustrações “Há cerca de quatro séculos os nossos cientistas descobriram a melhor maneira de melhorar a nossa espécie, através da inserção de pedaços do código genético de vários animais no nosso genoma, de forma a podermos obter as vantagens de todos eles. No entanto, a totalidade destas experiências obteve resultados negativos e drásticos, como insanidade ou malformações por todo o corpo.” As imagens eram agora de pessoas metade humanas, metade moscas, ou parte tubarão e parte chita, cada uma mais chocante que a anterior.

“Demorou quase cinquenta anos até esta questão ser resolvida. Através da colaboração com psiquiatras e psicólogos, os cientistas perceberam que o corpo do ser humano rejeitava 99,99% dos códigos genéticos inseridos. A restante percentagem cabia apenas a um animal, único para cada pessoa, e que combinava com os seus traços de personalidade.”

“Esta transformação era também sensível ao estado do corpo humano, se ainda estivesse em desenvolvimento, o corpo adquiria mais traços animais do que o pretendido, se fosse demasiado velho acabava por degenerar a uma velocidade estonteante com criação de inúmeros tumores de várias origens.” O ecrã expunha uma criança com pinças em vez de mãos e corpo oval como um caranguejo, e um idoso coberto de massas informes que sobressaíam do corpo, algumas com o mesmo padrão de uma zebra.

“Após todos estes desafios, os nossos cientistas e engenheiros criaram a Arena”. Uma réplica da Arena à frente de Lauren apareceu no ecrã.

“Esta Arena foi criada de forma a descodificar a comunicação entre os neurónios e, com essa informação, criar um perfil de personalidade que irá encontrar o animal mais adequado ao indivíduo. Após a identificação do animal, suceder-se-á uma cirurgia, onde o código genético do animal em questão, que estará na nossa extensiva biblioteca genómica, será introduzido em todas as células do corpo do hospedeiro, excepto as células sexuais, para que os cidadãos da nossa mui nobre nação não sofram de infertilidade devido a incompatibilidades.”

A imagem do ecrã mudou para um humano normal do qual lhe cresciam progressivamente pelo colorido em algumas partes do corpo e uma cauda. “Após a cirurgia terás um ano de adaptação, onde o teu corpo sofrerá mudanças únicas. Mesmo que haja vários humanos com associação ao mesmo animal, o código genético do animal age de maneiras diferentes nos variados corpos. Após o ano de adaptação, serás reintroduzida na sociedade como um elemento fulcral desta grande maquinaria. Ser-te-á dado o emprego mais adequado, de forma a que usufruas das tuas novas qualidades.”

O homem-leão voltou para o ecrã “Agora terás de entrar na Arena e deixares a Arena agir por ti. Só me resta desejar-te um bom Teste e bem-vinda à População Natural!” Com um sorriso que deixava entrever uns caninos maiores do que o normal, o homem-leão abandonou o visor, sendo substituído pelo símbolo que inicialmente aparecera, até os visores se apagarem.

– Preparada agora, Lauren? – A voz omnipresente voltou a surgir.

– A-acho que sim… – A insegurança do que poderia acontecer, aumentada pelas imagens que vira, criava um tremer na voz de Lauren.

– Não se preocupe, nós vamos guiá-la durante todo o processo. Siga as nossas instruções e terá uma compatibilidade em poucos minutos. Quando estiver pronta, entre na Arena.

Inspirou. Expirou. Repetiu duas outras vezes, antes de passar as portas do que agora lhe parecia uma jaula branca. – E agora?

As portas atrás de si fecharam-se antes de ouvir a voz.

– Agora que o circuito está fechado, a Arena vai começar a analisar o padrão cerebral para tentar criar primeiro um ambiente onde o animal compatível vive.

A primeira coisa que Lauren sentiu foi a humidade no ar a aumentar. Para compensar, árvores, arbustos e ervas começaram a crescer por todo o lado. Verdejantes, desenvolviam-se a velocidades vertiginosas, até atingirem o pico de crescimento. Em minutos Lauren deixou de ver a saída. Acima de si via as copas das árvores e, acima delas, uns vislumbres de nuvens num céu azul. Como se tivesse sido transportada para outro sítio que não a Arena.

– Muito bem, Lauren, a Arena já conseguiu estabelecer um habitat. Encontra-se nas florestas temperadas, a temperatura está abaixo dos 15 graus Celsius, um pouco frio, mas o fato que tem vestido irá mantê-la a temperaturas adequadas, ou seja, não precisamos de nos preocupar com o tempo que estará aí.

– Qual seria o habitat onde não poderia estar muito tempo?

– Oceanos abertos, calotas polares, desertos… Sítios onde o corpo humano possa sofrer temperaturas extremas e morrer. Mas isso acontece a pessoas que têm compatibilidades com animais desses habitats, tubarões, focas, camelos, dingos, entre muitos outros. Mas como referi, não terá de se preocupar com isso. Tem todo o tempo do mundo para encontrar o animal compatível.

– Então não será a Arena a fazer isso por mim?

– Em parte. A Arena irá criar vários animais que vivam nesse habitat, mas apenas o único compatível irá aparecer à sua frente e será o único que poderá tocar. O seu papel é vaguear pela floresta até encontrar esse animal. Estaremos aqui a monitorizar tudo, caso precise de nós, é só falar. Boa sorte! – O som foi interrompido e substituído pelo barulho de vida na floresta, proveniente de todas as direcções.

Ouvia vários pássaros, possivelmente rouxinóis pelo som, de um dos lados da floresta.

– Será que sou compatível com um rouxinol? – Imaginou-se com penas coloridas nos braços, talvez até mesmo asas, mas não se considerava uma grande faladora nem cantora. Avançou na mesma nessa direção, talvez a Arena soubesse mais do que ela e um rouxinol fosse mesmo o ideal.

Não soube quanto andou. Pelo caminho saltou por cima de troncos caídos e afastou imensos arbustos que se metiam à sua frente. Num dos troncos ouviu o barulho de milhares de patas a mexerem-se no interior, possivelmente formigas.

­– Oh! – Exclamou. Ao olhar para o interior do tronco não estava lá nada, mas assim que desviava o olhar ouvia os insectos a mexerem-se. – É normal isto acontecer? – Sentia-se um pouco ridícula ao falar para o vazio.

– Sim, Lauren – A voz voltou, respondendo às suas dúvidas – Isso significa que apesar de haver formigas nesse habitat, não é um animal compatível a cem porcento, por isso a Arena conseguiu apenas criar o som respectivo e não a imagem.

Satisfeita por não ser compatível com uma formiga, afinal não se considerava a trabalhadora altruísta incansável que uma formiga é. Continuou o seu passeio. Até estava a gostar do local, fresco, verde, cheio de vida.

Nos arbustos ao seu lado algo se mexeu. Deu um pequeno salto com o susto. Em consequência, o que quer que estava a seu lado entrou em pânico e depressa começou a correr na direção oposta, abanando a folhagem por onde passava.

– Será este? – perguntou-se. Decidiu correr atrás dele, embora com maior dificuldade a desviar os arbustos do que o animal.

Ramos acertaram-lhe na cara, e embora tudo ali fosse uma criação da Arena, a dor era bastante real – Tenho de ter cuidado. – Disse para si mesma, acentuando com mais um ramo que não vira a bater nas suas costelas. Ao menos conseguira obter um vislumbre de pelo escuro, quase negro, do animal que perseguia. Mas depressa o animal ficou tapado pelas folhas.

A corrida continuou, porém Lauren não tinha muito mais folgo para seguir o animal, cuja energia para fugir parecia interminável. Acabou por desistir e encostar-se a um tronco, arfando.

– Há quanto tempo estou aqui?

– Há cerca de quinze minutos, Lauren.

– Só? – Lauren julgava que quinze minutos fora o tempo que correra atrás deste último animal e que, antes disso, tinha passeado pelo menos o dobro desse tempo.

– É um factor da Arena, a ilusão é também temporal. Mas não tem de se preocupar com o anoitecer, se a Arena criou o habitat diurno, manter-se-á assim.

Olhou para o céu, estava ainda da mesma cor e o sol na mesma posição de quando começara. Poderia ficar ali eternamente que seria sempre a mesma altura do dia. Mas Lauren queria sair dali. Com a respiração mais calma, retomou a caminhada.

Cirandou pelos caminhos sem grande vegetação, sem saber exactamente para onde estava a ir. Quanto mais avançava, mais frio ficava, sentia-o na cara e nas mãos descobertas. E não foi com grande admiração que, quando começou a nevar, Lauren observou os flocos brancos a cair. Eram tão reais quanto as árvores à sua volta. Caiam na sua mão e derretiam.

– Lauren, temo que tenhamos de nos despachar a encontrar o seu animal. – A voz do homem mantinha-se calma, como se não passasse de mais um protocolo a seguir – Não esperávamos que a temperatura variasse assim tanto. Por enquanto o fato protegê-la-á do frio, mas se continuar a nevar teremos de retirá-la da Arena.

– E se não encontrar o meu animal até lá? – perguntou enquanto desviava outro ramo da sua frente. O nervosismo voltou, ao imaginar-se exilada de todos por não ser mais do que uma humana normal, sem qualquer modificação genética.

– Não se preocupe. Se não encontrar o seu animal, repetiremos o processo noutro dia.

O som da estática indicando a presença da voz desapareceu quando o homem se calou, dando sinal que estava por sua conta uma vez mais. Mas quando olhou em frente reparou que não estava sozinha.

Diante de si, estava um leopardo-das-neves. Saía de entre os arbustos, uma pata à frente da outra, como se desfilasse, da maneira que só os felinos sabem fazer. Os olhos verdes fitavam-na, curiosos, sobressaíndo do pelo branco e creme com pintas negras.  A cauda comprida e felpuda balançava na ponta como um chicote.

Os pensamentos de Lauren corriam desenfreados ao ver aquela criatura.

– Aquele é o meu compatível? O que é que tenho de fazer agora, é só tocá-lo? – Só depois percebeu que dissera tudo em voz alta, mas não veio resposta alguma do homem omnipresente.

Com cuidado, aproximou-se do leopardo. O medo de sofrer uma mordida daquelas ponderosas mandíbulas, ou uma patada que lhe rasgaria o peito como uma folha de papel, enchia-a de precaução. Não contava com o comportamento do leopardo.

O animal observou apenas um humano com medo, que poderia servir de comida para uns dias e que vinha entregar-se na sua direção. Preparou-se para atacar num salto, agachando-se.

Lauren não teve tempo de fugir e, mesmo que quisesse, o corpo paralizara de choque. Viu o leopardo saltar, a mandíbula cada vez mais perto. O branco dos dentes sobressaía na boca rosa e vermelha. Pôs as mãos à frente da cara, numa vã tentativa de proteção.

Contudo, quando o leopardo chegou até ela, não a tocou, passando somente por ela como se fosse um fantasma. Lauren olhou para trás, o animal estava agora a desaparecer, esfumando-se em nada.

– O que é que aconteceu? – Ainda espantada pela sua experiência de quase-morte, questionou o homem.

Desta vez obtivera uma resposta.

– Não era compatível consigo Lauren. Esteve quase, se tivesse conseguido tocar nele seria uma compatibilidade a cem porcento. Quando encontra um animal assim não a podemos ajudar, nem falar. Não podemos desconcentrá-la e quebrar o contacto com o animal. Continue à procura, mas lembre-se que não tem muito tempo…

Não foi preciso tempo algum até outro animal aparecer. Lauren olhava para o céu enquanto o homem falava. Quando acabou o seu discurso e o som da floresta voltou a ocupar tudo em redor, Lauren focou o olhar na copa das àrvores e viu.

Primeiro pareceu-lhe uma chama nos ramos das àrvores, mas da chama surgiu um focinho branco e dois olhos negros, que a olhavam com curiosidade. Com alguma preguiça, o animal esticou as quatro patas negras e bamboleou até junto do tronco da àrvore. Agarrando-se em vários pontos, desceu alguns metros e saltou quando estava perto do chão, não se ouvindo qualquer som da sua aterragem. Sacudiu-se, soltando a neve que acumulara no pêlo e depois sentou-se, de cauda ora vermelha ora laranja pousada ao lado. As orelhas do panda-vermelho esticaram-se para a frente, atento ao ser humano que estava à sua frente.

Tudo isto acontecera enquanto Lauren ficara no mesmo local. Mas desta vez não estava receosa, nem tinha medo de que o panda-vermelho a atacasse, mesmo podendo fazê-lo e criar feridas graves. Da mesma maneira de quando vira o leopardo, foi-se aproximando do animal.

A dois metros de distância, a cabeça do panda-vermelho, inclinou-se um pouco enquanto abria a boca num sorriso de gentileza. Lauren esticou a mão lentamente, sem querer assustar o animal.

– Será que consigo tocar-te? – Não queria sofrer outra rejeição de compatibilidade quando esta criatura parecia ser a certa para ela. Admitia para si mesma que já gostava dele, mesmo não sendo real.

Suavidade e felicidade, foi o que Lauren sentiu quando tocou na cabeça do panda-vermelho. O que primeiro foi um toque trapalhão, evoluíu para carícias atrás das orelhas. Antes que percebesse, o animal caminhou até ela e subiu para o seu colo, também ele meio trapalhão.

Lauren sorria ao acaricia-lo, contente por finalmente encontrar o seu animal. Não deu por toda a paisagem desaparecer gradualmente e dar lugar outra vez à branquidão da Arena. E, tal como o habitat, o panda foi desaparecendo do seu colo, até não restar mais do que a sensação do pelo fulvo e suave nas mãos.

– Parabéns, Lauren. A sua compatibilidade é com o panda-vermelho. Agora pode sair da Arena e será guiada para a sala de operações, onde iniciará a sua cirurgia. Bem-vinda à População Natural.

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