– Quantos corações enterraste no jardim, com o teu tão vazio? – O sussurro da rapariga erguia-se ao nível das suas orelhas, o que era impossível, tendo em conta a diferença de alturas. A ponta da lâmina fez um pouco mais de pressão sobre a pele.

Num movimento rápido, o homem inclinou-se para a frente e tentou pontapear quem estava atrás de si. No entanto, acertou somente no ar. Voltou-se, encarando o espaço vazio. Flectiu e distendeu os dedos das mãos, enquanto os olhos confusos tentavam encontrar a fonte da ameaça. O seu rosto já não era feito de neutralidade, mas não havia nele medo suficiente.

– Senhor mordomo, não precisa de me levar até à sua condessa, penso que descubro o caminho por mim mesma. – A voz ecoou na sala, vinda de todo o lado e de lado nenhum. E, tal como a voz, também a lâmina da faca surgiu do nada, diante dele, cortando-lhe a garganta num único golpe.

Thomson levou ambas as mãos ao pescoço, os olhos arredondando-se de horror. Diante de si, uma figura esquálida, através da qual conseguia vislumbrar parte da sala, acabara de se condensar. Ela sorria-lhe, olhando-o com dois orbes leitosos, vazios. O pescoço da criatura apresentava várias marcas negras, como se alguém o tivesse apertado.

– Agora, fique quietinho e em silêncio. Não quero que ninguém perturbe a minha noite com a condessa – disse-lhe.

A faca não esperou que ele se exprimisse, perfurando-lhe o peito, ao nível do coração. Com o impacto do golpe, o corpo tombou para trás. Esboçando um sorriso satisfeito, o fantasma debruçou-se e espreitou o morto. A mão espectral estendeu-se e tocou no cabo de madeira, quase como se lhe fizesse uma carícia de agradecimento, para, logo a seguir, a arrancar do corpo. Quando se endireitou, o rosto voltou a ganhar um rubor de vida, e o corpo uma forma humana. Ajeitou o cabelo ruivo e deu meia volta, seguindo caminho até ao quarto da condessa.

Parou diante da entrada de portas duplas e estendeu o punho fechado, batendo três vezes. Na mão livre, a faca rodava entre os dedos. Escutou passos lá dentro, aproximando-se. A maçaneta rodou e a porta abriu-se, revelando a condessa, envergando uma camisa de dormir fina. Os lábios da mulher entreabriram-se, no início de uma palavra que, com certeza, não seria dirigida a Cecília.

A rapariga deu um passo para o interior do quarto, antes que a condessa tivesse tempo de fechar a porta. O olhar da mulher desceu até à faca, da qual caiu um pingo de sangue, e recuou.

– Po…podemos conversar, Ce…cília? – A cor esvaía-se do rosto dela.

– Conversar? – A jovem riu-se. O corpo perdeu a cor e a forma, pondo de lado a ilusão que enganava os vivos. – Pensei que se fosse divertir comigo.

Atrás de si, a porta arrastou-se até se fechar de modo próprio. Pouco depois, os vidros estremeceram com os gritos. Contudo, não havia mais ninguém que os pudesse ouvir.

*

Cecília abriu a janela do quarto, de par em par, e debruçou-se um pouco para fora, de mãos apoiadas no parapeito. Inspirou fundo. O perfume do amanhecer instilava-lhe na alma a vontade de viver. Estendeu uma mão, como se quisesse tocar no raiar do sol. No entanto, este passou através da substância translúcida de que era feita, iluminando antes o quarto. A jovem suspirou, resignada, e olhou para trás, não conseguindo esconder um sorriso de júbilo.

O sangue pingava do tecto, as vísceras pendiam do pequeno lustre. No local onde deveriam estar as lâmpadas, ela própria encaixara dez dedos decepados. No chão espalhavam-se mechas sanguinolentas de cabelo negro e, sobre a cama de dossel, jaziam pedaços de carne, fracções de ossos e o resto do corpo donde ainda se ouvia uma respiração gorgolejada.

Aproximou-se da cama e debruçou-se, olhando-o. Ele é que já não a podia olhar, porque os orbes boiavam dentro de um copo de água suja, de íris azul voltada para cima, junto com os dentes arrancados e a faca que a ajudara a criar o magnífico cenário.

– Devia ver o dia lá fora, minha Condessa, está lindo para um passeio no seu jardim de camélias. Até os corpos das crianças enterrados sob elas sorriem! – O seu tom era feito de alegria. Levou a mão à zona sem escalpe da cabeça da mulher, fazendo-lhe uma festa.

Da garganta parcialmente cortada da condessa, ouviu-se um gorgolejar mais forte, e o rosto contorcido estremeceu com o agravar das dores que a minavam.

Cecília abanou a cabeça, desgostosa com aquela resposta muda.

– Se não quer, não vou insistir. Deixá-la-ei dormir, e que os meus sonhos sejam os seus. – Inclinou-se um pouco mais e pousou os lábios sem cor na fronte da moribunda.

Por cima do peito da condessa, as partículas de ar começaram a vibrar, deformando, de forma estranhamente visível, o espaço onde estavam contidas. Uma nébula esbranquiçada formou-se a partir das vibrações e, pouco a pouco, ganhou a forma esguia e corpórea de uma forquilha. O instrumento susteve-se por um instante, antes de cair, trespassando o corpo. Houve um último grito, engasgalhado, antes do silêncio.

Devagar, Cecília endireitou as costas. Estendeu ambas as mãos e agarrou a alma que se soltava do corpo. Era uma coisa esguia, parecida com um verme, que ainda assim se debateu, apesar de enfraquecida pela última noite que vivera.

– Não, por favor… – implorou, enquanto se torcia e contorcia, tentando tornar-se mais fina ainda, para passar por entre os dedos da sua atacante.

Cecília não respondeu, nem a deixou fugir. Apertou-a com toda a força espírita, esmagando a essência da condessa com a sua. A alma acabou por se degradar, desfazendo-se num pó incorpóreo que se diluiu no ar, desaparecendo.

Inspirou fundo. Não que tivesse pulmões ou que precisasse do ar. Era um tipo de reflexo que ficara de quando era viva, uma memória. Baixou uma das mãos e levou a outra ao cabo da forquilha. Arrancou-a de entre as costelas com um só puxão, antes de a desmaterializar. Não havia qualquer resquício das perfurações. Fora uma morte limpa. A tortura é que nem tanto.

Voltou as costas ao corpo e avançou para a janela, passando uma perna de cada vez, para o lado de fora. Desceu lentamente, até os pés tocarem na relva húmida, e caminhou até junto das árvores baixas, repletas de flores róseas quase do tamanho da palma da sua mão. Esticou um braço, tocando numa das camélias.

– Podem ir em paz, nada mais há a temer. Ela já não existe – murmurou, lançando um sorriso carinhoso a cada uma das árvores. Viu as almas espreitarem-na, tremeluzindo de receio. Estavam escondidas nas raízes, nos troncos, nos ramos, nas folhas, nas flores. Duas dezenas delas, retorcidas pela maldade, presas pela dor e pelo medo. Se pudesse, voltaria a torturar aquela mulher, por cada uma das crianças. – Vão, são livres, queridas.

Uma a uma, as almas abandonaram o jardim. Algumas dirigiram-se-lhe, abraçando-a com dois braços pequenos. Baixou-se e retribuiu, oferecendo-lhes parte do carinho que lhes tinha sido roubado.

Quando todas haviam partido, voltou costas à casa e sorriu à luz do amanhecer, antes de se desvanecer. Enquanto descia a estrada, numa forma invisível, rumo a outro destino, cruzou-se com as três crianças que regressavam à mansão, em busca dos doces prometidos. Não teriam doces, mas teriam a sua própria vida por mais alguns anos.

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