A noite há muito que caíra. Em seu redor, as sombras criadas pelo luar eram densas, movendo-se numa ameaça velada, quando o vento assobiava e abanava os ramos das árvores. Ajustou melhor o casaco, cruzando os braços sobre o peito, e continuou a andar pela beira da estrada. Já conseguia ver o seu destino, mais à frente – as janelas da mansão deixavam escapar uma luz quente de refúgio há muito aguardado.

Detrás de si, chegou-lhe o som de risadas animadas, aproximando-se. Olhou por cima do ombro. Três crianças apressavam-se estrada acima, mascaradas de criaturas terrivelmente amorosas. Ao darem conta da sua presença, estacaram, de olhos escancarados. Quando ela esticou a mão pálida para lhes fazer um aceno, o trio soltou um guincho uníssono. Não conseguiu deixar de sorrir para si, enquanto elas passavam numa corrida aterrorizada, com os seus sacos em forma de abóbora a abanar nas mãos. Alargou e acelerou as passadas. Tinham o mesmo destino que ela, e não queria que chegassem muito antes.

Alguns metros mais à frente, o gradeamento que cercava os terrenos da mansão tentou intimidá-la com as suas extremidades em forma de flecha. Por detrás dele, cercando o edifício, estendia-se um amplo jardim repleto de camélias em flor. Porém, sob o luar, o seu olhar distinguia mais do que camélias plantadas na terra.

O portão estava entreaberto, quando o alcançou. Deslizou através dele e, ao pisar o caminho de gravilha fina que a levaria até à porta principal, deixou que o corpo tomasse por completo a forma humana. Mais à frente, as três crianças falavam com uma mulher alta, de cabelo cor de azeviche. Esta fazia-lhes um gesto para entrar, enquanto se ria de alguma coisa que haviam contado. Todavia, quando olhou por cima da cabeça dos pequenos, a mulher apercebeu-se da nova presença. O sorriso vacilou.

– O que deseja? – perguntou, enquanto a via aproximar-se da luz que a casa derramava.

A recém-chegada sorriu-lhe e a sua expressão era feita de humildade e inocência, enquanto se tentava aconchegar dentro do casaco fino.

– Poderia dar-me abrigo, senhora Condessa? – pediu, o olhar brilhando de esperança. – Só por uma noite.

A mulher olhou-a de cima abaixo, atentando no cabelo ruivo, nos olhos verdes, nos lábios rosados que lhe sorriam de modo quase tímido. Ponderou por um momento e, por fim, retribuiu-lhe o sorriso.

– Que pessoa terrível seria, se negasse abrigo a uma jovem em necessidade – notou, antes de se dirigir às crianças. – Voltem amanhã, meus queridos. Preciso de cuidar primeiro desta menina. Depois dou-vos todos os doces que quiserem.

Os pequenotes insuflaram as bochechas, mas partiram em silêncio, lançando somente olhares chateados à rapariga que lhes tirara o lugar. Não deram conta de que se haviam cruzado com ela minutos antes.

A condessa deu-lhe passagem e fechou a porta atrás de si.

– Os pequenos estavam a contar-me como tinham encontrado um fantasma na estrada. Têm sempre tanta imaginação… Mas como se chama? – perguntou, fazendo-lhe um gesto para que a seguisse pelo chão alcatifado com uma carpete cor de sangue.

– O meu nome é Cecília, minha senhora. E agradeço-lhe muito o acolhimento – disse, sendo sincera.

Dirigiram-se para uma divisão à porta da qual as aguardava um homem cujas costas perfeitamente direitas o faziam parecer ainda mais alto do que já era. A sua expressão apresentava-se tão neutra quanto a de um autómato desligado. Fez um pequeno aceno à recém-chegada, sem retribuir o sorriso e, logo a seguir, seguiu a ordem que a condessa lhe deu, afastando-se dentro do uniforme que o identificava como um criado da casa, talvez o mordomo.

Entraram numa sala iluminada por dois candeeiros de pé alto e uma lareira onde as chamas baixas lançavam um calor reconfortante em redor. Entre dois sofás repousava uma mesa de pernas baixas, repleta de vários tipos de bolos e biscoitos.

Cecília sentou-se num dos sofás, após ser convidada. O corpo tremia-lhe um pouco.

– O meu mordomo, Thomson, trar-lhe-á um chá quente para a aquecer. – A condessa sentou-se ao seu lado e estendeu uma mão, tocando-lhe o rosto. Arqueou as sobrancelhas. – Por Deus, está mesmo gelada…

– O Outono vestiu-se de frio, nestes últimos dias – notou, com um sorriso de desculpa. Apesar de não estar a mentir, o clima não era realmente a fonte da sua frieza.

A condessa concordou com um aceno. De seguida, chegou-se um pouco mais para ela, franzindo o sobrolho. As narinas flectiram-se.

– Peço perdão, se parecer indiscrição minha, mas… o seu perfume é peculiar. Cheira a flores – reparou. – Mas é um odor tão suave que parece real.

– Na verdade – disse a jovem, colocando uma madeixa de cabelo atrás da orelha. – Há alguns anos, fui florista e tinha um campo onde cultivava flores. Penso que o cheiro se entranhou até à alma.

– Que fenómeno peculiar – murmurou, quase parecendo falar consigo mesma. A mão dela continuava na face de Cecília. – É uma jovem muito especial.

Cecília respondeu-lhe com um sorriso inocente e meio atrapalhado, antes de desviar o olhar para a lareira cujas labaredas dançavam, lançando sombras esguias sobre a mobília.

O mordomo não tardou a chegar, trazendo nas mãos uma bandeja com uma única chávena fumegante. Deixou-a sobre a mesa e partiu em silêncio. Nem mesmo os passos se ouviam, amortecidos pela alcatifa. Cecília bebeu o chá, gole a gole, enquanto escutava o monólogo da condessa, sem que os olhos azuis da mesma se desviassem do seu rosto.

Alguns minutos depois, as pálpebras da jovem começaram a descair de forma demasiado persistente. Esfregou os olhos, contudo de nada lhe serviu porque, pouco depois, ambos se fechavam por completo. A cabeça tombou contra as costas do sofá, inerte.

– Cecília? – chamou a condessa, chegando a abaná-la por um braço. Porém não obteve reacção. A mulher sorriu e ergueu-se, dando um jeito na saia. – Thomson, vou subir! A infusão já fez efeito, podes levá-la para cima.

Afastou-se em direcção ao corredor e desapareceu pelas escadarias que levavam ao primeiro piso. Um instante depois, o mordomo regressou à sala. A luz de ambos os candeeiros havia-se extinto e somente a lareira iluminava a divisão. Não lhe pareceu completamente estranho. Lançou um olhar desinteressado ao sofá, para, logo a seguir, franzir o cenho e olhar a restante sala escurecida. A chávena vazia repousava junto aos doces para as crianças. Contudo, do corpo da rapariga não havia sinal.

Avançara um passo, quando o toque frio de uma lâmina, junto à nuca, o fez parar e suster a respiração.

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