Devagar, abriu as pálpebras e olhou para cima. As aves voavam numa confusão de penas negras, a poucos metros de altura. Voltou a atenção para a janela quebrada, encontrando-a vazia. Cecília desaparecera. Aproveitou o momento para inspirar fundo e sentar-se com cuidado. Pousou a arma ao seu lado e tocou no braço ferido. O estilhaço ainda era grande e, pela dor, iria jurar que se enterrara quase até ao osso. Em redor da ferida, o casaco começava a tingir-se de vermelho. Voltou a encher os pulmões e prendeu a respiração por um momento de coragem. Com um movimento brusco, e de dentes cerrados, arrancou o vidro do interior da carne. Deixou descair a cabeça e voltou a fechar os olhos, ofegante. Enquanto isso, tentou pensar numa solução para aquela alma, no entanto só conseguiu lembrar-se de uma que, para além de não saber se seria efectiva, lhe tornou pesada a consciência.

Voltou a pegar na arma e guardou-a no coldre, sob o casaco. A seguir ergueu-se e deu meia volta, encarando o celeiro. As portas estavam abertas, convidando-o a entrar. Avançou com passadas decididas, mantendo-se, ainda assim, atento aos corvos sobre a sua cabeça e a qualquer outro movimento que pudesse surgir. Ao entrar, as aves não o seguiram.

Olhou em volta. O ambiente era calmo, algo estagnado, na verdade, com um ligeiro cheiro a ervas secas e estrume. Do seu lado direito havia um compartimento preenchido por um monte de palha com uma forquilha espetada, e, do lado esquerdo, a égua de Cecília lançava-lhe uma mirada pachorrenta, enquanto mastigava um bocado de feno. Samuel foi ter com ela e abriu-lhe a portinhola.

– Anda – disse, batendo ao de leve na madeira. – Está na hora de saíres daí. Isto já não é lugar para ti.

O animal saiu, um tanto ou quanto desconfiado. Aproveitou para apanhar mais uma bocada de feno, voltando a encará-lo.

– Vai, lá para fora. – Empurrou-a, não com demasiada força, em direcção ao exterior. O braço ferido já era suficientemente mau. Não queria juntar um coice à sua lista de mazelas.

Quando conseguiu pôr a égua do lado de fora do celeiro, tirou do bolso do casaco os fósforos que usava para acender cigarros. Não era muito usual fumar, mas por vezes fazia-o para descontrair um pouco. Voltou-se para o monte de palha à sua direita preparando-se para riscar um fósforo, porém estacou, ao aperceber-se da falta de alguma coisa – a forquilha.

Escutou um movimento súbito atrás de si e, por reflexo, atirou-se para o lado. Um grito de dor feriu-lhe a garganta, ao cair sobre o golpe do braço. Relanceou o local onde estivera há um instante. Os dentes de metal da forquilha tinham-se enterrado parcialmente pelo feno que forrava o chão. O cabo de madeira estremeceu e o instrumento soltou-se, flutuando no ar e voltando-se inevitavelmente na sua direcção. Cecília já não queria mais conversas.

Ainda deitado, e com o olhar fixo na arma pronta a atacá-lo, apressou-se a riscar o fósforo que não largara. A ponta soltou faíscas. Voltou a riscá-lo e, quando a chama se acendeu, a forquilha precipitou-se sobre si. Rolou no chão, perdendo aquele fósforo, e ganhou impulso para se erguer. Fez por pôr a dor de lado, apesar de o braço estremecer a cada tentativa de esforço.

– Cecília, seja razoável, por favor! – tentou, mais para ganhar tempo do que outra coisa. Tirou mais um fósforo da caixa, as mãos tremendo. Sobrava meia-dúzia deles.

Uma risada ecoou no celeiro, vinda de nenhuma zona em particular. Era como se todo o espaço em redor se divertisse, quando a forquilha se aproximou num golpe rápido. Apesar disso, de pé, e com a atenção necessária, não era demasiado difícil esquivar-se.

Correu para o lado de onde viera e parou junto ao monte de palha. Riscou um novo fósforo, conseguindo uma chama trémula, e, sem pensar duas vezes, largou-o sobre ele. Voltou a mover-se, desta vez em direcção às portas abertas, escapando a uma nova estocada da arma. Uma linha de fumo erguia-se da zona onde o fósforo caíra, porém não tardou a dar vez a um pequeno fogo que alastrou pela secura da palha.

O espírito não parecia ter noção do que acontecia. O riso chegava a ecoar dentro da cabeça de Samuel, enquanto a arma o tentava trespassar. O detective não se atrevia a dar-lhe as costas, apesar da vontade de correr e afastar-se dali. O fogo não tardaria a estender-se a todo o edifício, e dele para o chalé e para os campos de flores. Ou assim o esperava.

Do lado de fora, os corvos esperavam por eles. Quando a forquilha saiu para a luz do sol, as aves precipitaram-se sobre ela, envolvendo-lhe o cabo com as garras. As sobrancelhas do detective arquearam-se, enquanto o instrumento descaía em direcção ao chão, sob o peso dos animais. A risada insana parou de súbito. Cecília não estava feliz.

Aproveitou o momento para correr. Atrás de si, ouviu um rosnar de fúria e, de seguida, um chorrilho de crocitares engasgalhados, asas a bater em frenesim, e pancadas secas. Não olhou para trás, nem parou, precipitando-se pelo trilho que o guiara até ao chalé. Ao contrário do que acontecera quando tentara chegar à casa, desta vez não tropeçou. As plantas permitiram-lhe a passagem, sem pedras nem raízes traiçoeiras. Todavia, o peso de mil olhares invisíveis perseguia-o, vozes que não se escutavam pressionavam-lhe a consciência. Espreitou por cima do ombro, descobrindo nada mais do que o caminho que deixava para trás. Permitiu que o início de um alívio o começasse a conquistar.

Quando pensava que estava prestes a abandonar a propriedade, saída de entre as plantas que lhe chegavam à cintura, a forquilha surgiu diante de si, de dentes a gotejar sangue. Estacou de súbito e, quiçá devido ao movimento ou à perda de sangue, uma tontura tomou-o, sem aviso. Oscilou e esticou uma mão, por instinto, para se agarrar ao ar, já que nada mais havia ao alcance. Como se não bastasse, a terra estremeceu-lhe sob os pés, acabando por derrubá-lo. Uma nova risada repercutiu-se em redor, enquanto a forquilha avançava. Samuel rastejou para trás. Estava exausto, não conseguiria escapar. A forquilha ganhou balanço e precipitou-se sobre ele… porém parou a investida, a menos de dois palmos da vítima.

O inspector olhou em volta, tentando entender o que se passava. A um olhar mais atento, acabou por reparar na presença de uma raiz fina que se erguera da terra e formara um círculo em redor de uma porção invisível de ar, cerca de um palmo acima do solo. A planta, fosse qual fosse, parecia estar a agarrar a sua atacante invisível.

Ergueu-se com cuidado, não detectando qualquer tentativa de movimento na sua direcção. Criou um raio seguro entre si e a forquilha e voltou a afastar-se para a saída dos campos, sem tirar os olhos dos dentes manchados de sangue. Não foi seguido por nada e, quando atravessou a fronteira entre os campos de Cecília e o resto da zona em redor, sentiu como se um estranho peso lhe fosse retirado do peito. A montada que usara para chegar ali comia parte do arbusto onde ficara presa, alheia a tudo.

Rodou sobre si e olhou para diante. O princípio de fumo começava a erguer-se em direcção ao céu. As chamas não tardaram a imitá-lo, estendendo-se a tudo o que de inflamável houvesse ao alcance. Não ficaria ali para assistir ao resto. Desprendeu o cavalo e montou-o, lançando uma última mirada às flores, ao chalé e aos espantalhos que eram sete, tal como os desaparecidos que o tinham levado até à vila. A forquilha continuava estática a meio do movimento.

– Lamento por não conseguir ajudar de outra forma – murmurou Samuel, esperando que Cecília sentisse as palavras tal como ele as sentia: pesarosas.

Partiu, por fim, em direcção à vila, não voltando a olhar para trás.

*

Recostado no acento da carruagem que o levaria de regresso à cidade, Samuel passou para a folha seguinte, pensativo, enquanto revia o relatório que teria de apresentar ao seu chefe. Excluíra qualquer menção a fantasmas, chalés assombrados, plantas que se moviam… e um fogo posto por si. Este último, extinguira-se sozinho, sem chegar a afectar o bosque ou os campos adjacentes aos de Cecília – segundo o padre da vila, “fora obra do Senhor”. O que se pensava ser o corpo da florista fora encontrado carbonizado, dentro dos restos do chalé. Tendo em conta o início do fogo, e o local em que o corpo repousava, decidiu explorar a forte hipótese de suicídio. Para além disso, foram encontrados ossos nos locais onde antes se tinham erguido os espantalhos. Não tinha forma de confirmar que pertenciam aos desaparecidos, mas as suspeitas eram fortes. Muito possivelmente a florista sofria de distúrbios mentais que a tinham levado a matar as pessoas em causa e, devido a isso, acabara ela mesma por pôr termo à vida, levando consigo todos os resquícios do passado. Era a melhor conclusão que conseguia inventar.

Suspirou, recostou-se para trás e, fechando os olhos, deixou os altos e baixos da estrada embalarem-no. Uma brisa fria entrou pela janela entreaberta, levando-o a estremecer e a entreabrir as pálpebras, para arregalá-las, de súbito.

Sentada no banco diante de si, Cecília sorria-lhe. O corpo translúcido e de tom esbranquiçado permitia-lhe ver o estofo ao qual ela se encostava. Com as duas mãos, segurava no colo a forquilha, agora também ela feita daquela estranha substância espectral.

– Vinha agradecer-lhe. – Os lábios dela não se mexeram, a voz ecoando, como acontecera antes. – Tinha razão. Elas precisavam de ser livres. Eu própria precisava de me libertar daquele local, para cuidar das flores que ainda vivem, algumas perdidas, outras presas. Muito obrigada, inspector.

Samuel não respondeu, enquanto assimilava a aparição e a mensagem que lhe era deixada. Mais mortes… Cecília iria percorrer o mundo em busca de novas vítimas. E a culpa era sua.

Sem delongas, levado pela brisa, o fantasma desvaneceu-se, mas o sorriso permaneceu gravado na mente dele. No lugar deixado agora vazio repousava uma inocente e frágil papoila.

parte-iv

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