– Eu sei o que veio aqui fazer – afirmou a florista, num tom calmo. Deu um passo em frente, levando Samuel a recuar outro, para o interior do quarto. – Sei que é um detective.

Ele olhou-a com mais atenção, aquela que não dera aquando a primeira aproximação, por não querer levantar suspeitas. Talvez fosse devido à luz mais fraca, em relação ao exterior, mas agora a pele de Cecília parecia-lhe muito mais pálida. Para além disso, tinha marcadas no pescoço, de forma muito ténue, nódoas negras com formato de dedos.

– Matou-os, não matou? – perguntou.

Não estava armada. Então, porque é que continuava a recuar a cada passo dela? Lançou uma mirada de soslaio à cama. O cadáver parecia ter a mesma altura, o mesmo cabelo, o mesmo anel na mesma mão.

Cecília riu-se, como se Samuel tivesse dito alguma piada, e a seguir suspirou.

– Matei e voltava a matá-los. Sinto-me tão feliz quando me livro deles! – encolheu os ombros. – Ouvir os gritos, saber que sofrem até deixarem de respirar. Mas o senhor… não queria ter de matá-lo.

– O que és tu? – A voz tremeu, perdendo por um momento a noção da linguagem usada, enquanto voltava a recuar. Havia uma janela nas suas costas, a pouco menos de dois braços de distância.

– Eu? Sou uma flor que alguém magoou. Magoou muito – respondeu. – Ninguém tem o direito de magoar flores. Deviam protege-las… devia protege-las!

O olhar quase o perfurou, com uma acusação óbvia a brilhar no verde da íris. Atrás de si, a luz que entrava pela janela esmoreceu. Ouviu um coro de bater de asas do outro lado e lembrou-se da descrição do cadáver que fora encontrado dentro do poço, completamente desfigurado devido a bicadas de ave. Inspirou fundo, enquanto gotas de suor se formavam sobre as têmporas. Tentou relaxar. Estava encurralado, e algo lhe dizia que um tiro nada faria ao corpo diante de si. Para além disso, uma parte da sua consciência não queria realmente disparar contra ela.

Devagar, baixou a arma e endireitou as costas, encarando-a. Cecília piscou os olhos e arqueou as sobrancelhas.

– Não quero magoá-la, nem magoar nenhuma das flores que protege, senhora – disse, tentando manter um tom respeitoso. – Se pudesse, tê-la-ia protegido, e teria protegido as outras.

Ela inclinou um pouco a cabeça, observando-o. A inocência do seu olhar era tão pura que magoava, tão cega que era um perigo.

– Sois sincero. Todas as plantas o reconhecem – disse, fazendo um pequeno gesto para o exterior. – Todas elas têm uma alma. Uma alma quebrada que ainda consegue florescer, se forem cuidadas. É meu dever trata-las, protege-las. As que vivem nestes campos, e as que vivem além deles, dentro de um corpo igual ao meu.

Desviou a atenção para o cadáver estendido na cama. E, pela primeira vez, o sorriso vacilou. A alegria foi encoberta por uma onda de memórias.

Samuel olhou a porta, ponderado se não deveria fugir, agora que a apanhava distraída. Porém, não se sentiu capaz. Não que as suas pernas não quisessem correr, não que o medo do desconhecido não lhe mordesse os calcanhares. Porém, a consciência impedia-o. Qual era a probabilidade de conseguir convencer o que parecia ser uma espécie de alma penada a deixar de assassinar pessoas?

– Ele batia-me, todos os dias. E obrigava-me… obrigava – murmurou. Samuel não tinha a certeza se Cecília falava consigo, ou só com ela mesma. – Até que um dia me matou. Mas eu não morri. Enquanto continuava a apertar, eu olhava-o e já não sentia o aperto, não sentia a dor. Depois saiu e trancou a porta, deixando-me sozinha. Eu tremia, dentro de um corpo morto. Chorava, sem lágrimas. Passaram três dias, até ter coragem de sair. Ele viu-me e ficou pálido, quase tanto como eu, e fugiu.

Nesse momento, ela fez uma pausa, para, de súbito, soltar uma risada incrédula, como quem assiste a algo que é incapaz de imaginar de tão hilariante. Samuel não a interrompeu.

– Pela primeira vez – disse, por entre o riso –, foi ele a fugir, e não eu. Persegui-o por entre as flores. Quando tropeçou e caiu, regozijei-me. Na altura pareceu-me estranho, mas as plantas moveram-se e interpuseram-se sob os pés dele, propositadamente, cavando buracos e elevando parte da terra. Por fim, ele parou perto do poço. Fiquei a uma distância segura, a observá-lo. Apesar de tudo, ainda o temia. Foi nesse momento que ouvi o som de asas, imensas. Olhei para cima e vi uma nuvem negra de aves. Não sei donde vieram, mas desceram sobre ele e atiraram-no para dentro do poço. Mal ouvi os gritos, por entre o ruído do bater de asas e dos crocitares.

– O destino encarregou-se de o castigar – disse o inspector, baixinho. – Tanto a sua, como as almas das flores que a rodeiam, precisam de descansar. Acima de tudo, de esquecer.

As palavras soavam-lhe a conversa barata de religioso, ou de algum tipo de espírita.

– O senhor não compreende. Não é algo que se esqueça – murmurou, abanando a cabeça. – Não é uma ferida que sare.

– As feridas cicatrizam, se forem tratadas como realmente necessitam. Mas nunca sararão se forem constantemente confrontadas com o que lhes causou dor. É o que tem feito a si e a todas as outras flores. Tem, dia após dia, posto sal nas feridas. Sempre que mata alguém, com o pretexto de as proteger, está a recordar o passado que…

– Cale-se! – O grito teve o efeito desejado. Cecília fitou-o com dois orbes cuja cor se desvaneceu, tornando-os brancos. O mesmo aconteceu à pele e ao cabelo, perdendo o aspecto vivo que, durante aqueles anos, a jovem mimetizara na perfeição. A forma diante de si tornou-se incorpórea, de tal forma que Samuel foi capaz de ver a porta da rua através dela. As marcas no pescoço, pelo contrário, haviam enegrecido. – Não fale do que não sabe! É isto que elas querem, é isto que eu quero!

De mão estendida à altura do pescoço, a figura fantasmagórica deslizou na sua direcção. Voltara a sorrir, um trejeito amplo que o arrepiou da cabeça aos pés. Sem pensar, voltou-lhe as costas e lançou-se de ombro contra a janela.

Tanto o inspector como os estilhaços projectaram-se para o exterior. Ao cair no chão, um dos vidros cravou-se-lhe no braço, arrancando-lhe um grito dolorido que, ainda assim, foi incapaz de se sobrepor ao ruído dos corvos. De olhos fechados, esperou que se precipitassem sobre si, esperou sentir bicadas a perfurarem-lhe a roupa e, de seguida, a pele. Porém, eles não o atacaram.

parte-iii

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