Samuel recostou-se na cadeira e soltou um suspiro, enquanto observava as folhas de papel que tinha em mãos. Cinco homens e uma mulher desaparecidos no espaço de seis meses. Não conseguira apurar muito. Tudo o que sabia resumia-se ao facto de que tinham saído de casa e nunca mais haviam sido vistos. Não existia qualquer suspeita de fuga, até porque nenhum dos haveres desaparecera das casas, nem sequer dinheiro. As informações não oficiais, que obtivera ao travar conversa com algumas senhoras de língua mais comprida, deixaram-no inteirado de alguma da vida pessoal dos desaparecidos. Era do conhecimento geral que no lar de qualquer um deles existiam casos de violência doméstica, e talvez algo mais, perpetrados pelos desaparecidos. O que, em si, poderia ser uma linha a seguir. Os habitantes contaram-lhe ainda outro pormenor que, por si mesmo, não levantava grandes suspeitas, não se juntasse a outras particularidades.

Ergueu o olhar da papelada para uma banca colorida, a meia-dúzia de metros dali. Atrás das flores, uma jovem de sorriso contagiante cumprimentava as pessoas que por ela passavam, oferecendo flores a outras. Chamava-se Cecília, era viúva e, tanto quando se sabia, vivia sozinha, a poucos quilómetros da vila, entre campos imensos de flores. O marido fora encontrado morto dentro de um dos poços, bicado pelas aves. Determinara-se que a queda fora acidental, ninguém fora acusado. No entanto, quando inquirira uma velhota a respeito da florista, ela dissera-lhe, num sussurro: “a morte desse homem foi tão acidental quanto as nódoas negras que ela trazia no pêlo quando ele era vivo”. Poderiam ser só mexericos, mas até esses mereciam atenção quando os factos escasseavam. Eram pontas soltas.

Mexeu a sua chávena de chá e bebericou o conteúdo com sabor a erva-cidreira, enquanto continuava a observá-la. Não havia nada na sua figura esguia e delicada, nada na sua alegria sincera, nem nas risadas frescas que chegavam até si que levantasse suspeitas. Lembrava uma estrela, uma espécie de Sol que facilmente atrairia tanto homens como mulheres com a sua radiância. Tal como as sereias e as ninfas dos mitos.

Terminou a bebida e arrumou as folhas na mala a tiracolo. Os passos guiaram-no na direcção da banca, falsamente descontraídos. Não olhou para a vendedora; em vez disso, dedicou a atenção às plantas expostas.

– Bom dia, senhor – saudou Cecília, com um sorriso que mostrava duas fileiras de dentes perfeitos sob os lábios rosados. – Em que posso ajudá-lo? Flores para a sua esposa?

– Não sou casado – respondeu, com um sorriso leve. – Seriam mesmo flores só para mim. Um pequeno ramo, mais campestre. Acho-as as mais bonitas.

A jovem olhou-o por um momento, talvez tentando perceber qual a intenção daquelas palavras, antes de começar a escolher as plantas que o ramo teria.

– Concordo, mas só em parte. Mesmo sendo silvestres, gostam de ser cuidadas, que as mimem com uma boa terra, um bom estrume. Gostam de ser podadas e regadas com água fresca.

Observou os movimentos dela. Os dedos finos, sem calos, eram cuidadosos. Não via ali mãos de quem trabalhava o campo arduamente, muito menos sozinha. Uma aliança fina, em ouro, brilhava-lhe num dos dedos.

– Dedaleiras – comentou Samuel, quando a viu pegar num ramo donde pendia uma espécie de caxo de flores arroxeadas. – São tóxicas, deve ter cuidado.

A florista piscou os olhos.

– É só um modo de defesa. Todas as flores deviam ter um – notou.

– Mas isso não a iria impedir de as colher. Talvez alguns predadores as deixassem em paz, mas não uma florista.

Ela parou de repente, fitando as próprias mãos.

– Está a insinuar que não estou a ajudá-las? – perguntou, baixinho, quase como se falasse consigo mesma. – Que o veneno, os espinhos… não as salvariam? Que eu lhes faria mal?

Ele piscou os olhos, enquanto tomava um segundo para ponderar bem no que diria.

– Talvez esteja a ajudá-las, ou talvez não. Sabe o que deseja cada uma antes de ser colhida? Talvez deseje só continuar como é, tal e qual onde está – disse, as palavras saindo de modo pausado.

– Não é isso que desejam – murmurou. – Elas querem ser felizes, querem ser bem tratadas, respeitadas. E querem ser amadas.

– E todas as flores que vende são bem tratadas?

Cecília encarou-o. Os orbes verdes pareciam tomar noção de alguma coisa, reencontrando uma fracção de lucidez que se perdera por momentos.

– Desejo que sejam.

Não insistiu. Toda aquela conversa fora estranha, tanto que o fizera duvidar da sanidade da jovem. De que tipo de flores estaria realmente a falar?

*

Puxou as rédeas do cavalo, até o animal parar, antes de entrar na zona a partir da qual as flores começavam a ganhar terreno. Seis espantalhos oscilavam sob a brisa, os braços acenando-lhe com o balanço. Empoleirado no ombro de um deles, um corvo observava-os à distância. Nunca acreditara que os espantalhos fossem muito eficientes na sua tarefa, e ali estava a prova viva.

Nas redondezas não havia mais nada que chamasse a atenção. Deu um pequeno toque nos flancos do cavalo, incitando-o a seguir caminho. Contudo, o animal sacudiu a crina e soltou um relincho contrariado, recusando-se a iniciar o trote.

– O que foi? – perguntou-lhe Samuel, franzindo as sobrancelhas. Voltou a insistir, mas a resposta foi a mesma. O cavalo recusava-se a entrar naquela área.

Não viu outra alternativa senão desmontar e continuar a pé. Deixou o animal preso pelas rédeas ao ramo mais baixo de uma árvore e seguiu caminho. As plantas roçavam-lhe as calças, algumas prendendo-se ao tecido, e as pedras que se espalhavam no solo poderiam torna-lo árduo para as rodas de carroça que estavam demarcadas na terra. Algumas fizeram-no mesmo tropeçar, quando ia jurar que as evitara.

Quando saiu do trilho, diante da porta do chalé, olhou para trás e, por um momento, pareceu-lhe que algo se movia no terreno. No entanto, estava tudo parado. Passou uma mão pelos olhos. Talvez tivesse sido somente uma ilusão criada pelo vento que oscilava as plantas.

Pôs o pensamento de lado, para de seguida se voltar e encarar a casa. A florista só voltaria daí a algumas horas. Era improvável que mais alguém aparecesse por ali. Tocou na maçaneta e rodou-a, esperando alguma resistência. No entanto, a porta abriu-se para um interior silencioso. Uma expiração de mofo rodeou-o, como se aquele local há muito não fosse aberto. A luz, filtrada pelas cortinas fechadas, iluminava um compartimento que servia de sala de estar e cozinha. Sobre uma mesa de madeira, repousava um jarro com papoilas, diante de uma lareira apagada. Para além disso, havia uma porta fechada, um pouco mais à frente.

Aproximou-se primeiro da mesa, notando num pormenor, há medida que o fazia. Tocou-lhe a superfície. Uma camada de pó suavizava a aspereza da madeira. Já há algum tempo que ninguém a usava. Examinou o restante compartimento, percebendo que se passava o mesmo com todo e qualquer objecto em redor. Só as flores se mantinham frescas, vivas. Flores de Primavera, quando estavam quase no Outono.

Por fim, deslocou-se em direcção à porta fechada, porém, quando rodou a maçaneta, esta ofereceu resistência. Não deveria ser algo demasiado difícil de abrir. Tirou um arame do bolso das calças e, durante cerca de um quarto de hora, esforçou-se por destrancar a porta. Quando por fim conseguiu e esta se abriu, Samuel ficou parado a contemplar o interior.

O quarto era pequeno, com espaço para pouco mais do que a cama de casal. Sobre ela repousava um corpo decomposto. Uma peça de roupa enegrecida, que se moldava ao esqueleto, assemelhava-se a uma camisa de dormir carcomida pelos bichos. Ainda havia cabelos, caídos do couro, sobre a almofada. Fios ruivos, compridos, meio ondulados. E, na mão que repousava na cama, ainda se podia ver o brilho apagado de uma aliança.

Inspirou fundo. Aquele cadáver tinha mais do que dias. Já deveria estar ali há anos, trancado para não ser descoberto. Provavelmente não fora mexido desde que morrera… à semelhança de tudo o resto. Acocorou-se, com um breve gemido, e olhou o chão com mais atenção, confirmando-o. Não havia pegadas, para além das suas.

– É indelicado entrar na casa de uma senhora sem bater.

Samuel deu um salto e rodou sobre si, enquanto a mão acorria ao coldre escondido sob o casaco. Sacou do revólver e apontou-o à mulher à sua frente. Cecília sorria-lhe – a mesma expressão alegre, inocente.

parte-ii

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