Os olhares cruzaram-se. O dela era verde, cor de floresta, igual a uma das cores que bordejava da banca onde as flores faziam seu o sorriso que a vendedora esboçava – doce, inocente, alegre.

– Talvez uma flor para a sua querida esposa? – perguntou a jovem, dobrando-se um pouco para a frente, para tirar uma margarida de entre um ramo.

O olhar do homem demorou-se não na flor, mas no decote do vestido que, apesar de não ser amplo, permitia a visão da orla clara dos seios.

– Se pudesse levar a flor que realmente desejo, a minha mulher ficaria tudo menos feliz – respondeu. Enquanto isso, estendeu a mão num movimento rápido, tomando a dela quando ainda estava meio debruçada.

A jovem arqueou as sobrancelhas e recuou de súbito, sem largar a flor.

– A sua esposa merece mais respeito – advertiu, num tom inadvertidamente cortante, devido ao atrevimento.

O homem fungou e revirou os olhos, com todo o seu desprezo.

– Não merece coisa alguma, só uns bons açoites. – Quase cuspiu as palavras. – Mas tu, minha querida, mereces o mundo.

A florista pareceu hesitar, enquanto o fitava. De alguma forma, deixara-a curiosa. E ele captou essa curiosidade, o nervosismo com que ela segurava o caule da planta, e com a outra mão ajeitava uma madeixa de cabelo ruivo que não chegava a estar fora do sítio. Era uma presa fácil, uma flor à espera de ser colhida.

– É melhor sair da minha banca – disse, o tom oscilando entre o baixo e o alto. – Por favor.

– Saio… mas volto logo à tarde. Posso acompanhá-la a casa. A estrada é perigosa para uma donzela – notou, lançando-lhe um sorriso torto. – Até logo.

Inclinou-se numa ligeira vénia, antes de lhe voltar as costas e seguir caminho por entre os restantes mercadores da praça. O olhar da jovem seguiu-o, até desaparecer. No seu peito borbulhava uma inesperada alegria, enquanto nos lábios se ampliava um sorriso rosado.

Esperou-o, cantarolando para si uma música que a mãe lhe havia ensinado, há muitos anos. Por vezes dava um pequeno passo de dança e rodopiava, dentro do pequeno espaço da banca. E, à medida que o Sol deslizava no céu, o coração batia mais depressa. Porém, ele não apareceu.

Fechou a banca e carregou a carroça velha. Depois subiu para o banco corrido e pegou nas rédeas da sua pachorrenta égua, guiando-a pela rua principal, em direcção à saída de vila. Passou pela última casa, que jazia abandonada, e entrou no bosque.

Havia percorrido pouco mais de cem metros quando, sem aviso, o homem saiu detrás do tronco de uma árvore e entrou no trilho de terra batida. Estava impaciente.

A florista parou a égua e olhou em volta, certificando-se de que não havia ninguém à espreita.

– Suba, depressa – urgiu, estendendo-lhe uma mão. Ele aceitou o apoio e impulsionou-se, deixando a carroça seguir caminho, antes de falar.

– Pensei que já não viesse, ou que lhe tivesse acontecido algo. – Não havia uma verdadeira nota de preocupação na voz. Enquanto falava, uma das mãos tomava a liberdade de se pousar numa das coxas da florista. Os músculos da jovem tornaram-se tensos.

– O senhor adiantou-se um pouco – disse, inspirando fundo e não se atrevendo a desviar o olhar do que havia diante de si.

– O importante é que nos encontrámos – notou, apertando-lhe um pouco a perna para sentir melhor o que se escondia sob o vestido.

A jovem engoliu em seco e, só por um segundo, baixou os olhos.

Sem aviso, uma das rodas da carruagem encontrou um buraco mais fundo e ressaltou com espalhafato. O homem largou-a, agarrando-se ao banco com ambas as mãos. Rezingou por entre os dentes qualquer coisa parecida com “maldita estrada”.

– Prepare-se que ainda não acabou – avisou a jovem. – É melhor segurar-se, se não está habituado aos solavancos. Peço desculpa por não conseguir evitá-los.

Ele ia responder, quando outro buraco o apanhou desprevenido, quase o fazendo saltar do assento e cair da carroça.

O homem deixou-se levar então em silêncio, até enveredarem por um trilho mais estreito que descia por entre as árvores. Os ramos debruçavam-se sobre eles, criando efeitos de sombras que oscilavam ao vento vespertino. Ao contrário da estrada principal, esta era particularmente mais plana, sendo poucas as raízes, pedras ou covas que interferiam com a carroça.

A zona arbórea terminou de forma abrupta, para ser substituída por um mar de cor: campos repletos de flores de todas as tonalidades e feitios, até onde a vista alcançava. O perfume que as flores libertavam era inebriante e todo o sítio reflectia uma alegria pura, frenética, que se estendia ao zumbido casual das abelhas e ao trinado das aves. Cinco espantalhos esfrangalhados dispunham-se aleatoriamente pelos campos. Daquele que estava mais próximo, conseguiu reparar na sua cabeça sem olhos mas com um sorriso quase de orelha a orelha, um tanto macabro. A sua presença, no entanto, não era impedimento para que três corvos sobrevoassem o local, parecendo procurar o sítio ideal para aterrar. Entre os campos, erguia-se um chalé pacato, com um anexo pequeno a poucos metros das traseiras.

– Como… – O homem piscou os olhos, pávido e momentaneamente esquecido dos seus intentos. – Como é que cuida de tudo isto? Não vive sozinha?

– Oh, são as fadas e os duendes que me ajudam – respondeu a florista, com uma risada de brincadeira. – Todas as noites ofereço-lhes leite e biscoitos de mel, e eles colhem as flores que consideram merecedoras de viajar até ao mercado no dia seguinte.

Ele olhou-a. Apesar de divertida, a rapariga parecia convicta do que dizia. Por um momento passou-lhe pela cabeça que ela pudesse sofrer de um qualquer desequilíbrio mental. Se assim fosse, tornaria as coisas mais fáceis, e qualquer acusação seria deitada por terra devido a alguma loucura febril. No entanto… uma réstia de dúvida passou-lhe pelo rosto. Era impossível cuidar sozinha de todos aqueles campos. Talvez não estivesse realmente tão só quanto apregoava.

– Agora a sério, como é que consegue esta proeza? Não tem filhos que a ajudem, o seu marido faleceu há anos.

Ela riu-se, e o som da risada competia com o das aves canoras.

– Uma imensa dedicação à minha causa – acabou por responder. – É a coisa que me deixa mais feliz. Enche-me o espírito de paz e realização.

Com cuidado, puxou as rédeas, refreando a égua, quando chegaram junto da casa.

– Estou a ver…

– Acompanha-me até lá atrás? Vou só descarregar a carroça e aliviar a minha amiga – explicou a florista.

Uma onda de desagrado assomou ao rosto do homem, face a ideia de ainda ter de esperar. Queria estar de regresso à cidade pouco depois de anoitecer. Porém, de seguida lembrou-se que talvez o celeiro nem fosse um lugar muito mau para consumar o que ali fora fazer. A palha conseguia ser minimamente confortável para uma coisa rápida.

– Eu ajudo-a, claro – sorriu-lhe.

A carroça voltou a mover-se, dando a volta à casa, devagar. As portas do estábulo estavam abertas. Ou a jovem não temia assaltos, ou simplesmente não havia nada para roubar. Quando pararam junto à entrada, ouviu o grasnar de um corvo, vindo do interior. Os malditos pássaros estavam por todo o lado.

A jovem saltou do seu lugar e, com dedos ágeis, apressou-se a desatrelar a égua.

– Podia levá-la para dentro e tirar-lhe as rédeas? – pediu ela, estendendo-lhe o animal.

Bem, o que seria dele sem um pequeno sacrifício? Ser cavalheiro, de vez em quando, não matava ninguém. Tomou as rédeas da mão dela e encaminhou-se para o interior. Um bafo a plantas secas recebeu-o ao passarem as portas. Uma fina camada de palha forrava o chão, amortecendo-lhe os passos. Havia dois espaços livres para pôr os cavalos, mas só um parecia realmente usado. Levou o animal até lá e começava a desafivelar as rédeas, quando um novo crocitar lhe chamou a atenção. Franziu as sobrancelhas, rodou a cabeça e, por cima do ombro, olhou para o tecto. Os olhos arredondaram-se. As traves principais que sustinham o telhado estavam parcialmente cobertas de corvos. Dezenas deles. Esqueceu-se da égua por um instante e aproximou-se do centro do estábulo. Trocaram olhares hostis. A vontade do homem era espantá-los dali. Mas como? Não queria nenhum tipo de público.

Rodou sobre si, para procurar um objecto para o efeito, contudo deu de caras com a florista. A jovem estava parada a meio metro de si e todo o seu rosto sorria num júbilo efusivo. Nas mãos segurava uma forquilha de dentes afiados.

A incerteza tomou-o de súbito, e um receio miudinho entranhou-se-lhe no corpo. Recuou um passo. Com o movimento, um dos corvos esvoaçou do poleiro e, num bater de asas, para se equilibrar, pousou no ombro da florista. O homem não pensou duas vezes e tentou passar por ela, em passo de corrida. Contudo, antes que tivesse tempo de a deixar para trás, a rapariga ergueu o cabo da forquilha e atingiu-o no peito, atirando-o ao chão com uma inesperada força bruta.

Caiu de costas e, por um momento, o impacto fê-lo fechar as pálpebras. Quando as abriu, já os dentes da forquilha caíam sobre si.

parte-i

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