11ª Entrada

Não sei o que fazer. Tentei, contra todo o bom senso, sondar a opinião dos outros oficiais do meu grupo expedicionário sobre a eventualidade de os “uu-manns” serem mais sofisticados do que o Alto Conselho apregoava. O Engenheiro-Supremo achou ridícula, quase divertida, a ideia. Até comentou que talvez eu estivesse esgotado com os meus esforços. Sugeriu-me ainda que descansasse para ver se clareava a mente. Já com o Sumo-Comandante as coisas não correram tão bem. Ele apontou, sem subtileza nenhuma, que esse tipo de conversa podia muito facilmente ser considerado indício de traição, e recomendou que o que eu devia fazer era concentrar-me nos meus esforços para produzir, e expeditamente, a bio-arma, antes que a minha lealdade e eficiência pudessem ser questionadas.

Estou encurralado, portanto. De certeza que as minhas acções vão ser alvo de escrutínio oficial, se é que não estavam já a ser. Tenho que produzir a arma. Mas não quero. Não posso.

Como vou resolver isto?

 

12ª Entrada

Esta será a minha última entrada. Há muitos ciclos de rotação – os “uu-manns”, que aprecio cada vez mais, chamam-lhes “diias” – que não registo nada, mas isso deve-se ao meu trabalho intenso desses “diias”.

Produzi, finalmente, a arma. Mas não é aquilo que o Alto Conselho esperava. Agora que já está a ser distribuída em massa, e mesmo aplicada em campo em algumas frentes, já posso escrever sem medo o que fiz.

Seleccionei os microrganismos mais virulentos deste orbe, a “Teh-rra”, e criei a arma a partir daí. Só que ela não vai afectar os autóctones. Não, nada disso. Modifiquei os microrganismos dotando-os de partículas de superfície adaptadas aos nossos organismos. Nomeadamente, antigénios da Praga Verde, a mesma que quase exterminou a nossa população em tempos idos. Assim, perderam qualquer capacidade de infectar os “uu-manns”, em vez disso vão penetrar nas nossas células sem restrições e, espero eu, terminar a nossa invasão antes que alguma outra equipa de pesquisa consiga criar um tratamento eficaz. Duvido que consigam, afinal criei vários organismos diferentes.

Sei que funciona. Testei em mim antes de produzir em massa e enviar para a distribuição. À medida que escrevo isto as minhas forças abandonam-me a um ritmo que seria alarmante se não fosse sinal do meu sucesso. Daqui a uns “diias”, se tudo correr como previ, terá tudo acabado.

Que os Etéreos Antigos sejam misericordiosos no seu julgamento quando eu ascender à sua presença. Que tenham misericórdia de todos nós…

 

O chefe de gabinete ficou uns minutos a olhar para a última entrada e finalmente pousou relatório.

– Isto é… – começou ele, parecendo não conseguir encontrar nada para dizer, o que era definitivamente uma novidade para Abernathy. Este tentou ajudar:

– Fascinante?

– Sim, também. Mas essencialmente, perturbador, à falta de melhor termo. Agora, diga-me, quem, além de nós os dois, tem conhecimento disto? Os tradutores, e quem mais?

– Creio que apenas os tradutores.

– “Creio” não chega, Professor. Temos que nos certificar que isto não sai daqui. Fez bem em vir directamente a mim. Não divulgou isto, certo?

– Não, senhor. Esta informação muda tudo o que sabemos sobre os invasores e sobre o próprio final da invasão. Quis consultá-lo sobre a melhor maneira de dar a conhecer isto ao mundo.

– De dar a conhecer… – Fowler parecia estar estarrecido. – Não vamos “dar a conhecer” nada a ninguém. Este documento vai ser destruído, qualquer cópia que haja vai ser destruída, os originais marcianos vão ser destruídos e nenhum de nós vai contar nada a ninguém, percebe? Isso inclui silenciar os tradutores. Se não for a bem, a mal. Com recurso a “acidentes” se necessário.

O cientista ficou pálido:

– Mas… Porquê? Esta informação é revolucionária. É certo que mostra que estávamos enganados quando pensámos que eles tinham sido infectados naturalmente. Sim, retrospectivamente isso foi ingénuo, ainda não sabemos muito sobre como é que as bactérias infectam outros seres vivos, mas faz sentido que não tenham capacidade de infectar seres de outros mundos. – Abernathy estava em modo académico, apesar da tensão do momento. Parecia estar a pensar alto e não a falar com Fowler. – E a premissa de que não há bactérias em Marte era ridícula, havendo organismos multicelulares como se tornou evidente que há, e…

– Abernathy. Cale-se. Por favor.

O Professor ficou mudo, e visivelmente aborrecido. Fowler aproveitou:

– Percebo o seu fascínio por isto tudo, mas há uma razão muito importante para não desmentir a história. A ideia de que pode haver Marcianos a simpatizar e ajudar humanos é extremamente perigosa. – Abernathy fez menção de falar, mas o outro não permitiu. – Ouça-me até ao fim, por favor. Sim, é uma ideia perigosa. Depois de os Marcianos morrerem, tem sido uma caça ao tesouro a apanhar tudo o que deixaram para trás. Textos, veículos, materiais, amostras biológicas, aparelhos em geral e, não menos importante, armas. O resultado é que a nossa ciência e tecnologia deram saltos de gigante, mas isso aconteceu em todo o mundo, não só no Império Britânico. E você sabe-o perfeitamente. Os Franceses conseguiram tornar autónomas as centopeias mecânicas que construíram com tecnologia dos trípodes. Já andam sem piloto. E se é verdade que hoje só as usam como transporte de mercadorias, num instante lhes instalam armas. Os engenheiros do Kaiser têm tido imenso sucesso a miniaturizar os raios de calor. Os nossos analistas estimam que no prazo máximo de dois anos tenham modelos capazes de ser carregados por soldados, como se fossem espingardas. E nem vou descrever aqui os relatórios das experiências hediondas feitas pelos Russos com derivados do Fumo Negro. E só falei dos mais conhecidos, como se apercebeu.

– Sim, eu também ouvi esses rumores. Mas onde quer chegar?

– Onde eu quero chegar é a uma realidade muito simples. Numa coisa os Marcianos estavam correctos. A humanidade ainda age como bestas em muitas situações, especialmente em questões entre nações. Por vezes parecemos crianças. E agora somos crianças com armas terríveis, tão terríveis que fazem as armas pré-invasão parecer fisgas e paus. Não podemos dar-nos ao luxo de ter Marcianos bonzinhos. Temos de ter o medo de uma nova invasão a manter-nos na linha e a impedir-nos de estarmos mutuamente agarrados às nossas gargantas colectivas. Se de repente passarmos a ideia de que não nem todos os Marcianos nos querem apagar sumariamente do mapa como inclusivamente alguns deles poderiam aliar-se a nós…

– Deixaríamos de ter um dissuasor, é isso?

– Sim. Podíamos ter uma guerra à escala mundial daqui a meia dúzia de anos, com ou sem novas invasões. E pior, se houvesse uma invasão, íamos ter todas as potências a tentar cair nas suas graças para usar o poderio deles contra as outras nações.

– Estou a perceber. Mas não há outra maneira? Manter o segredo, apenas?

– Professor, para alguém tão inteligente como o senhor, às vezes você é um pouco obtuso. Destruir o segredo é a única maneira de o manter. Se amanhã os documentos caíssem nas mãos erradas podia haver novas traduções, e já concluímos no que isso ia dar. Não há outra maneira. Os documentos têm de desaparecer. E ainda não estou muito certo quanto aos tradutores. Tenho que pensar bem no assunto.

– Não acredito que está a considerar eliminar os linguistas! Eles só fizeram o trabalho deles.

– E muito bem, devo acrescentar. Mas consegue fazê-los esquecer? Consegue impedi-los de falar? Ameaças a eles ou às suas famílias bastarão?

– Não vou continuar a ter esta conversa consigo, Fowler. Vai ameaçar-me a mim também? Ou vou simplesmente ter um “acidente”?

– Não sei – respondeu laconicamente o outro, encarando-o através da secretária. – Acha que vai ser preciso?

Abernathy levantou-se furiosamente e dirigiu-se para a porta:

– Não se preocupe, Fowler. Garanto-lhe que por mim ninguém vai saber a verdade. Provavelmente nem acreditariam, a versão deus ex machina é muito mais atractiva. Mas nem pense que vou colaborar em fazer mal aos pobres dos tradutores. Isso é pedir demais. – O outro não respondeu, dando ao Professor a oportunidade de dizer a última coisa que tinha em mente:

– E sabe que mais? Espero que os votos do Cientista-Mor, de que os “Etéreos Antigos”, ou seja lá quem for que os Marcianos veneram, tenham piedade de todas as almas, se estendam a si. Vai precisar.

marcianohumanista4

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