O chefe de gabinete parou de ler por um momento, contemplando as implicações do texto. Um Marciano a simpatizar com humanos? Seria possível? Prosseguiu a leitura.

6ª Entrada

Não devia permitir isto, mas a dúvida atormenta-me. Estes seres, que aparentemente se designam a si próprios como “uu-mans”, demonstram à observação directa uma série de  características que em princípio todos assumimos que não teriam.

Comecei a separar alguns “uu-mans” para estudar o comportamento deles. Escolhi, para ser mais específico, três que aparentavam estar ligados entre si. Um cavitado, um não-cavitado e uma cria cavitada.

Devo manter isto em segredo. A minha atitude pode ser tomada como um desafio à autoridade do Alto Conselho. Além disso, posso estar errado – espero estar errado – e na melhor das hipóteses perderia credibilidade junto dos meus irmãos. E esse é um luxo a que não me posso dar.

 

7ª Entrada

Comecei a testar o comportamento das criaturas. E não sem algum risco para mim, mas não posso permitir, pelo menos por enquanto, que mais ninguém tenha conhecimento disto. Quando experimento coisas apenas uso dois autómatos de segurança para me proteger, apesar de não acreditar que os “uu-mans” constituam uma ameaça real para a minha integridade física. No fim de cada sessão, apago os registos de funcionamento dos autómatos.

Hoje resolvi mandar um dos autómatos agarrar a cria e afastá-la do grupo; os outros dois, não surpreendentemente, acorreram a ajudá-la.  Não conseguiram nada, o autómato limitou-se a sacudi-los; o cavitado ficou no chão em convulsões e a verter água pelos olhos; o não-cavitado ainda insistiu, não obstante a sua inferioridade física e o facto de ter sofrido algumas lesões.

No final, soltei a cria e permiti que voltasse para a cela junto dos outros dois. O cavitado ficou agarrado a ela, ambas as criaturas a libertar água pelos olhos, durante um período de tempo considerável. Estou agora convicto que o excesso de produção de lubrificante ocular está associado às emoções deles.

 

“Não, a sério?” pensou o chefe de gabinete. “És um verdadeiro Sherlock Holmes.”

8ª Entrada

Executei mais um teste, baseado no comportamento do autóctone não-cavitado que observei outro dia. Enviei um dos autómatos para a cela para remover a cria, que me parece ser mais frágil, cuja integridade eu não queria comprometer, instruindo-o para deixar para trás uma barra de metal. Depois enviei o segundo autómato para a cela, ordenando-lhe que simulasse uma agressão física ao cavitado, que aparenta ser menos forte fisicamente. A reacção do “uu-mann” não-cavitado foi impressionante, embora não surpreendente. De facto, e como esperado, usou a barra de metal para atacar o autómato, e fê-lo com um vigor tal que conseguiu mesmo danificar um dos tentáculos mecânicos. Suspendi o teste para avaliar os danos e concluí que, ou os autóctones são muito mais fortes do que inicialmente calculámos, ou conseguem de alguma forma aumentar a sua força em situações de tensão e desespero. O que pode ser uma ameaça ao nosso plano.

Devia comunicar isso, mas algo me está a impedir. E não é só a complicação inerente a ter que justificar como obtive essa informação que o está a fazer.

Se estas criaturas forem tão complexas como estão agora a aparentar ser, então a nossa invasão está assente numa premissa eticamente errada.

 

Fowler ficou atónito quando leu estas palavras. Pela primeira vez, um indício de que um Marciano poderia reconhecer que afinal não eram tão superiores em tudo aos humanos. Onde é que isto ia ter? Será que afinal podiam ter valores próximos dos nossos?

9ª Entrada

Já há dois ciclos de rotação deste Orbe que não faço experiências nos “uu-manns”. Não consigo, sinto que estou a ferir criaturas sensíveis, e isso repugna-me. E se forem todos assim, a nossa missão aqui não é um acto lógico de sobrevivência. É, isso sim, barbárie pura.

Naturalmente, o meu trabalho no desenvolvimento de uma bio-arma está prejudicado, e isso já me valeu uma repreensão do Sumo-Comandante. Devia evitar chamar as atenções, também já fui questionado sobre as avarias e os registos apagados nos autómatos.

Isso complica o meu passo seguinte, que é solicitar os registos dos linguistas que fizeram, alegadamente, uma tradução simplificada das línguas dos “uu-manns”. Pelos vistos têm mais que uma língua. Têm muitas diferentes. Os deste local falam e escrevem numa designada por “inglês”. Justificarei o meu pedido alegando que se comunicasse com eles, poderia perceber melhor as patologias dos autóctones e averiguar mais eficazmente se os efeitos dos microrganismos-protótipo eram os desejados. Espero que acreditem em mim. Especialmente porque não comecei sequer a desenvolver qualquer protótipo.

10ª Entrada

Tenho começado a estudar, a contragosto, os microrganismos deste mundo. Não sei como vou conseguir criar uma arma para erradicar os “uu-manns”. Quanto mais os observo, mais me apercebo que não são nada do que o Alto Conselho apregoou. São criaturas perfeitamente conscientes, sensíveis e corajosas. É certo que são aguerridas, mas não o somos também? Nós, os autoproclamados superiores, de intelecto elevado, de eficiência extremamente afinada e controlo emocional impecável. Talvez esse controlo não seja algo de bom. Os “uu-manns” deixam-se levar por emoções facilmente, mas isso parece ser mais uma fonte de força do que de fraqueza.

Já aprendi algo novo com o estudo da língua deles, que me permitiu um grau de comunicação satisfatório, embora rudimentar, com eles: os meus cativos designam-se como “mulheer”, “ohmeim” e ” cri-anssa”, respectivamente, o cavitado, o não-cavitado e a cria. No caso do cavitado, têm uma referência de género diferente, o “femeni-ino”. São conceitos fascinantes. Aparentemente, os dois “uu-manns” mais velhos são os progenitores da “cri-anssa” e têm um tipo de relacionamento a que chamam “casa-mehnto”. Trata-se, pelo que apurei, de uma das ligações mais importantes, do ponto de vista afectivo, entre dois “uu-manns”. Isso explica as reacções do “ohmeim” para defender os restantes elementos.

Será que mais alguém já se apercebeu disto?

 

Fowler parou de ler uma vez mais, embora apenas por instantes. Estava a apreender a enormidade do conteúdo do relatório. Tratava-se, tanto quanto sabia, do único Marciano humanista em toda a maldita invasão. Nunca, em todos os textos extraterrestres traduzidos que lera nos últimos anos se deparara com considerações destas. Quando muito, todos insistiam na selvajaria e primitivismo dos nativos da Terra, pintando-os como bárbaros e obtusos. Já só faltavam duas entradas.

marcianohumanista3

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