Londres, 1908.

Após a espera mandatória, Clive Abernathy foi recebido pelo chefe do Gabinete dos Assuntos Pós-Guerra, Winston Fowler, no bunker sob o edifício do Parlamento. Fowler, que embora não possuísse título oficial a nível governamental, respondia apenas ao Primeiro-Ministro e ao Rei, levantou-se da secretária e acolheu-o com o ar de cansaço entusiasmado que era a sua imagem de marca:

– Ah, Professor Abernathy, viva! Então o que o traz cá hoje? A reunião mensal é só para a semana.

– Bem sei, Mr. Fowler, – começou o cientista – mas acredite, isto não podia esperar.

– Não me diga que ainda tem a ver com o vazamento de Fumo Negro no Armazém 49 na semana passada. Já soube que morreram três pessoas, mas asseguraram-me que a fuga foi contida e ordenei que fossem tomadas as medidas do costume para compensar as famílias.

– Não, senhor, isso está efectivamente tratado. Tem a ver com uma descoberta… inusitada, no mínimo.

– E lá está você com o seu talento para o eufemismo. Agora está a deixar-me ansioso. Alguma liga metálica nova que permita miniaturizar ainda mais os nossos trípodes? Achei que o Modelo III já era satisfatoriamente mais compacto que os predecessores, mas nunca se deve reclamar um avanço!

– Não, senhor, nada do género – contrapôs Abernathy. – É um documento novo, na realidade. Acabado de traduzir pela equipa de linguística. Trata-se de um diário. De um dos elementos chave da invasão.

– Ah, mais um pedaço de informação suculenta sobre os nossos industriosos vizinhos planetários! – Fowler, que em vez da vulgar alcunha usada para os Marcianos, “encefalóides”, preferia usar estes epítetos mais rebuscados, pareceu genuinamente animado.  – Nunca cessam de me surpreender. – De facto, desde a queda dos Marcianos que os vários governos, especialmente os das grandes potências, deitavam a mão a tudo o que pudessem apanhar que lhes desse uma vantagem sobre os outros. E se com o desmantelamento dos equipamentos dos invasores, as equipas responsáveis por engenharia reversa conseguiam saltos de gigante no desenvolvimento de tecnologia, as equipas de tradução permitiam conhecer  a ciência por trás dessa tecnologia. E não só material técnico e científico: nos dez anos desde a invasão falhada, os humanos haviam descodificado e publicado tratados de filosofia, sociologia, política e tudo o mais que se pudesse imaginar, abordados do ponto de vista dos “encefalóides”. Alguns desses textos eram as traduções do equivalente marciano a livros, e que os invasores tinham com eles nos cilindros interplanetários; outros tinham sido compostos por académicos humanos a partir de documentos marcianos – registos variados, memorandos, cartas e outras comunicações, ou mesmo diários.

Pelos vistos, o documento que apoquentava o Professor era um destes últimos.

– Deveras? Achava que nesta fase já pouca coisa oriunda do Planeta Vermelho nos conseguia genuinamente impressionar. Um diário, então? De que trata?

– É melhor que veja por si próprio. Não é muito extenso, mas o seu conteúdo… muda muita coisa. A equipa não chegou a converter as datas do calendário marciano para o nosso calendário, era um processo moroso e dado o teor do conteúdo, optaram apenas por manter a ordenação dos registos. Os nomes, como não eram traduzíveis, passaram a cores.

– Sim, esses pequenos truques dos rapazes na Linguística. Dê cá, então. E por favor, sente-se, detesto tê-lo aí especado de pé a olhar para mim.

Fowler assumiu uma postura mais séria enquanto começava a ler o documento. Leu na diagonal a página introdutória, que tinha, como era protocolo, uma série de entediantes referências militares e técnicas sobre a proveniência do documento, a classificação, datas, identificação da equipa de tradução. Apenas uma coisa lhe chamou a atenção: o tipo de conteúdo. O diário pessoal de um dos Marcianos da casta dos cientistas. Pelos vistos, um dos principais responsáveis pelo estudo dos humanos.

Material promissor, talvez contivesse alguns princípios científicos inovadores que ainda não tivessem vindo à luz. Com um bocado de sorte, algo de novo a nível mundial.

A primeira entrada foi registada, aparentemente, durante a viagem:

1ª Entrada

Diário pessoal de viagem do Cientista-Mor “Azul”, encarregado principal do estudo dos bípedes habitantes do terceiro planeta do sistema solar.

Dirigimo-nos no Primeiro Cilindro em direcção ao Terceiro Orbe. A tripulação inclui um grupo de membros da Casta da Ciência, meus subordinados, um grupo de elementos da Casta da Tecnologia, dirigidos pelo Engenheiro-Supremo “Verde” e um esquadrão completo da Casta da Guerra, sob a alçada do Sumo-Comandante “Vermelho”. Somos a cabeça da invasão, e esta tripulação conta com alguns dos principais arquitectos deste projecto. É uma honra colossal.

A mim e à minha equipa cabe a tarefa de estudar, do ponto de vista biológico, os autóctones bípedes do mundo azul. Ao contrário do nosso mundo natal, o Quarto Orbe, o nosso alvo está quase coberto de água, o que diminui muito a quantidade de terreno disponível. Ainda assim, o solo é fértil e o clima muito mais estável, que é o que necessitamos para a nossa sobrevivência. O nosso mundo já não nos pode suster, e nem com toda a tecnologia de controlo atmosférico a situação poderá ser contornada muito mais tempo.

A ocupação do Terceiro Orbe é, pois, fulcral.

O único obstáculo são os referidos autóctones bípedes. Aparentam ter um intelecto rudimentar, o suficiente para construírem algumas povoações e mesmo terem alguma tecnologia básica.

Fowler franziu o sobrolho. Já lera considerações semelhantes noutros textos, e a arrogância dos Marcianos nunca cessava de o aborrecer. Era verdade que tinham tido a vantagem militar, mas acreditava honestamente que, se os Marcianos não tivessem morrido de doença, os humanos não teriam quebrado e teriam eventualmente derrotado os seus antagonistas do “Quarto Orbe”.

Os nossos estudos à distância demonstram ser a espécie dominante no nosso mundo de destino, e enquanto os nossos irmãos sociólogos determinaram que é uma espécie tosca e essencialmente selvagem,…

“E eles a insistirem”, pensou o chefe de gabinete.

…parecem ser tenazes, mesmo teimosos. O Alto Conselho determinou, com base na observação dos seus comportamentos, serem uma espécie beligerante e calculou que a hipótese de coexistência pacífica é essencialmente nula. Embora primitivos, essas características comportamentais, aliadas ao seu número elevado – superior a mil e quinhentos milhões, ou seja, dez vezes mais que toda a nossa população – tornam-nos potencialmente perigosos.

Assim, a lógica ditou apenas um curso de acção: o extermínio dos habitantes para que o Orbe seja nosso. E terá de ser feito de forma expedita, de modo a que os animalescos seres não tenham qualquer hipótese de retaliar.

O mundo deles será nosso, pois nossa é a superioridade e nosso é o direito. Assim o determina o Alto Conselho, assim será feito.

Fowler já lera arrazoados semelhantes noutros textos; achava irónico, quase divertido, como uma espécie que se considerava tão superior em termos intelectuais e civilizacionais conseguia ser tão descerebrada. A ironia residia no facto de os Marcianos, do ponto de vista orgânico, serem basicamente encéfalos enormes…

A minha missão é, assim, encontrar as suas fraquezas e conceber meios de os erradicar mais rapidamente. Os meios militares da Casta da Guerra, com toda a sua eficiência, serão adequados a dizimar os combatentes e as máquinas de guerra dos autóctones, mas dificilmente conseguirão aniquilar a população na sua totalidade. Tendo hipótese, irão, sem dúvida, esconder-se em abrigos onde o nosso acesso seja difícil. Assim, o pretendido é criar uma arma biológica, um microrganismo infeccioso, que afecte a população globalmente e acabe com ela.

A nossa pesquisa centrar-se-á nisso. Outras equipas, que viajam nos Cilindros que irão aterrar a seguir ao nosso, ficarão encarregadas de outras tarefas também necessárias, como criar vacinas e medicação para combater os microrganismos locais. Não podemos permitir que os mesmos diminuam a nossa eficiência ou até que causem baixas entre os nossos números.

MarcianoHumanista1

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