30 de Setembro

Cheguei hoje de manhã às instalações. Ao que parece, houve uma explosão que fez desabar várias galerias de uma mina. O que causou o rebentamento, ninguém faz ideia. Entretanto, apresentaram-me o pessoal da equipa de enfermagem e da restante equipa médica. Está tudo um caos! Os mineiros não param de chegar em macas vindos do local do acidente. A maioria dos pacientes apresenta ferimentos ligeiros, mas até agora temos cinco em estado bastante grave.

3 de Outubro

Perdemos três pacientes, não resistiram aos ferimentos. A maioria dos feridos ligeiros já teve alta. Falei com um dos encarregados. Ainda há cerca de 300 homens desaparecidos no interior das minas.

4 de Outubro

Os cadáveres não param de chegar. A morgue improvisada está cheia e parece que este pesadelo está longe de acabar. Alguns dos corpos estão completamente carbonizados, irreconhecíveis para quem quer que olhe para eles. Não consigo imaginar o inferno que se passou naquelas galerias.

6 de Outubro

Mais de 250 mortos e 400 feridos. Cerca de 50 homens continuam por encontrar. As equipas continuam à procura na zona do acidente, mas sem sucesso. As famílias juntaram-se em vigília junto à entrada das minas. Mantêm a esperança de encontrar os seus entes queridos com vida, mas já se passou mais de uma semana…

12 de Outubro

Parece inacreditável, mas as equipas de regaste encontraram-nos! Ainda não consegui perceber ao certo como conseguiram, mas garantem que os mineiros desaparecidos estão presos numa das galerias. Os acessos foram cortados pelo desabamento, pelo que os responsáveis do resgate procuram agora a melhor forma de chegar aos homens.

15 de Outubro

A situação está cada vez mais complicada. A explosão deixou a estrutura da mina instável. Os responsáveis acham que escavações no local onde os homens se encontram podem resultar no desabamento da galeria, soterrando-os a todos. Vão tentar escavar um túnel a partir de um local seguro e extrair os homens através dele. Resta esperar que seja a tempo…

20 de Outubro

Os trabalhos continuam e o túnel está quase pronto. Nos próximos dias devemos ter acesso à câmara onde os mineiros ficaram presos. Depois de tanto tempo, a probabilidade de encontrar alguém com vida é quase nula, mas as famílias continuam a sua vigília. Com o aproximar do derradeiro momento, também a comunicação social voltou em força. Há jornalistas por todos os lados.

22 de Outubro

Conseguiram! As equipas de resgate conseguiram fazer aquilo que parecia impossível. Ao fim de dois dias de escavações, conseguiram alcançar a câmara onde os mineiros estavam presos há quase um mês. Infelizmente, do grupo de cerca de 50 apenas 10 sobreviveram. Aparentam estar subnutridos, desidratados e bastante confusos. Pergunto-me como terão conseguido sobreviver todo este tempo lá em baixo… Sem dúvida que encontraram alguma nascente subterrânea, caso contrário não teriam durado tanto tempo.

23 de Outubro

Os pacientes continuam sob observação. Mostram-se desorientados e com dificuldades de comunicação. Também se estão a tornar violentos, muito provavelmente efeitos do stress a que foram submetidos.

24 de Outubro

Uma descoberta horripilante. Ao explorarem as galerias em busca de corpos, as equipas de salvamento descobriram cadáveres com sinais de mordeduras, aos quais faltava a maior parte da carne, com apenas osso em alguns locais. Ao que tudo indica, o desespero tomou conta destes homens e, na falta de alimentos, terão recorrido ao canibalismo. Eram perto de 50 ali em baixo, e só 10 voltaram…

25 de Outubro

O estado dos pacientes continua a degradar-se. Estão mais magros e a pele cada vez mais clara, fazendo lembrar cadáveres ambulantes, apesar de estarem a ser devidamente alimentados e medicados. Os olhos também sofreram alterações, estão mais claros, quase brancos, tando na iris como na pupila. Os episódios de explosões de violência também aumentaram. Um deles atacou um dos enfermeiros, cravando-lhe as unhas e os dentes na carne. Tivemos que os separar em celas. A sua capacidade verbal é praticamente inexistente. O acesso das famílias aos pacientes foi interdito.

26 de Outubro

Estou cada vez mais confuso! Os pacientes começaram a sofrer convulsões, com episódios quase hora-a-hora. Os uivos de dor preenchem os corredores do hospital. Os membros dos pacientes estão mais longos e mais fortes. Não entendo o súbito aparecimento de toda aquela massa muscular. As unhas dos pés e das mãos também registam um crescimento anormal, formando autênticas garras. Um dos enfermeiros jura que a um dos pacientes cresceram os caninos. Dada a violência dos indivíduos, não consegui confirmar.

27 de Outubro

Tem de ser uma doença nova ou algum agente mutagénico desconhecido. Não encontro outra explicação para o que está a afectar estes homens. As transformações sucedem-se. A pele dos pacientes tornou-se dura e espessa, perderam todo o couro cabeludo bem como pêlos no corpo. Os membros alongados terminam agora em mãos e pés largos providos de afiadas garras. O crânio dos indivíduos também se alterou, afunilando para criar uma espécie de focinho de onde sobressaem os caninos. Tornaram-se extremamente agressivos, é impossível qualquer tipo de comunicação.

28 de Outubro

São animais selvagens! Um dos enfermeiros morreu, foi atacado por um dos indivíduos. Vi os braços do pobre homem serem arrancados na minha frente, enquanto era devorado ainda com vida. As balas dos guardas pouco mais fizeram do que afugentar o mineiro. Não os podemos reter aqui, isto tornou-se demasiado perigoso. Estou à espera de instruções superiores sobre o que fazer. Nunca vi nada assim em toda a minha vida….

29 de Outubro

Um dos pacientes fugiu durante a noite. Parece impossível, mas conseguiu arrancar as grades da janela da cela. Os seguranças seguiram-no até à floresta, mas acabaram por lhe perder o rasto. Entretanto recebi resposta governamental. Dentro de três dias estes homens vão ser levados para instalações do governo, especialmente preparadas para os receber. Não estou autorizado a falar com ninguém sobre o assunto, tudo é confidencial.

30 de Outubro

Para quem encontrar este diário, ele voltou… Regressou da floresta ao início da noite. Por muito que eu gostasse de acreditar que agora não passam de animais selvagens, vi uma lucidez humana e assassina nos actos daquela criatura. Primeiro eliminou os seguranças, um a um, isolando-os. De seguida, avançou pelo recinto sorrateiramente, matando quem encontrava, criando ciladas aos médicos, enfermeiros e restante pessoal. Quando o pânico se espalhou, libertou-os. Sim, ele voltou para libertar os companheiros. O que se seguiu foi um banho de sangue que eu gostava de poder apagar da minha mente. Restamos três, não sei se mais alguém sobreviveu. Estamos há duas horas barricados na sala da caldeira. Eles estão lá fora, a rondar a sala, a tentar entrar… Não sei se me safo, por isso deixo o apelo: se encontrarem este diário, por favor, fujam, fujam para bem longe antes que eles vos apanhem!

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