O dia estava calmo e o sol perto do Zénite. Para além do bombardeamento matinal e alguns tiros de aviso, não acontecera nada digno de nota. Para Roberto, fulcral era manter a cabeça abaixo da linha do solo. Tudo o resto eram detalhes.

Não havia muito para fazer, por isso, dedicou-se a desmontar e limpar a arma. O maior inimigo tinha duas armas: a morte e o aborrecimento. A transição entre uma e outra era brusca e nefasta. Tanto passavam dias aninhados naquelas poças de lama a morrer de doenças tratáveis, como em semanas de combates intensos. Uns e outros vinham e iam sem qualquer aviso. A fome e o sono eram como a paisagem, contribuíam só para o desconforto geral e já ninguém se queixava deles.

O som da metralhadora quebrou a monotonia e não anunciava nada de bom. Voltou a montar a arma e a carregá-la o mais rápido que pôde. Tinham sido eles a disparar, o que significava que o inimigo estava de novo a tentar atravessar o rio.

― E aqui vamos de novo ― comentou Igor, que se aninhara a seu lado.

Mais disparos. Ambos sabiam que não era boa ideia espreitar. Ao contrário de alguns, eles tinham tido miolos suficientes para não perderem a cabeça desse modo.

― O que se passa? ― gritou para os colegas da trincheira ao lado.

― Mais um ataque, nada de especial ― respondera-lhe de imediato.

O morteiro caiu a uns passos deles. A onda de choque derrubou-o, fazendo-o cair na lama. Um zumbido persistente apoderou-se-lhe dos ouvidos. Uma inspecção rápida mostrou-lhe que não estava ferido. Umas quantas assim e ficaria surdo. Igor já se havia recomposto. O Zé vinha da latrina e o Fábio do abrigo.

― Onde é que vocês estavam? Já perderam o início do fogo-de-artifício ― gozou Igor, atirando um murro no ombro do Zé.

Estes vinte metros estavam por conta deles. À frente ficava a terra de ninguém. Vinte metros de desolação até ao rio. As ordem eram simples: acontecesse o que acontecesse, nenhum inimigo podia jamais desembarcar.

As munições de artilharia continuavam a chover por ali. Umas mais perto que outras. Se tivesse escolha, preferia ficar nos abrigos individuais, onde o risco de ser atingido era mínimo. Eles separaram-se, indo cada um para o posto, uma saliência na vala. Por esta altura, já Igor estaria a usar o seu espelho para ver quem lá vinha. Olhou para arma. Esta lata podia ser do tempo da União Europeia, mas ainda funcionava bem. A primeira vez que encravasse podia ser o último dia da sua vida.

― Más notícias, pessoal. Eles estão a levar barcos até à praia. Não tarda que tentem atravessar ― gritou Igor, fazendo-se ouvir por cima do barulho dos disparos.

Ao longo dos anos, tinham havido centenas de investidas de ambos os lados, todas com o mesmo resultado: nenhum. Não fazia diferença quantos homens e recursos usavam. Ser destacado para um ataque era uma sentença de morte. Tanto que a expressão, que te escolham para a próxima investida, já se tornara um dos piores insultos. O pior eram os bandos de corvos que se banqueteavam nos corpos abandonados na terra de ninguém. O croquitar constante afectava até mesmo os que tinham nervos de aço.

Apesar de estarem no meio de uma ofensiva, a maior parte do tempo só podiam esperar. Uns segundos de acção e estava tudo acabado, de uma maneira ou de outra.

Outro salvo de artilharia atingiu as posições. Um dos projécteis caiu tão perto que sentiu a onda de choque nos ossos. O zumbido nos ouvidos parara por completo. Não ouvia nada. Apercebeu-se que aquilo explodira na borda da trincheira. Era raro acontecer e nada bonito de ver. O coração falhou uma batida. Caíra perto do Igor. A terra desabara naquele ponto, misturada com pedras. Viu Fábio do outro lado. Onde estava o Zé? Distinguiu um braço mutilado no meio do solo. Aproximou-se, percebendo que o resto do dono já não estava presente. A pouco foi encontrando outros pedaços ali perto. Igor não tinha salvação. O Fábio estava tentar desenterrar algo. Foi ajudá-lo. O Zé estava bastante maltratado, mas vivo. Trocou um olhar com Fábio. Ambas as alternativas eram arriscadas.

― Eu levo-o ― ofereceu-se Roberto.

Com a ajuda do companheiro, colocou o Zé às costas e seguiu pelos túneis, todo dobrado, para que nenhum deles pudesse ser atingido do exterior. Cada passo era doloroso. Zé murmurava coisas sem sentido. O sangue do colega ia-lhe ensopando a roupa.

― Aguenta-te pá, já estamos a chegar ― encorajou-o.

Ao chegar ao fim da trincheira, soube o que desafio estava prestes a iniciar-se. Teria de percorrer um quilómetro no meio de um ataque para chegar ao hospital. Os cozinheiros e os estafetas faziam o mesmo caminho todos os dias, mas nunca de dia. Isto equivalia a pintar um alvo nas costas. Estremeceu antes de meter o pé na escada.

A partir dali, mexeu-se o mais depressa que o peso lhe permitia. Os disparos multiplicavam-se nas suas costas. Nenhum parecia apontado para eles. Tanto pelo que sabia, bastava um. As costas doíam-lhe. Sentiu as pedras debaixo do pé moverem-se. No momento seguinte, estava em queda. O embate com o entulho expulsou-lhe o ar dos pulmões. O Zé aterrou ao lado dele.

Deixou-se ficar no chão. Estava farto desta guerra. Bastava uma bala e isto acabava. Quase ninguém conseguia cumprir o tempo de serviço com vida ou sem uma lesão permanente. Mais valia ficar ali e esperar pelo inevitável.

Veio-lhe uma lágrima ao canto do olho. A mãe iria chorar quando soubesse. E a doce Leonor também. Era demais, já não bastava a mãe ter perdido o marido e a irmã o pai naquelas margens amaldiçoadas, agora iriam perder o filho e irmão. Ou talvez dois filhos e dois irmãos. Não sabia onde andava o Francisco. Ninguém sabia. A divisão dele nunca parava no mesmo sítio.

Ouviu um gemido a seu lado. Era o Zé. A família nunca o iria perdoar se o deixasse morrer aqui. Ergueu-se, tentando não pensar na batalha que se desenrolava nas suas costas. Pegou o colega ferido ao colo e retomou o caminho. Um pé à frente do outro, foi subindo o monte. As feridas do companheiro eram profundas e o sangue corria em demasia. Apressou o passo, já se via o topo do monte. Faz um esforço, quase atingindo o passo de corrida. No cimo da elevação já se vêem o centro de comando, as artilharias, o paiol e o hospital, que não são mais do que o aproveitar das construções da antiga vila.

Um par de minutos e estava no hospital. Já tinham passado várias semanas desde que ali tinha estado. As camas encontravam-se sobrelotadas e os médicos não tinham mãos a medir. Não conseguia sequer ver as enfermeiras. Estendeu o Zé sobre uma maca. Ninguém pareceu dar de conta que chegaram.

― Alguém me ajude. Ele foi atingido por um morteiro ― protestou, em voz alta.

Por fim um dos médicos aproximou-se.

― Não é preciso gritar ― reclamou, observando o soldado. ― Pode ir, eu trato dele.

Roberto saiu, mas deixou-se ficar por ali. Já não se ouviam os disparos. Parecia que a investida terminara. Não vale a pena perguntar como é que terminou, tudo aparentava ter voltado ao normal. Excepto para os que não irão ver outro dia.

― O que é que o soldado está aqui a fazer? ― perguntou-lhe um oficial.

― Tenente ― fez-lhe continência, depois de se levantar à pressa. ― Vim trazer um companheiro ferido.

― E o que é que está à espera para voltar ao seu posto?

― Estou à espera do anoitecer ― constatou, não percebendo como é que não era óbvio.

O homem afastou-se sem lhe responder. Era provável que estivesse atarefado com qualquer coisa.

Ao pôr-do-sol, o médico veio ter com ele. Trazia uns papéis na mão.

― Entregue isto ao comandante do seu pelotão ― ordenou, virando logo costas.

Assim que ficou escuro, pôs-se a caminho junto com o cozinheiros. O passo era mais lento que os restantes e acabou por ficar para trás. Quando chegou, já a comida tinha sido distribuída. Não se preocupou, foi direito ao abrigo do tenente.

― Onde é que raio estiveste? ― inquiriu, aproximando-se da sua face.

― Levei o Zé para ser assistido ― respondeu, passando-lhe os papéis.

O tenente era mais novo, mas tinha chegado àquela posição por ter frequentado o colégio militar.

― Era só o que mais me faltava ― comentou, passando os olhos pelo formulário. ― Outra baixa. Estás dispensado.

Roberto voltou para a trincheira. Sentou-se ao lado de Fábio, que lhe passou a malga da sopa para a mão. Trocaram um olhar. Não precisava dizer-lhe que não voltariam a ver o Zé.

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