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– O que é que estás ‘praí a dizer, Rui? Onde é que eu estive? Em minha casa, querias que estivesse onde?

“Não pode ser. Ele não pode estar aqui…” As lembranças do que fizera uma hora atrás passavam ainda na cabeça de Rui, ainda não tivera tempo de fixar essas memórias no seu cérebro. O sangue na sua mão, na roupa que usava e na faca que espetara na pessoa que agora se encontrava à sua frente, sã, sem qualquer ferida.

– Mas, há uma hora atrás?

Gonçalo revirou os olhos exasperado – Sim, Rui, estive em casa há uma hora atrás. Estava deitado até receber a tua mensagem a dizer para irmos à praia. – Apontou para si, de calções de banho sem qualquer vestimenta na parte superior a não ser uma toalha pendurada no ombro – Aqui estou, como pediste… Agora queres parar com essa palermice e ir?

– Ah, sim, sim vamos. – O corpo não seguiu o exemplo das palavras até Gonçalo o empurrar para descer os três degraus do seu terraço e tocar na areia branca da praia, banhada pelo sol radiante de um céu limpo.

Não caminharam muito até estenderem as suas toalhas escuras.

– Vou dar um mergulho – informou Rui. “O que é que aconteceu?” pensou de novo para si. Sem esperar para sentir a temperatura da água atirou-se com um impulso das pernas num arco meio desajeitado.

A água estava mais fria do que nos últimos dias, um pouco abaixo da temperatura tropical costume da ilha. O suficiente para sentir aquele aperto nos pulmões e o choque do frio no seu corpo quente. “Como é que isto aconteceu?”

Refez na sua cabeça as últimas duas horas. Mandara uma mensagem holográfica nessa madrugada ao seu amigo Gonçalo para combinar encontrar-se junto das docas, de onde os navios gigantescos partiam para a ilha Pré-Espacial, com o pretexto de precisar de falar com ele sobre um assunto importante. Não fora preciso esperar muito tempo para obter uma resposta afirmativa com a cara de Gonçalo ainda sonolenta a consentir e encontrar-se com ele lá.

Caminharam até entrarem num dos armazéns carregados de mercadoria pronta a embarcar para uma das estações espaciais que orbitavam Marte. Utilizando o cartão do seu pai, Rui inseriu o código que daria acesso ao interior do edifício. Tirando os rebentos de plantas prontos para serem enviados para o espaço, nenhum ser vivo estava por lá, o silêncio dominava. Até a discussão começar.

No caminho, Rui empatara o seu amigo com conversa circunstancial sobre a sua namorada. Não fora nada agradável para ambos os lados quando as verdades começaram a ser disparadas, qual bisturi que feria cada vez mais fundo de maneira quase cirúrgica. E fora no meio dessas frases que Rui tirara a faca que guardara na mala e num impulso espetara no peito do outro rapaz, não se importando se acertava ou não no coração.

Pensara em levar uma pistola, seria mais impessoal, não haveria tanto contacto entre ambos. Mas desde que a lei sobre o porte de armas fora aprovada dois anos antes, que todas as armas passíveis de disparar algo continham vários átomos de memória, átomos modificados com a mais recente tecnologia e que, ao sofrerem a vibração do disparo, ativavam o sistema de alerta das autoridades.

No entanto, não fora essa facada a matá-lo, mas sim as oito seguintes que perfuraram o coração e os pulmões, libertando sangue por qualquer abertura que houvesse. A força das mãos de Gonçalo, que se agarravam à camisola do amigo numa súplica, ia diminuindo com cada facada desferida, tal como a sua respiração, até não sobrar mais do que um suspiro. As mãos e a roupa de Rui ficaram encharcadas com aquele líquido vermelho, que tornara-se cada vez mais pegajoso conforme o tempo passava.

Ainda no armazém, trocou a sua roupa com uma que trouxera de casa e enfiou os trapos ensanguentados na mochila juntamente com a faca. Saiu do armazém, sempre à espreita para ver se alguém havia visto o par a entrar e apenas um rapaz a sair. Mas era ainda demasiado cedo para qualquer um. Foi até ao pontão, agarrando pedras pelo caminho e metendo-as na mala. Quando chegou ao ponto mais afastado da margem, atirou a mochila ao mar, e sem esperar para ver se afundava ou não voltou para casa, traumatizado com o que fizera, mas com o seu sentido de justiça cumprido.

O ar nos seus pulmões estava a começar a escassear, e o corpo exigia que voltasse à superfície. Rompeu a superfície do mar com a cabeça e engolfou ar de supetão. “Como é que ele está aqui se eu o matei? Eu vi-o a deixar de respirar.”

A vários metros atrás de si, à beira da água, ouviu vozes a chamá-lo. “Como é que ele está aqui outra vez? Era ele, ele sabia de tudo.” Não havia qualquer explicação que conseguisse completar as peças que faltavam naquele enigma. E antes que o seu amigo estranhasse, nadou até voltar a terra firme.

Quando saia da água reparou que Gonçalo não estava mais sozinho. Lília juntara-se a ele. Tão diferentes quanto uma rosa era de uma urtiga. Lília viera este ano para a ilha, antes morava no grande continente, na metrópole maior do país. Como tal, a tecnologia e o avanço do conhecimento era algo associado a ela, tal como as suas madeixas azuis, rosas e verdes chocantes apenas no final dos seus cabelos loiros. Os olhos cinzentos eram pintados à volta o suficiente para fazê-los sobressair ainda mais e os seus lábios pintados do batom vermelho mais chamativo que houvesse.

Já Gonçalo era tão comum quanto Rui era. Ambos nascidos e criados na ilha que servia principalmente como ponto turístico ou ponto de descanso para partidas e chegadas das estações espaciais. Eram morenos, de cabelos castanhos aproximando-se do loiro. Olhos escuros e lábios finos caracterizavam-nos a eles e a quase todos os nascidos ali. O que os distinguia era o aspeto físico. Gonçalo, habituado a correr pela ilha ou a fazer exercício na praia não se inibia de mostrar o seu corpo trabalhado, ao contrário de Rui que preferira sempre os estudos ao exercício, e só na praia é que se atrevia a mostrar o corpo sem grandes constrangimentos, mas apenas quando não confrontado por grandes massas de homens esculturais.

– Que estás aqui a fazer? – Perguntou Rui, antes de dar um pequeno beijo nos lábios da rapariga. – Pensei que estivesses a dormir…

– A dormir? Tu mandaste-me uma mensagem a meio da noite para me encontrar contigo em tua casa, o que é que estavas à espera para fazer meu tonto? – Riu-se um pouco, pondo a ponta da língua para fora num jeito travesso. Quando o sangue começou a afluir à cara de Rui, virou-se para o amigo de ambos e piscou o olho, cúmplice das brincadeiras que sempre faziam.

“Mandei? Mas eu não me lembro de mandar-lhe mensagem nenhuma…” O seu pensamento foi interrompido por Lília – Mas eu não vi, estava a dormir tão bem, e só notei que tinha uma mensagem hoje de manhã, por isso decidi ir até tua casa, para ver o que querias de mim…  Claro que antes de chegar já vos tinha visto aos dois aqui na praia.

– Bem, não se importem comigo, eu posso ir embora se precisam de falar… Ou fico por aqui, caso queiram ir para algum lado… sozinhos… – Riu-se da sua própria piada, fazendo Rui corar uma vez mais.

– Parem lá com isso, vocês os dois! – Afastou o ar com uma mão, como se quisesse afastar o assunto – Lília, deixa-me só ir a casa buscar a minha mala, tenho lá uma coisa para ti. – Rui tinha feito uma moldura com búzios apanhados na praia e madeira que dera à costa, era algo simples, mas as duas fotografias que lá estavam eram o principal – Vai ter comigo à porta de casa e depois vamos dar uma volta.

Agarrou na sua toalha e foi em direção à sua habitação. Assim que abriu a porta foi buscar o seu holomóvel e esqueceu-se de tudo o resto. “Que mensagens foram enviadas? Será que não passou tudo de um sonho? Será que não matei mesmo o Gonçalo?” As mensagens enviadas eram iguais ao que ambos os amigos tinham dito. Uma mensagem a meio da noite para Lília e outra há poucas horas para o Gonçalo, mas a dizer para se encontrarem na praia, e não nos armazéns.

“Foi tudo um sonho? Mas então e o que me fez fazer aquilo? Foi tudo um sonho também?” As certezas de Rui estavam cada vez mais abaladas. Agarrou na moldura e foi à procura de uma mochila onde por o objeto. Encontrou a mesma mala com que tinha sonhado, abriu-a e encaixou o presente, mas ao fazê-lo sentiu mais alguma coisa lá dentro. Olhou e viu uma muda de roupa, e em cima, uma faca.

Ficou paralisado uns segundos em choque. “A faca está aqui. Eu planeei isto. Será que fiquei pelos planos e não fiz nada? O resto foi só um sonho macabro daquilo que realmente quero?” Decidiu levar a mala como estava. Precisaria de averiguar o que era real ou não, e não cometeria o mesmo erro.

Abriu a porta do seu quarto e do outro lado estava Gonçalo, deitado no chão do armazém, numa poça de sangue coagulado, o seu olhar fitava o vazio. Mesmo assim Rui chegou-se ao pé dele e colocou os dedos junto do pescoço dele, à procura de sinal de pulsação. Nada.

– Tu estás… morto! Então o que se passa?! Como é possível? Estarei a ficar louco?! – Olhou à sua volta. Estava outra vez no armazém, o teto iluminado com grandes luzes brancas mantinha-se o mesmo e as paredes cheias de rebentos de plantas a crescer eram as mesmas de algumas horas atrás. Agarrou na mala e correu para fora do armazém. Ao abrir a porta Lília estava do outro lado à sua espera.

 – Estava a ver que não – Sorriu, mostrando as covinhas nas suas bochechas que tanto agradavam Rui – Vamos então?

Andaram sem qualquer destino. Quando Rui notou, estavam junto aos armazéns uma vez mais. “Destino… ou coincidência?”. – Lília, o que fizeste ontem enquanto ajudava o meu pai no armazém?

A rapariga olhou-o com ar de interrogação – Estive na praia, com o Gonçalo. Ajudámos até um casal que se ia mudar para a estação espacial. Estavam perdidos, sem saberem onde era o navio que tinham de apanhar para chegar à plataforma de lançamento.

“Ela mente-me.”

– Eu estive a preparar uma coisa para ti no armazém, vem. – Agarrou-lhe a mão e puxou-a, forçando um sorriso cada vez menos sincero. Chegou à porta do armazém e puxou do cartão do seu pai, desativando a fechadura.

Empurrou a porta e quando deu um passo para dentro reparou que estava outra vez no armazém onde matara Gonçalo. A poça de sangue ainda não secara, a cabeça do cadáver estava descaída, na sua direção, os olhos abertos, sem qualquer brilho, fitavam-no num acesso de culpa. E do outro extremo do armazém abria-se uma porta, alguém iria entrar e ver não só uma pessoa morta, mas Rui ao pé.

Sem deixar Lília entrar, empurrou-a para o outro lado da porta. A rapariga tropeçou e quase caiu, antes de Rui apanhá-la.

– Então?! – Lília agarrara-se aos braços de Rui – Porque é que me empurraste cá para dentro?

– O quê? – Só após aquelas palavras terem sido ditas é que Rui olhou em volta. Estava de novo no armazém, mas este limpo, verdejante das plantas que lá estavam, sem qualquer morte a rodeá-lo. – Mas… Não viste?

– Não vi? Tu não me deixavas entrar, foi preciso desviar-te e depois tu empurraste-me! Mas o que é que me querias mostrar?

– … Vem. – Continuou o seu percurso até onde vira Gonçalo morto. Nada. O chão mantinha-se igual ao dia anterior. – Lília, eu sei.

– Sabes o quê Rui? – Mais um passo de distância entre eles e Rui deixaria de notar o milésimo de segundo em que a rapariga tremera o lábio superior.

 – Eu vi-te a ti e ao Gonçalo… Não na praia, mas em tua casa.

As recordações do dia anterior assombravam-no. Chegara a casa dela, feliz por ter acabado o trabalho mais cedo e planeara surpreende-la. Mas fora ele o surpreendido quando vira pela janela do quarto dela as duas pessoas mais próximas de si a trair a sua confiança, beijando-se qual dois amantes de longa data.

– Eu vi-te, Lília! Nada do que tínhamos significava algo para ti!

Lília não sabia para onde virar-se, olhava para todo o lado menos para os olhos de Rui. – Não… Nós…

– Não, Lília! Não quero saber, eu vi-vos. – Puxou a mala para si. A raiva transbordava novamente, os seus pensamentos só volteavam na traição que sentira por ambos. Mas desta vez sabia que não fora culpa de Gonçalo, mas sim dela. Fora ela que trouxera o seu amigo de longa data para sua casa. Fora ela a estrangeira a chegar e intrometer-se na amizade que tinham desde infância. Fizera mal ao matar Gonçalo, agora faria o certo.

Antes que desse por si a moldura que fizera jazia partida no chão e a faca estava na sua mão, apontada à rapariga – Rui, o que estás a fazer?

– Justiça! O que devia ter feito ontem! – O vestido não resistiu, e muito menos a pele sedosa da rapariga quando a faca se espetou no seu abdómen. Perfurou o mais fundo que pôde, até o cabo estar junto da pele, e o sangue começar a escorrer pela mão do rapaz.

Uma vez mais, sentiu a essência da vida a esvair-se de outro ser humano que julgava ser o que mais importante tinha na sua vida.  Mas agora a sua raiva transformara-se em algo gelado, e não usou a faca para esfaquear a rapariga mais nenhuma vez. Em vez disso rodou a faca e esperou que ela soltasse o seu último suspiro para retirar a arma, guardá-la na mala e fugir dali.

Abriu a porta do armazém para o exterior, e lá estava outra vez dentro do mesmo edifício. O seu amigo Gonçalo, morto no chão, esvaído em sangue. O olhar vazio na sua direção, a repreendê-lo pelas suas ações. A mesma porta que vira antes, do outro lado do armazém estava aberta desta vez, alguns metros mais próxima de si, o suficiente para perceber que alguém do outro lado via-o, apesar de ofuscado pelo sol que brilhava vindo da rua.

Rui fugiu. Não percebera como, mas estava na rua, a fugir em direção a casa. A sua precaução de livrar-se da arma do crime e da sua roupa tinham sido esquecidos. O pânico da possibilidade de ter sido visto afligia-o. “Se me descobrirem, vão prender-me. Não posso deixar.”

Chegou a casa a ofegar, subiu as escadas galgando os degraus, e ao abrir a porta do seu quarto entrou no mesmo armazém onde estivera minutos antes. Agora era Lília que estava à sua frente. Morta, o vestido absorvia o sangue que saía da ferida na barriga, a cabeça virada na mesma direção que a de Gonçalo, a culpá-lo pelo que tinha feito. Recuou, até embater com as costas na porta por onde entrara.

Virou-se e viu Gonçalo. Não entendia nada do que se passava. Num momento estava na sua casa, no outro no armazém. Não havia escapatória. Estava debaixo da portada, já não havia saída para a rua, de um lado estava Gonçalo num armazém, e do outro Lília num armazém exatamente igual. As pessoas mais importantes, mortas por si, num acesso de ciúmes e raiva, qual magma e ácido juntos, a corroerem-no. A porta do outro lado estava ainda mais próxima de si, um homem viu-o. Fugiu para o armazém onde Lília jazia. Fechou a porta.

“Estou a ficar louco. O que se passará? Quem é aquele? Terei de matá-lo também.” Tirou a faca da mala uma vez mais. “Ainda servirá para mais uma morte. Ou é isso ou fugir.”

Agarrou a maçaneta da porta com uma mão, enquanto a outra segurava a faca. “Ele deve estar a vir. Procurará saber quem sou. Abrirei a porta e matá-lo-ei.” Encostou-se e ficou à escuta, à espera de ouvir passos a aproximarem-se.

Mas nada. Escutou com mais atenção, até ouvir uma respiração pesada do outro lado. “Deve estar a fazer o mesmo que eu. Deve estar à espera para ver o que vou fazer. Vou surpreendê-lo.” Num movimento súbito abriu a porta e avançou com a lâmina em frente sem olhar para quem atacava.

Sentiu a faca mais do que a viu. Os seus olhos viam o seu reflexo à sua frente. A sua cara zangada, atrás de si mesmo conseguia ver Gonçalo morto.

“Mas… que espelho é este? Eu estava no armazém onde matara Lília, como é que está a refletir o corpo do Gonçalo? Este é o armazém onde matei quem?” A confusão instalada na sua mente baralhava a sua noção de onde estava. Virou a cabeça para trás, tentando ver o corpo de Lília, onde julgava que estava. “Se ela está ali, então isto não é…” Baixou o olhar para onde deveria estar a faca. Estava espetada no corpo do seu reflexo. Reflexo esse que fazia o mesmo com uma faca igual, tal como um espelho comum.

A dor veio depois. Sentiu o ardor da lâmina a cortar tudo dentro de si. O seu sangue a escorrer, quente e viscoso, para a mão do seu reflexo, misturando-se ao sangue do outro Rui. À sua volta o mundo começou a escurecer.

Viu a cara do reflexo, e sentiu a sua cara, a embranquecer. Desviou o olhar para o amigo morto alguns passos à frente. Imaginou a sua namorada morta, atrás de si. Viu a sua morte ao longo de lentos e dolorosos minutos, viu o seu outro eu a morrer até perder os sentidos para a escuridão.

A polícia entrou momentos depois pela porta principal do armazém, alertada pelo alarme que disparara. Encontraram apenas Rui, com uma faca espetada no seu abdómen e uma poça de sangue à sua volta. A porta que acionara o alarme jazia aberta, do outro lado via-se não o mundo paralelo que Rui vira, mas apenas a rua com dois transeuntes curiosos a olhar para o aparato. No mesmo dia foi declarado o desaparecimento de Gonçalo e Lília, sem qualquer pista do seu paradeiro.

Imagem - A Faca

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