O disparo de uma arma laser perfurou as costas da capitã. O corpo caiu para a frente, com um buraco fumegante no uniforme. A agente piscou os olhos, enquanto os guardas se voltavam para tentar perceber donde viera o tiro. Estava ali a sua oportunidade. Precipitou-se para a arma que a outra ainda segurava, arrancando-lha da mão frouxa, e apontou-a aos soldados distraídos atrás de si, disparando vários tiros em sucessão.

Nas suas costas, ouviu mais disparos e gritos dos soldados que eram atingidos. Fosse quem fosse o atirador furtivo, estava a fazer um magnífico trabalho em salvar-lhe a pele. Por fim, sobraram somente os gemidos dos soldados caídos. A agente inspirou fundo e passou uma mão pela fronte, antes de levantar o olhar para o topo de um dos prédios meio intactos. Alguma coisa se movera lá em cima, desaparecendo no momento a seguir.

A agente apanhou outra das armas caídas e caminhou com cautela na direcção da entrada do edifício em questão. Espreitou lá para dentro. Ardia um pequeno fogo num dos cantos, mas, para além disso, havia somente sombras e escombros. Entrou com passos lentos, tentando não chamar a atenção sobre si, e com as pistolas prontas a disparar. Tinha uma inegável curiosidade em saber quem a salvara, no entanto todo o cuidado era pouco.

Ignorou os elevadores e começou a subir a escadaria que levava aos pisos de cima. No entanto, acabou por estacar no primeiro patamar, ao escutar passos leves que desciam na sua direcção. Aguardou durante segundos que lhe pareceram horas, controlando a respiração. O que viu surgir, ao fim desse tempo, arredondou-lhe os olhos. Era uma criança, um menino com não mais que dez anos. A arma que segurava parecia demasiado grande para ele. Porém, o mais assustador era o olhar encurralado na determinação que o movia. No seu rosto já não existiam lágrimas, só os trilhos que estas tinham deixado na pele encardida pelo fumo e pelo pó. O medo, o pânico, a dor e tudo mais fora posto num canto afastado da mente. O seu objectivo era só um, e ela partilhava-o.

*

A segunda Rainha Negra investira de forma impiedosa pelo tabuleiro. Abatera o Cavalo Branco, dando uma oportunidade de fuga à primeira Rainha e, juntas perseguiram as peças brancas. Pouco lhes faltava para alcançar o Rei, e as cinco peças que restavam ao xadrezista inimigo pouco podiam fazer para deter tamanho ataque. Quiçá a desistência fosse o mais simples, o mais suave para as emoções. Ergueu o olhar para a árvore, ponderando. Conseguia ver o céu através dos ramos. A maioria das folhas havia caído, mortas pelo consumo de energia que o jogo requeria. Precisava de mais sacrifícios.

No conjunto das suas jogadas seguintes, avançou com todas as peças que tinha. Atraiu as rainhas com o seu próprio Rei, numa estratégia arriscada. Elas avançaram e, quando o outro jogador estava demasiado distraído com o que viria no próximo lance, o xadrezista branco sorriu. Um dos seus últimos peões atingira o limite do lado inimigo, crescendo e transformando-se na sua nova Rainha, para, na sua jogada seguinte, outro peão tomar uma torre adversária, encurralando o Rei Negro num canto do tabuleiro, enquanto o Bispo Branco o mantinha sob uma mira diagonal. Qualquer que fosse o seu próximo passo, tombaria.

– Xeque – disse, com um sorriso leve.

O outro jogador suspirou, conformado. Deixou que uma das rainhas avançasse sobre o Bispo inimigo, desmaterializando-o da sua casa no tabuleiro. Na jogada seguinte, o Rei Negro foi tomado.

– Mate – completou o adversário, sorrindo.

*

Ao longe, a agente e a criança ouviram o grito inimigo de vitória. Eles julgavam ter tomado tudo, consideravam ter ganho a batalha. No entanto, ali estavam elas, ainda armadas, apesar do cansaço que lhes pesava no corpo e na alma. Não lhes passou pela cabeça fugir. A sua terra era ali, as suas memórias viviam ali. Aquele local, apesar de desolado, era delas, não dos invasores. Verificaram as baterias das armas, e programaram as várias granadas digitais que haviam encontrado para explodir daí a um quarto de hora. Avançaram de encontro ao local donde viera o grito, e, quinze minutos depois, os gritos já não foram de vitória.

*

As restantes peças brancas e negras fragmentaram-se em partículas e deslizaram pelo tabuleiro até às duas zonas laterais onde seriam armazenadas pela cor respectiva. O xadrezista vitorioso desacoplou os fios da árvore, antes de se erguer da cadeira e espreguiçar-se. Aos seus pés, surgira um tapete de folhas mortas que ao início do jogo não existia. Acima deles, os ramos do sobreiro estavam nus e decrépitos.

– Foi um bom jogo – disse para o companheiro, o qual concordou. Nem sempre se podia ganhar e não ficaria perturbado por isso. O prazer de algo tão simples como uma boa partida era o que bastava.

Por um momento, ambos olharam para os fogos que ardiam, abaixo deles. A cidade fora completamente dizimada. Apesar disso, havia ainda movimento: dois pontos, um maior que o outro, subiam a colina, com passos pesados, costas ligeiramente dobradas para a frente, ombros descaídos. Lembravam mortos que se arrastavam para fora do cemitério.

O xadrezista vencedor ergueu um pouco as sobrancelhas ao reconhecer a figura mais pequena.

– Filho! – chamou. No rosto mostrava um sorriso tranquilo, conformado. A preocupação era uma migalha ínfima no seu olhar.

A criança ergueu a cabeça e fitou-o. Por um momento, a expressão do pai despoletou-lhe uma raiva tremenda, uma dor horrível por todos os que tinham morrido e por todos os que havia morto, pela imagem da sua mãe, destroçada no chão do próprio lar. Um sofrimento que aquela expressão de indiferença acabara de acicatar. Ergueu a arma e disparou. Ao seu lado, repugnada com a falta de emoção demonstrada, a agente fez o mesmo com o outro jogador. E, até naquele último momento, eles sorriram.

No fundo, era o que ambos os xadrezistas desejavam. Melhor que o simples prazer de jogar uma partida de xadrez, só a paz de estar morto.

 

“…Ardiam casas, saqueadas eram

As arcas e as paredes,

Violadas, as mulheres eram postas

Contra os muros caídos,

Traspassadas de lanças, as crianças

Eram sangue nas ruas…

Mas onde estavam, perto da cidade,

E longe do seu ruído,

Os jogadores de xadrez jogavam

O jogo do xadrez…”

Prefiro Rosas, Meu Amor, à Pátria e outras Odes,

Ricardo Reis

Parte III

Anúncios