Um golpe de sorte fora o que o que aquele Peão tivera, porém não deixava de ser uma peça com pouco significado. Mal o Rei Negro tombasse, o seu reino de xadrez ruiria, e nem Peão, Bispo ou Rainha seria capaz de salvá-lo.

Avançou com a segunda Torre Branca, dirigindo a investida para o Alto Clero. Na jogada seguinte, o pequeno mas audaz Peão Negro avançou mais uma casa, dentro da zona inimiga do tabuleiro. Não tardou a alcançar a extremidade do campo de batalha. O jogador que o controlava sorriu.

– Serás Rainha – disse-lhe.

Sob a ordem, as partículas que formavam a peça começaram a deformar-se, tornando-a mais esguia e alta, até se transformar numa segunda senhora do jogo, pronta a atacar o inimigo em qualquer direcção. E fê-lo, na sua próxima jogada, sem dó nem piedade.

*

Mais à frente, na antiga praça principal da cidade, fora montada uma pequena base de lona onde os soldados se reuniam, entrando e saindo sozinhos ou em grupo. Outrora, brincara ali com os seus amigos, tal como os seus pais e avós tinham feito, há muitos anos.

Escondeu-se atrás dos escombros de uma casa que o exército fizera explodir. Alguns restos ainda ardiam e fumegavam, criando uma cortina de movimento que o disfarçava. Sentou-se de encontro a uma meia parede desmoronada e tirou do bolso a granada digital. Mordiscou o lábio inferior, enquanto rodava o explosivo nas mãos. Inspecionou o painel digital, que se acendeu ao toque leve da ponta de um dedo. O desbloqueio do aparelho parecia simples o que, se pensasse bem, não era de estranhar. Nem sempre um soldado teria tempo para pensar num código ou palavra-passe, e menos ainda era o tempo para se enganar a digitar uma. O mesmo soldado poderia já não ter dedos para um reconhecimento de impressão, e, a meio de uma batalha, um dano a nível da voz não seria difícil.

Marcou o tempo pretendido. Não precisava mais do que poucos segundos, somente o suficiente para a bomba tomar o seu rumo até o mais perto possível da tenda. O ecrã mostrou o número “cinco”. Confirmou o tempo e, mal o fez, as milésimas de segundo começaram a decrescer vertiginosamente. A criança ergueu-se do esconderijo, o braço inclinou-se para trás, ganhando balanço, e a granada foi arremessada, com a base inimiga como destino. O rapaz agachou-se e tapou a cabeça com os braços, aguardando.

O objecto caiu a dois metros da entrada, ressaltou e, a seguir, rebolou, até embater numa pedra. Nesse momento dois soldados abandonaram a tenda. Os olhos de um deles arregalaram-se, ao aperceber-se da presença do explosivo, talvez devido ao brilho mais chamativo do ecrã. Ainda abriu a boca para gritar um aviso, no entanto o som da explosão foi tudo o que se ouviu por longos segundos.

*

A segunda Rainha Negra tomou, nas suas jogadas consecutivas, cada uma das peças do adversário. O xadrezista atacado inspirou fundo. Ela era, sem dúvida, uma inimiga formidável. Observou as restantes peças, repensando na estratégia a seguir. Fez contas e estimativas, e preparou a armadilha. A sua Torre Branca avançou. Um peão inimigo fugiu-lhe do caminho. Sacrificou um dos poucos peões que lhe restavam e, de seguida, fez o Cavalo investir, cercando-a. A primeira Rainha Negra não tinha para onde fugir.

*

Por detrás da muralha improvisada, a mulher continuou a disparar. Alguns tiros eram certeiros e, por entre todo aquele caos, vê-los cair era a única satisfação que tinha. Voltou a premir o gatilho, mas nada aconteceu. Repetiu o movimento, e praguejou, enquanto inclinava o cano só para confirmar o inevitável: a arma ficara sem bateria.

Passou uma mão pela testa suada, afastando uma madeixa de cabelo, e inspirou fundo, preparando-se para o próximo passo.

– Um – contou para si, num sussurro –, dois… três!

Largou a arma e correu, tão depressa quanto as pernas suportavam. Vários tiros voaram em seu redor e um passou-lhe de raspão no braço. A dor da queimadura fê-la cerrar os dentes, porém não parou. Saltou por cima dos corpos caídos de civis que deveria ter protegido, e não conseguira. Aqueles sacanas que os invadiam não eram idiotas. A primeira acção que tomaram fora atacar de surpresa o posto da guarda da cidade, eliminando qualquer resistência armada que poderiam enfrentar. Sobrara ela, uma simples agente, que tirara o dia de folga para um momento de paz do qual pouco gozara.

Voltou numa esquina e estacou de súbito. Uma barreira de meia dúzia de soldados impedia-lhe a passagem, de armas apontadas. Esperavam-na. Atrás de si, os restantes perseguidores pouco tardaram a alcançá-la. Lançou um olhar rápido em volta, procurando uma saída, por mais esguia que fosse. Porém não havia nenhuma. Estava cercada.

– Parece que apanhámos a gazela – disse uma voz feminina.

De entre os soldados que a haviam perseguido, um deles tomou a dianteira, aproximando-se e parando a cerca de um metro. As insígnias que o uniforme apresentava eram em maior número e diferentes das dos outros. Era capitã, ou talvez general. Tocou num pequeno botão lateral do capacete, abrindo o visor e revelando um par de olhos azuis, frios, mas de alguma forma vitoriosos pela captura. Apesar de sem saída, a agente sorriu.

– Acho que sou mais uma chita perseguida por um bando de hienas sarnentas e cobardolas.

A provocação valeu-lhe o movimento de dedos nos gatilhos, com uma vontade inegável de a alvejarem. A superior ergueu a mão livre, refreando-os.

– Capitã… – começou um deles, mas a soldado cortou-lhe a palavra.

– A tua verborreia não nos afecta. Apesar disso, antes de te executar, queria congratular-te pela forma como, sozinha, combateste os meus homens. – Ergueu o punho fechado e atingiu-a no rosto com toda a força.

A agente recuou um passo, somente para não se desequilibrar, e tocou ao de leve na maçã do rosto. Abriu e fechou os maxilares, para perceber se estava tudo intacto e no sítio. Parecia estar. Aquilo não deixou de a divertir, fazendo-lhe o corpo estremecer numa gargalhada.

– Oh, que honra. Nunca um murro me deu tanto prazer, cabra. E tanto soldado para apanhar uma mera mulher provinciana… Honrem-se da vossa eficiência!

Num gesto súbito, a soldado desferiu um novo murro na direcção dela, contudo a agente desviou-se.

– Ups, alguém tirou mal as medidas – notou.

Porém, no instante seguinte, foi apanhada por um pontapé das botas pesadas que a atirou ao chão. Os olhos azuis que a fitavam, semicerrados, prometiam-lhe morte, quando a capitã lhe apontou a arma ao rosto. Mas nem com isso deixou de sorrir. Pelo menos morreria de cabeça erguida, desafiando-os.

– Parece que estiquei a corda do vosso orgulho, não foi? – Ergueu uma mão, apontou-lhe o indicador e ergueu o polegar, enquanto os restantes dedos se fechavam, formando uma pistola. Fechou um olho e fez mira ao carrasco. – BAAM!

*

O xadrezista das peças negras franziu as sobrancelhas e ponderou bem no próximo movimento. Contou as casas que separava aquela emboscada de todas as suas outras peças, principalmente as mais poderosas. A seguir, deu ordem de avanço para uma delas.

Parte II

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