– Peão de B7 para a casa B5.

A primeira peça ergueu-se sozinha da superfície plana. Pairava através do efeito electromagnético activado pela voz, um mecanismo programado no tabuleiro ao qual se ligavam dois fios que o alimentavam. Estes últimos, por sua vez, faziam a conexão entre o primeiro e um transformador acoplado à base do tronco do sobreiro sob o qual o jogo decorria. A copa frondosa envolvia-os na sua sombra, as folhas sussurravam uma música doce. A árvore dava-lhes tudo, enquanto os xadrezistas jogavam, indiferentes ao resto.

O Peão deslizou em direcção à linha inimiga. O seu corpo era branco, contrastando com o fumo que se erguia, ao longe, escondendo e estrangulando em si o azul do céu. Por detrás da primeira linha de sacrifícios, os grandes aguardavam a sua vez, régios, intocados. Em resposta à primeira jogada, foi dada ordem de avanço para um peão negro.

Reclinados sobre o tabuleiro de xadrez, os dois jogadores teciam a melhor estratégia para alcançar e tomar o rei do oponente. Cautelosa, uma nova peça branca avançou. À primeira oportunidade, um peão negro caiu por terra, e o seu corpo desfez-se em partículas que foram puxadas pela força do tabuleiro para um recipiente num dos cantos. Quando o jogo terminasse, os fragmentos reciclar-se-iam em novas peças.

Ao fundo da colina, perto o suficiente para serem ouvidos, mas não tão perto que fossem mais do que uma sombra passageira nos rostos dos jogadores, chegaram-lhes os gritos de pânico, terror, agonia.

*

– Não, por favor! – implorou, por entre o choro e o grito, o rogo transformando-se num guincho de aflição.

O soldado que a puxava pelos cabelos riu-se. Só o conseguia ouvir. O capacete cobria-lhe todo o rosto – uma máscara de anonimato para as atrocidades que todos eles cometiam. Arremessou-a contra uma parede, fazendo-lhe a cabeça chocalhar por dentro aquando o embate.

– Agarrem-na bem – ordenou, lançando um olhar a cada companheiro. A seguir, desapertou o cinto e baixou as calças.

Os colegas içaram-na pelos braços. O cabelo desgrenhado cobria-lhe parte do rosto, enquanto soluçava. Tentou soltar-se, o medo borbulhando-lhe no espírito como um veneno ácido.

– Vá, despacha-te que nós também queremos – disse um deles. Os seus dedos eram garras nos braços da mulher, demasiado fortes. Onde estaria o deus a quem rezava todas a noites? E o seu cavaleiro andante? Onde estariam os governantes do país pelo qual todos os dias trabalhava? Seriam todos eles peões descartáveis num jogo?

Gritou mais alto, o som ferindo ouvidos, rasgando corações. Um novo grito, mais fraco, e depois um gemido que nunca chegou a subir a colina ou a tocar outros espíritos.

*

Para os dois jogadores, tal som era como o sopro do vento: passageiro, efémero. Podia ser a esposa de um deles, mas isso pouco interessava. Era assim que devia ser. A morte, a dor… nada era mais importante que a simplicidade do prazer de ganhar um jogo insignificante, de deitar por terra uma peça.

Por cima deles, as folhas do sobreiro começaram a cair, uma a uma. A primeira linha inimiga tinha dispersado e uma parte dela fora totalmente devastada. Haviam passado minutos, horas, dias. Reclinados nas suas cadeiras, os jogadores davam tempo à estratégia. E o tempo era infinito. O céu enegrecera por completo, ameaçando-os com mais do que chuva. No ar pairava o fedor a morte, a corpos queimados, a horror.

O Cavalo Branco investiu contra uma das torres, derrubando-a. Logo a seguir, uma explosão abalou a colina, contudo os xadrezistas nem sequer se atreveram a erguer o olhar. Por um momento, a Rainha Negra ficou desprotegida. Uma casa, duas, três, e o Bispo interceptou a óbvia investida que o Cavalo faria de seguida, deitando-o por terra.

O jogador que controlava as peças brancas semicerrou os olhos. Uma nova folha de sobreiro caiu diante de si, tocando-lhe as mãos de dedos entrançados pousadas na mesa. Foi-lhe indiferente, tal como os guinchos vindos lá de baixo.

*

Um grupo de soldados corria a cidade, com uma missão a ser cumprida. Cada criança que vissem deveria ser sumariamente executada. Ofegantes, as pequenas escondiam-se nos recantos mais esquivos, nos buracos mais apertados. Ouviam as botas a passar, pesadas mas rápidas, marcando o compasso dos seus últimos segundos de vida. Por vezes o pânico denunciava-as, um soluço traía-as. Os soldados não perdiam tempo. Os raios das suas pistolas laser perfuravam qualquer zona do corpo que conseguissem encontrar. Os mais piedosos certificavam-se que a morte era rápida; os indiferentes apontavam e disparavam uma, duas, três vezes, as necessárias para matar e o trabalho ficar feito; os sádicos apontavam para os membros e, debaixo do capacete, sorriam, enquanto os pequenos corpos eram tomados pela agonia. Incitavam-nas a rastejar para fugir, só para voltar a disparar na outra perna. Pontapeavam, pisavam, até o corpo deixar de mexer. E davam-lhes mais um tiro, só por puro prazer.

*

No cimo da colina, que interessava aos jogadores que a criança torturada fosse filha de um deles? A sua vida não interferia nas jogadas, e na morte havia a paz de não mais viver. A tristeza, a alegria… nada disso, só uma tranquilidade eterna.

O Rei moveu-se de forma decidida e derrubou o Bispo Negro num golpe limpo. Um muito leve esgar de desagrado surgiu e depressa desapareceu do rosto do outro jogador. Deu uma nova ordem, e um peão que passara despercebido avançou uma casa na diagonal e tomou de imprevisto a Rainha Branca.

*

Na cidade, um menino avançava, sorrateiro. Os olhos ardiam-lhe de dor, de ânsia de vingança. Da cozinha da sua casa trouxera uma faca de lâmina comprida e larga. Em tempos, servira para os pais cortarem alimentos. No entanto, o pai saíra para jogar xadrez e não mais voltara, e a mãe fora violada à entrada da própria casa, enquanto ele se escondera atrás de um sofá, demasiado aterrorizado. Fora o que ela lhe dissera para fazer e o pequeno fora incapaz de desobedecer. Quando se atrevera a sair, encontrara-a de olhos escancarados e lábios semiabertos, as roupas manchadas de sangue, o mesmo que ensopava o soalho. No seu pequeno coração a raiva agigantara-se, tomando-o por completo.

Avançou por detrás das costas de um soldado que, por entre as explosões, os crepitares e as sirenes, fora incapaz de dar pela presença de algo tão pequeno. A criança ergueu a faca e, antes que o homem se apercebesse, cravou-lha nas costas, com um grito de impulso, até a lâmina desaparecer entre a carne. O pequeno recuou, quando o corpo tombou para a frente, deixando a arma lá espetada. Preparando-se para fugir, o olhar assustado saltou de um lado para o outro, esperando ver outro soldado prestes a atacá-lo. Porém, não havia mais ninguém ali. Os sons de gritos e disparos pareciam remotos, mesmo estando a uma rua de distância.

O rapaz inspirou fundo, ganhando coragem, e voltou a aproximar-se do corpo que gemia, estudando o cinto e o que havia preso nele. Retirou-lhe a segunda pistola laser e o que reconheceu como uma granada digital. Encontrava várias nos jogos virtuais, mas nunca pensara ver ou tocar numa na vida real. Analisou a arma, tentando perceber se também funcionava como as dos jogos. Removeu a patilha de segurança e apontou-a às costas do soldado caído. A mão tremeu. O rapaz cerrou os dentes e ergueu a outra mão, dando firmeza à primeira para premir o gatilho. O brilho súbito que saltou da extremidade sobressaltou-o, levando-o a vacilar e a quase deixá-la cair. Não obstante, o tiro fora certeiro, silenciando os gemidos vindos do interior do capacete.

Sem tirar os olhos do corpo, a criança recuou. Eles não eram invencíveis, mentalizou-se, não eram imortais. Eram como ele, mas crescidos. Como acabara de provar, podia derrotá-los.

Afastou-se, seguindo junto a uma das paredes, atento a qualquer outro movimento.

Parte I

Anúncios