Se puderes olhar, vê. Se puderes ver, repara.

Livro dos Conselhos

A mulher do médico levantou-se e foi à janela. Olhou para baixo, para a rua coberta de lixo, para as pessoas que gritavam e cantavam. Depois levantou a cabeça para o céu e viu-o todo branco, Chegou a minha vez, pensou. O medo súbito fê-la baixar os olhos. Ao invés da cidade só havia o branco.

Chegou a minha vez, murmurou ela, Estranho acontecer quando toda a gente está a recuperar a visão, respondeu o médico aproximando-se dela, Não te preocupes, vou cuidar de ti, Eu sei, Deixa-me observar-te, Não vale a pena, ambos sabemos muito bem o que tenho, Tens razão, Ajuda-me antes a ir até ao sofá. O médico ajudou-a a sentar-se no sofá onde ficou enquanto ele arrumava o que restava do pequeno-almoço, Sabes, disse ela, Acho que esta cegueira acabou por ser uma coisa boa para nós, Como assim, Apesar de tudo o que nos aconteceu, descobrimos o pior e o melhor que a humanidade tem, Mesmo assim, morreram muitas pessoas, Ela calou-se e acabou por se deitar. É verdade, mas os que ficaram aprenderam a viver, Tens razão, respondeu o marido depois de um bom bocado, Quanto tempo achas que vai durar, Não sei, nem sequer sei quanto tempo passámos naquele manicómio, umas semanas talvez, Seja o que deus quiser, Sim, seja o que deus quiser. O cão das lágrimas veio lamber-lhe as mãos, quem sabe num gesto de carinho ou porventura pelo cheiro a comida. Onde estou, perguntou o menino estrábico quando acordou, já sei onde estou, será que a minha mãe me virá buscar, Já devia ter vindo, mas se calhar algo a impediu ou ainda não sabe, respondeu o médico, Isto ainda está um caos e vai demorar a recuperar, acrescentou a mulher endireitando-se, Está cega, Pois estou, a minha vez também teria de chegar, É pena, agora que toda a gente começou a ver, Cada um com as suas sortes, Vais ver que não irá durar muito, rematou o médico.

À medida que o dia se ia aproximando do fim a celebração foi diminuindo, as pessoas começaram a ficar cansadas ou então consideraram mais importante pensar no futuro. Ver deixara de ser uma novidade. O sol ia descendo no horizonte quando a mulher voltou a ver, Já vejo, disse, levantando-se e indo até à janela contemplar o pôr-do-sol, que transformava os amarelos, em vermelhos e depois em azuis. Em breve tudo estaria escuro, polvilhado de pontos brancos.

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