Junto ao rio de águas calmas e de tonalidade vermelha, duas barcas, atracadas ao pequeno porto, esperam pelos seus passageiros. As duas não podiam contrastar mais uma com a outra, a da direita, pintada de cor pérola clara e adornada a ouro branco, a da esquerda, de madeira queimada e repleta de pequenos espigões que dela cresciam, prontos para rasgar a pele dos mais descuidados.

Na barca da direita, uma figura humanóide, vestida de branco, com longos cabelos loiros aguardava pacientemente. Atrás das costas recolhia as suas quatro asas de grande envergadura, repletas de uma plumagem de um branco imaculado.

Na barca da esquerda, uma criatura corcunda andava de um lado para o outro. A sua pele vermelha contrastava com os negros chifres que lhe cresciam na cabeça, fazendo lembrar os de um bode. O som dos cascos a embater contra a madeira quebrava o embalar da corrente do rio. Impaciente, palitava os afiados dentes amarelos com o espigão na ponta da cauda.

– À barca, à barca! A maré está boa e o tempo escasseia! – chamou a criatura.

Um homem, vestido de fato negro e gravata, transportando uma pequena pasta debaixo do braço, aproximou-se da barca.

 – Esta barca para onde vai? – perguntou o homem.

– Para onde o fogo arde para todo o sempre, a terra dos castigos eternos, o Inferno!

– Isso não é destino para quem tanto fez pelo povo como eu! – comentou o homem indignado.

– Pelo povo?! Hihihi! Não queres antes dizer pelos teus conhecidos e pelo teu bolso? Não são as fitas vermelhas que cortastes no final dos mandatos que te safam!

– Muito o povo me deve!

– Só se forem os bolsos mais vazios! Hihihi! Vá toca a embarcar que se faz tarde e o tempo não espera por nós!

– E esta outra barca, para onde vai? – perguntou o Político.

– Nessa outra barca não entras, tens os bolsos demasiado cheios e as mãos sujas!

Ignorando o Diabo, o homem afastou-se e caminhou para a barca da direita.

– Ó da barca, para onde vai?

– Que queres? – inquiriu o anjo.

– Saber se esta é a barca para o Paraíso.

– É sim.

– Então deixe-me embarcar. Fui deputado por muitos anos, e ministro outros tantos!

– Não embarca corrupção nesta barca divinal – respondeu o anjo.

– Corrupção?! Por quem me toma?! Sempre ajudei o povo e o país nos piores momentos!

– Ajudaste o teu bolso e os teus amigos, com cargos importantes. O povo, esse, na miséria estava e na miséria continuou. Aos que menos tinham mais tirastes, e aos que mais tinham mais deste. A tua caridade e ajuda vinham ao fim dos mandatos, para atirar areia aos olhos daqueles que não vêem a tua laia pelo que ela é!

– À barca, à barca! Já se faz tarde! – gritava o demónio do outro lado do porto.

Enraivecido, o Político virou costas e dirigiu-se novamente à barca do Inferno.

– É este o meu destino? – questionou.

– Não se preocupe, Sr. Ministro, os seus amigos estão à sua espera do outro lado! Grande festa que vai ser o momento do reencontro! Vá, toca a passar essa prancha que se faz tarde!

De cariz baixo, o homem entrou e sentou-se na barca.

***

Outro homem de fato aproximou-se da barca infernal. Porém, em vez de uma pasta, este carregava dois sacos cheios de dinheiro, com notas a ameaçar caírem a qualquer instante.

 – Para onde vai esta barca? – perguntou.

– Oh! Porque demoraste tanto, meu amigo banqueiro? – inquiriu o diabo.

– Quem me dera ter demorado mais! Mas lá chegou a minha hora…

– E para que são os sacos cheios de papel?

– Para o bom barqueiro, pois está claro!

– Então não percas mais tempo, meu bom amigo. Entra que se faz tarde!

– E para onde vai esta barca?

– Para a infernal comarca.

– Que raios! Nessa não vou eu embarcar! Gente do meu calibre vai para o Paraíso! A gentalha que vá para o Inferno!

Afastou-se da barca infernal e caminhou até ao outro lado do cais, para junto da barca branca e enfeitada a ouro.

– Ó da barca, vai partir?

– E tu, para onde queres ir? – perguntou o anjo.

– Para o Paraíso!

– Para lá eu não te levo!

– O quê? Mas sabe quem eu sou?!

– Esses sacos são demasiado grandes para esta barca. Em vida acumulaste muito e desprezaste os que tinham pouco. Viveste sobejamente sem partilhares o muito que tinhas – respondeu o anjo. – Procura a outra barca, lá irás encontrar passagem.

Com ar indignado, o Banqueiro dirigiu-se de novo para a barca infernal, carregando atrás de si os dois sacos cheios de notas.

– Ó da barca, posso entrar?

– Vem, vem, e não te demores! Não podemos perder esta maré! Hihihi! – comentou o diabo.

– Que triste destino o meu! – lamentou-se o Banqueiro.

– Vá para lá com essa choradeira. A partir de agora vais servir Satanás, que tanto te ajudou em vida!

***

Uma senhora de vestido escuro e de óculos avançou em direcção às barcas.

– Seja bem-vinda! Faça o favor de subir, estamos quase de lotação cheia – declarou o diabo.

– E esta barca, gentil senhor, para onde vai?

– Ora, para a terra da fornalha eterna.

– Para o Inferno? Todos estes meus anos a ensinar e educar, a passar conhecimentos para as gerações futuras e é esse o meu repouso eterno? Não, caro senhor. Vou ver esta outra barca, talvez lá tenha melhor destino.

A Professora aproximou-se da barca divina e foi de imediato recebida pelo anjo.

– Sê bem-vinda, filha. Estava à tua espera – declarou o anjo. – Quem se dedica com tamanha devoção às novas gerações, passando mais do que conhecimentos, mas valores para a vida, tem o seu lugar assegurado no Paraíso. Subi, partimos de imediato para a terra prometida!

Dito isto, a Professora subiu para a prancha e entrou na barca, que logo abandonou o pequeno cais.

A Barca

Anúncios