– Atenção! – comandou o sargento. – O inimigo aproxima-se. Todos já ouviram histórias sobre eles, sobre os seus feitos horríveis. Muito disso é verdade e é o que nos espera se falharmos. Contudo, fiquem sabendo que eles morrem como nós. Por baixo daquelas armaduras há carne como a nossa. Atinjam-nos e eles cairão. Falhem e um destino pior que a morte aguarda-vos-á.

A mulher de cabelo desgrenhado a seu lado começou a tremer. Viu lágrimas formarem-se no canto dos seus olhos. Quis confortá-la. Conteve-se. Não o poderia fazer. Teria de ser ela a recompor-se. À medida que o álcool lhe subia à cabeça, percebia que o medo se desvanecia.

O caldeirão fumegante foi erguido por uma grua até ao topo da torre. Os arqueiros colocavam as cordas nos arcos. O sargento dava as últimas ordens. Pedras foram passadas de mão em mão. O combate iria iniciar-se em breve. Apertou a lança com ambas as mãos. Conseguia ver com nitidez o inimigo. Eram incontáveis, mais que os habitantes do povoamento. As armaduras de metal reluziam à luz da lua. Vinham montados em bestas de quatro patas. Guido nunca vira nada assim.

O grupo pareceu deter-se a uma distância segura e assim permaneceu durante bastante tempo. Percebeu que estavam a observá-los. A agitação mostrava-lhe que não tinham apanhado a sua presa de surpresa.

Desmontaram. Parecia que preparavam algo. O inimigo fazia uma formação semelhante à que o sargento lhes ensinara. Tinham escudos. Uma corneta fez-se ouvir. Eles avançaram num passo apressado com os escudos erguidos. Voaram as primeiras flechas de cada lado. Guido reagiu com rapidez, escondendo-se por detrás da ameia. Era difícil ver se tinham acertado em alguém.

Quando estavam quase na base da muralha, percebeu que arrastavam várias escadas atrás de si. Os arqueiros tinham agora uma melhor pontaria. De ambos os lados, várias figuras caíram. As escadas foram erguidas. Vários atacantes foram atingidos nesse momento. Guido pegou numa das pedras, que teria cerca de dois quilos, e assim que um deles começou a subir as escadas, atirou-lha. A rocha atingiu-o na cabeça, fazendo com que esta explodisse em sangue, massa encefálica e ossos. O assaltante caiu como um boneco inanimado. O seguinte teve uma sorte semelhante.

Já havia vários atacantes caídos, quando as pedras terminaram. Guido reparou que não havia muitas flechas dos defensores a voarem. Por sua vez, os arqueiros atacantes disparavam continuamente. A maioria dos projécteis encontrava pedra ao invés de carne. Uma vez por outra, um deles não tinha tanta sorte. A armadura de pouco valia contra as setas.

Outro tentou subir a escada. Apesar do barulho da contenda, conseguia ouvi-lo bem. Ponderou se deveria arriscar-se a espreitar. Deu uma olhada. A armadura cobria-lhe quase o corpo todo. A imagem não se parecia nada com o povo bárbaro que lhe haviam descrito. Pareciam-lhe mais avançados até. Num ápice, enterrou a lança perto do pescoço. Demorou um pouco mais a libertar a arma do que calculara. Quando esta se soltou, sentiu uma dor lancinante no ombro. Ao voltar para a protecção da ameia, percebeu que uma flecha se havia enterrado a uns dez centímetros do pescoço. O braço direito parecia não lhe responder como gostaria.

Por esta altura, já outro inimigo deveria estar a subir a escada. Aventurou-se, reparando que ele estava muito mais próximo do que antecipara. O golpe da lança foi bloqueado. O oponente agarrou na lança e puxou, arrancando-lha das mãos. No instante seguinte, uma haste surgiu cravada no pescoço do invasor. Guido percebeu que deveria ter vindo da torre. O atacante agarrou-se à ferida, acabando por cair, arrastando um aliado que já subia atrás de si.

A visão turvou-se. Estava a ter dificuldade em respirar. O coração galopava e a humidade espalhava-se pelo torso. Forçou-se a manter-se protegido. Não podia abandonar o seu posto. Retirou o capacete: à falta de melhor, seria a sua arma.

Nesse momento, a água escaldante foi atirada sobre os que tentavam penetrar na muralha adjacente à torre. Houve gritos, seguidos de pancadas surdas. Pelo canto do olho, reparou que um inimigo acabava de chegar ao parapeito. Com um movimento rápido do braço são, atingiu-o na cabeça com o capacete. O oponente pareceu perder o equilíbrio. Hesitou. O atacante não, agarrando-o pelo braço e usando-o para se erguer. Guido tentou empurrá-lo para fora e acabou por ser impelido de volta. As costas embateram contra a protecção de madeira. Ouviu-se o rachar das traves. No instante seguinte, Guido caia desamparado. O embate com o solo fê-lo perder os sentidos.

***

Quando voltou a si, a primeira sensação proveio das dores. Tanto a perna, como o peito e o ombro lhe doíam como nunca nada tinha doído. O céu já clareava. Não se ouviam gritos, nem o embater de armas. Estava tudo estranhamente calmo e silencioso. Não se via vivalma na plataforma interior. Reparou que ainda se encontrava no local onde caíra.

– O Guido está vivo! – ouviu alguém exclamar.

Uma face familiar aproximou-se dele. Era Helena, uma rapariga mais nova que ele. Para além de um corte na testa, parecia estar bem. Tentou sorrir-lhe.

– O inimigo? – perguntou Guido, a custo.

– Não te preocupes, já se foi embora – confortou-o, devolvendo-lhe um sorriso triste.

Guido sentiu-se ensopado. Não conseguia virar o pescoço. A respiração estava a tornar-se cada vez mais difícil. Sentia a flecha ainda enterrada no ombro. Porque é que ninguém lha tentava retirar?

– Sede – queixou-se.

– Tragam água – pediu, sem se afastar dele.

Quando o líquido lhe chegou aos lábios, sorveu-o desesperado. Bebeu tudo e pediu mais. A sede não desaparecia. A língua parecia uma sola de sapato. Uma tosse surgiu do nada. Apercebeu-se que expectorava sangue. As dores de cada convulsão eram terríveis. Quando o ataque terminou, sentiu que lhe tinha sugado as últimas energias. Helena nunca o deixou.

O sol nascia. A luz dourada inundava o povoado. Recebeu-a com um sorriso nos lábios. Sabia o que o aguardava, mas não tinha medo. Podia não ter nascido ali, mas aquelas pessoas eram a sua família. Agora estavam em segurança.

O sorriso manteve-se mesmo depois de a vida ter abandonado o seu olhar.

parte2

Foto: Ana Filipa Piedade
https://www.facebook.com/anacrowphotography

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