Guido detestava as noites. Não só o frio lhe dificultava os movimentos, como tinha de ficar sozinho. Seria a sentinela responsável pela segurança do povoado. Era inevitável que os mais novos e sem família tivessem de preencher os turnos. A pior parte é que nem podia sequer acender um archote, nem tão pouco uma fogueira. Se fosse apanhado com uma, a punição seria severa. Compreendia a razão, uma fonte de luz próxima diminuir-lhe-ia a capacidade de ver no escuro. A única solução era colocar um casaco de pêlo de lebre.

A melhor maneira de não congelar era não parar de caminhar. A muralha permitia-lhe dar a volta ao recinto sem precisar de descer. O caminho era estreito e escorregava bastante nesta altura do ano. Não fosse o parapeito interior de madeira, teria caído várias vezes. Três metros não chegariam para o matar, mas, de certo, aleijariam bastante.

Não sabia do que guardava a pequena vila. Ouvira histórias, aliás, ouvira imensas histórias. A maioria contradizia-se. Só havia um ponto em comum: algures havia um grupo violento que atacava outros homens. Se eram ou não humanos, ninguém se entendia. Se comiam ou não carne humana não tinha certezas, mas não se admiraria se fosse esse o caso. Nunca os vira, nem a fortaleza fora atacada desde que ali chegara. Contudo, a ameaça imiscuía-se em todos os pormenores do quotidiano.

Os campos de cultivo estendiam-se à volta da barreira de pedra. A vista encontrava-se desimpedida num raio de vários quilómetros. A lua, em quarto crescente, permitia-lhe distinguir contornos difusos. Não estava tão nervoso como na sua primeira vigia, no entanto, nunca conseguia relaxar à noite. Tinha medo deles. E sabia não ser o único. A muralha fora construída depois do primeiro ataque. Nem mesmo a possibilidade de apanhar uma daquelas frequentes febres que matam em poucas horas o assustava tanto.

Antes de morar ali, vivia na floresta com os pais e os tios. O grupo de caçadores-recolectores era reduzido e auto-suficiente. Tinham vivido assim durante décadas depois do grande cataclismo. Não fosse o velho líder deste povoado tê-los avisado, teriam continuado assim até serem atacados. De qualquer maneira, os animais que caçavam começavam a rarear. As mudanças haviam sido muitas, mas a vida era mais fácil aqui. A comida era garantida e o abrigo também.

Algo se mexia lá ao fundo. Estacou, com o medo a prender-lhe os movimentos. Não conseguia distinguir o que era. Seria suficiente para soar o alarme? Bater na placa de metal sem razão era severamente punido. Que se danassem as consequências! Mais valia um açoite do que passar as próximas horas na incerteza. Agarrado ao parapeito, avançou até à torre o mais rápido que conseguiu. Tinha esperança de encontrar o sargento acordado, uma segunda opinião ajudaria bastante.

A torre estava vazia. Subiu a escadaria até ao topo. O vento gelado fustigou-lhe a pele. Pegou no bastão. Hesitou. A visão a partir dali era privilegiada, não fosse o frio, passaria os turnos ali. Olhou para as sombras. Aproximavam-se com rapidez. Bateu com força na enorme placa de bronze. O som ecoou pelo vale. Atingiu o metal de novo. E outra, com mais força. Um zumbido instalou-se nos ouvidos. Nunca tinha ouvido o barulho tão perto. Não acontecera nada. Parecia que a vila continuava adormecida. Bateu mais uma vez.

Quando a porta de uma das casas se abriu, apercebeu-se que o coração lhe batia a mil à hora. Os relatos sobre aquele povo sádico eriçavam-lhe os pêlos dos braços. Desceu a correr, dois degraus de cada vez, encontrando o ferreiro já na muralha, procurando pelos assaltantes. Não fazia ideia como é que um homem tão gordo conseguira chegar ali tão depressa. Guido mostrou-lhe a direcção correcta. Desceram os dois, acercando-se da sala de armas.

O sargento apareceu nesse momento. Era velho e filho do líder. Já tinha mais de trinta anos e o cabelo escasseava-lhe na fronte. Nunca o vira sorrir.

– O que se passa? – ribombou a voz dele.

– Vem algo aí. Nordeste – balbuciou Guido, estremecendo.

Ele pareceu satisfeito com a resposta, seguindo para as escadas mais próximas. O ferreiro destrancou a porta do depósito de armas e armaduras. Apesar de passar o dia todo a construí-las, não havia suficientes para todos, os primeiros a chegar seriam os primeiros a servirem-se. Os habitantes foram surgindo. Alguém teve a ideia de ir acordar os que ainda não se tinham apresentado. O som ensurdecedor fez-se ouvir de novo. Guido supôs que deveria ter sido o sargento a bater na placa desta vez.

Os momentos seguintes desenrolaram-se como num sonho. Escolheu um capacete de bronze e uma armadura de couro. Não sabia disparar com arco, por isso agarrou uma lança. Havia escudos, mas eram tão poucos que não quis um. Tomou o lugar na muralha. Mulheres e homens acima dos treze anos tinham os mesmos deveres: participar na defesa. Até as crianças ajudariam, carregando coisas de um lado para o outro. Apesar de estar tudo muito bem definindo, via o medo espelhado nos olhares. Uma fogueira foi acesa e um caldeirão de cerâmica colocado sobre ela. Uma ânfora foi passada entre os defensores. Pela primeira vez, Guido provou o forte licor, que lhe queimou a garganta. O sabor frutado quase não se sentia. Tossiu, tentando disfarçar o embaraço antes de passar o jarro. As lágrimas vieram-lhe aos olhos.

A maioria da vila já estava acordada. Quanto faltaria até o amanhecer? Perdera a noção do tempo. Decidiu que ainda faltaria muito. Será que voltaria a ver o nascer do Sol?

parte1

Foto: Ana Filipa Piedade
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