Dia 25, manhã

Ontem dei por mim a cismar por que é que tenho de comer. Ainda percebo se tiver que me ligar a um carregador durante a noite, afinal devo gastar imensas baterias.

Dia 25, noite

Que idiota! O cérebro continua a precisar de alimento orgânico. Por isso é que como e respiro. Engraçado, seria de esperar que não precisasse de tantos nutrientes.

Talvez os processadores biónicos sejam pouco eficientes. Mas que produzem fezes e urina bem reais, produzem – que nojo! Podiam perfeitamente ter arranjado outra maneira de processar os restos. Mas bem sei, tudo para que o corpo seja o mais fiel possível ao original. Suponho que posso deixar de parte a ideia de ter super-poderes – ficar mais forte, mais rápido ou à prova de bala. Que pena…

Dia 29, tarde

Outra coisa que funciona como o artigo genuíno, ou quase – as minhas “partes malandras”. Ou devo dizer, o “uso malandro das partes”? Ainda bem que eu e a Clara tínhamos o quarto só para nós e hoje os turnos de enfermagem estavam muito espaçados. Ainda assim, a sensação era esquisita e demorei muito tempo a ficar excitado e não consegui terminar.

Apesar de tudo, estou espantado. Um verdadeiro milagre da engenharia. Já tinha ouvido falar de sexbots, e conheço malta que experimentou, embora digam que é estranho. Mas isto, isto é outro campeonato!

Dia 32, manhã

Estou perturbado. Tive pesadelos toda a noite, com uma explosão nuns cilindros. Acho que são as memórias a voltar.

Outra coisa: porque é que tenho dores em várias partes do corpo, um pouco mesmo por todo o lado? Não era suposto o meu corpo novo estar impecável?

Dia 32, noite

As dores estão a aumentar. E mais, hoje tropecei e bati com a canela na perna de uma cadeira. Fiquei pisado. Sim – pisado! E com mais dores na canela, claro.

Tenho de falar disto com os médicos.

Dia 33, manhã

Estive a ter uma longa conversa com o médico que dirige a equipa de reabilitação. Ainda não consigo acreditar. Andei enganado todo este tempo. A protetização total não foi do meu corpo… Foi do meu sistema nervoso.

Agora já sei o que se passou. Eu estava a trabalhar na refinaria de gás soleum, o mesmo que serve de combustível nos nossos cruzadores espaciais, quando um dos silos teve uma fuga e houve uma explosão e derrame. A explosão deixou-me um bocado ferido e inconsciente, mas a exposição ao gás foi o pior… Atacou-me o sistema nervoso, fazendo algo que os médicos chamam “desmielinização progressiva”, e tiveram que implantar um sistema nervoso positrónico no meu corpo, uma coisa topo de gama, meio experimental, que aparentemente foi um sucesso. Tudo pago pelo seguro, óbvio.

Quando me começaram a explicar como fizeram os engramas da minha mente – um backup, no fundo – para o sistema nervoso novo, enquanto o original ia à vida, confesso que já não estava a ouvir.

É que com esta história toda, percebi que tudo o que eu sou, os meus pensamentos, memórias, vontade, medos, desejos, não passam de uma espécie de programa de computador.

Isto virou o meu mundo ao contrário.

E agora, o que se segue?

Dia 33, tarde

Tudo o que eu sou, e fui… Passado de um cérebro vivo para esta… coisa. Conseguiram copiar a minha mente como se fosse software. E a minha alma?

E quando eu morrer? Terão a decência de me deixar ir, ou agora é só copiar-me para outro cérebro, outro computador? Ou talvez me deixem num disco de arquivo algures.

Viver às custas de me tornar um monstro? Não quero!

Dia 33, noite

Não devia ter feito isto. Dar um murro no espelho não foi boa ideia, a mão dói como o caraças. Sete anos de azar, não é o que dizem? Mas o meu azar já começou antes.

Olho para a mão cortada, e para os cacos do espelho, e fico a pensar…

Se eu cortar o meu antebraço e me esvair em sangue, será que morro?

Será que o computador que eu sou agora se limita a desactivar, a desligar até poder ser metido noutro corpo?

Acordarei noutra máquina, cada vez mais distante da pessoa que sou – que fui?

Ou irei cair num doce esquecimento?

Só há uma maneira de descobrir. Será que ouso?

Protetização total 2-2

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