Dia ??

Tento abrir os olhos, mas não consigo. Tento falar, e nada. Tento mexer-me e o resultado é o mesmo. Nada no meu corpo responde.

Pior, nem consigo ouvir seja o que for. Silêncio absoluto, trevas absolutas. Nem as batidas do meu coração consigo sentir.

Será que estou morto?

Não, não devo estar. Se não, não estava a pensar isto. Ou estaria?

Pensar… até pensar me custa.

O que se passa comigo?

Dia ??

Finalmente, algum som. Ouço ruídos, mas são indistintos. Rapidamente passam a zumbidos. Sinto alguma luminosidade, muito ténue, mas nem percebo se tenho os olhos abertos ou não.

O meu corpo não responde. Não sinto nada, nem sequer dor. Quase que queria senti-la, só para ter a certeza que estou vivo…

Dia ??

Onde estarei eu, afinal?

Porque estou assim?

O que me aconteceu?

De repente, apercebo-me que não tenho a certeza de quem sou. Tento pensar no meu nome, mas nada me surge. Tento recordar qualquer coisa… qualquer memória me serviria. Só para perceber. Mas custa tanto…

Dia ??

Não sei quanto tempo passou, mas agora consigo ver algumas luzes e ouvir sons mais distintos… Já não tenho os zumbidos constantes. E mais, parece-me que consigo contrair um pouco os músculos do meu braço esquerdo, apesar de não o conseguir efectivamente mover. Está completamente dormente, como se tivesse estado a dormir com ele trilhado.

Apercebo-me de palavras. Alguém está a conversar perto de mim. Esforço-me para compreender. Só consigo apanhar termos soltos, como “acidente”, “grave”, “próteses”.

Acidente? É isso? Tive um acidente? Próteses?

Se estou ferido, porque não sinto dor?

Dia ??

Finalmente consigo ver. Estou num quarto branco, isto deve ser um hospital. Uma figura… uma mulher passa a maior parte do dia ao meu lado. Será parente? A minha esposa? Irmã? Filha? Uma amiga? Porque é que não me lembro? Ela fala comigo mas só ouço palavras soltas: “ficar bem”; “operação grande”; “prognóstico reservado”…

Dia ??

Finalmente consigo mexer as mãos. Mas não as sinto, ou melhor, só sinto formigueiros. Deve ter algo a ver com as tais próteses.

Dia 15, manhã?

Um sujeito de bata, um médico, penso eu, passou um bocado de tempo a falar comigo. Aparentemente sou o “senhor Henriques”. O nome não me diz nada. A mulher, cujo nome não consegui apreender, é a minha esposa. E recebi, há duas semanas, uma “protetização completa” de qualquer coisa. Deve ter sido do meu corpo, está tão esquisito.

Também falou em “reabilitação”. Óptimo! Deve ser o que me está a fazer falta neste momento.

Dia 16, tarde

Já consigo ver razoavelmente bem, embora a luz e os movimentos rápidos me confundam. Também distingo a maior parte dos sons, mas se entrar em algum sítio com muita gente e muito ruído, fico completamente confuso. Felizmente, aqui no hospital, não há muitos sítios com essa característica.

Hoje dei uns passinhos, mas fiquei a sentir-me sem capacidade para mais, ao fim de uns momentos. Não deviam ter eliminado esses problemas no corpo cibernético?

Dia 17, manhã

Ontem estava a queixar-me do “cansaço” do meu corpo cibernético. Hoje aproveitei as horas mortas para procurar material sobre isso na interweb. Pelos vistos, o “cansaço” é sinal de que a prótese é boa: simula as sensações e problemas de um corpo real. Fascinante, conseguem simular ciberneticamente, em componentes sintéticos, funções orgânicas, com um grau tal de perfeição que dificilmente se distinguem de material biológico verdadeiro. Tudo para que o cérebro não “estranhe” as “peças novas”.

Foi o que aprendi, os artigos que li prolongavam-se em detalhes técnicos, mas não me sinto capaz de ler tal coisa, é demasiado complicado e não tenho paciência.

Dia 20, manhã

Devo reconhecer que fizeram um trabalho de primeira com o meu corpo novo. Excepto por um conjunto de suturas no local por onde terão introduzido o meu cérebro no corpo novo, é igualzinho ao meu corpo original. Cara e tudo. Até se deram ao trabalho de reproduzir as cicatrizes antigas, bem como os sinais e o meu dente canino torto. O que não deixa de ser espantoso, como o conseguiram produzir tão rapidamente; era de esperar que levasse o seu tempo.

Mas também não sei quanto tempo estive em coma antes da protetização, a verdade é essa. Aliás, o meu cérebro parece estar a levar muito tempo a recuperar. Queria lembrar-me do dito acidente. Já estive para perguntar várias vezes aos médicos, mas algo me impede.

De que é que tenho medo, afinal?

Dia 23, fim da tarde

Mais um dia passado na fisioterapia. A Clara – é o nome da minha esposa – acha que estou a recuperar a forma lindamente.

Abstenho-me de lhe fazer notar que é difícil “recuperar a forma” quando se trata de um corpo artificial, não quero refrear o seu entusiasmo. Mas a verdade é que o uso dele está a tornar-se mais fácil, acho que o meu cérebro está a habituar-se ao corpo novo muito bem. Deve ser das semelhanças com o corpo original. Realmente, acho que se justifica o nível de detalhe com que eles o reproduziram.

Só queria conseguir recordar-me do acidente.

Protetização total 1-2

Anúncios