Não foi difícil atrair as atenções, e provavelmente só os asuras consumidos pelo álcool das bebidas é que ficaram alheios à nova presença. O cálice de Raktabija parou a meio caminho da boca, os lábios entreabrindo-se numa questão muda.

– Belo cantinho arranjaram aqui – notou Kali, com um aceno de aprovação, olhando em volta enquanto se certificava que a única saída era aquela por onde acabara de entrar. – Muito melhor do que aquela gaiola fria. Tenho de chamar o Shiva, para se juntar à festa… e o Yama também deverá aparecer, mais cedo ou mais tarde.

O demónio estremeceu com a menção do deus dos mortos hindu e, com um brilho de medo nos orbes, ergueu-se do trono.

– Ataquem-na!

Kali suspirou. Aquilo não seria sequer um desafio. As únicas pessoas armadas eram dois traidores, que mantiveram as espadas embainhadas após a ordem. A deva voltou-lhes as costas e ergueu a mão diante de si, de palma dirigida para o exterior da sala. Recitou um feitiço rápido e cortante, e um brilho diamantino cobriu a entrada do salão, antes de se dissipar, como se nada tivesse ocorrido. Descaiu a mão e rodou sobre si, atacando os asuras mais próximos, acabados de sair da água, nus. Decapitou o primeiro num movimento rápido, e rodou sobre si, atacando o segundo. Golpeou-lhe o braço, levando-o a cair para dentro de água com o impulso, lançando salpicos em todas as direcções. Kali saltou lá para dentro, cravando-lhe a cimitarra no peito, antes sequer de ele ter tempo de pensar erguer-se.

Eram breves os minutos que tinha, antes do sangue derramado começar a formar novos seres que a pudessem atacar. Precisava de os aproveitar bem.

Enquanto a deva se debruçava sobre uma nova vítima, uma parte dos asuras dirigiram-se para a única saída à vista, numa corrida desenfreada. Os primeiros chocaram contra uma parede invisível, caindo para trás, agarrados ao rosto. A segunda vaga de fugitivos parou e tocou com as mãos na barreira que os olhos não viam, compreendendo, em desespero, que estavam encurralados e seriam chacinados. Qualquer asura poderia entrar através do escudo, mas nenhum sairia. Já os matara a todos uma vez, há muito tempo, quando eram um verdadeiro exército, armado para conquistar. Agora não havia exército nem armas, só um grupo desprevenido e desorientado.

Kali matou um a um – os que fugiam, os que se escondiam, os que loucamente a tentavam atacar, os que pediam piedade e os que, impávidos, esperavam a morte. Acabara de cortar o pescoço a uma mulher que, de joelhos, lhe pedia clemência, quando ouviu uma lâmina rasgar o ar, nas suas costas. Não se afastou totalmente a tempo. Uma dor profunda num dos braços esquerdos arrancou-lhe um gemido, e o membro superior foi cortado rente ao ombro, caindo no chão, a seus pés. Rodou sobre si e bloqueou um novo golpe, que lhe seria dirigido ao pescoço, e encarou o líder do grupo de asuras. Os olhos dele brilhavam de fúria e a boca, de lábios arreganhados, quase espumava.

– A quem é que roubaste a espada? – Olhou por cima do ombro daquele Raktabija, apercebendo-se que, de pé, restava somente um dos guardas, ele próprio cortando os irmãos que tentavam deitá-lo por terra. Nada mais fazia que defender-se. – Era previsível.

– Não és melhor que nós! – rosnou-lhe, afastando a espada para a voltar a atacar. Kali defendeu-se, as lâminas entrechocando-se em aviso, e recuou um passo. – Uma assassina, com sede de sangue, que mata sem olhar a quem.

A deva só não revirou os olhos porque atentava aos movimentos do demónio. Rodou sobre si, os antebraços da saia oscilando, como se vivos, e contra-atacou num movimento baixo, fazendo a cimitarra abrir-lhe dois golpes horizontais nas coxas. O berro de dor dele ecoou-lhe nos ouvidos. Raktabija vacilou e, nesse pequeno instante, num movimento de cima para baixo, Kali retribuiu o golpe que o asura lhe dera pelas costas, decepando-lhe a mão que empunhava a espada. Ignorou o novo grito de dor e raiva.

– Quando te atreveste a desafiar-me, já devias saber o resultado. Todos vós deviam. – Desviou o olhar para os corpos caídos num banho de sangue. Não havia qualquer prazer a tirar daquilo.

Um estampido ribombou no salão, por cima dos gemidos dos feridos. Uma dor pontual perfurou-lhe o peito, até alcançar o coração. A deusa baixou o olhar, vendo um pequeno buraco na pele, donde escorria um fio vermelho-escuro. Fitou o demónio.

– Uma arma humana é incapaz de me matar – notou, observando o revólver que ele lhe apontava com a única mão que lhe restava. Tirara-o do interior da túnica, provavelmente, num acto de desespero.

– Talvez… ou talvez não – murmurou. – Tentei fazê-lo como nos Tempos Ancestrais, mas não resultou. Esses tempos já não existem. Estamos na era moderna, com truques mais inventivos, Kali.

A deva franziu as sobrancelhas. Com tanta conversa, já o tinha decapitado para o calar. Ergueu a cimitarra para executar a ideia.

Elo formado. – As palavras em sânscrito védico tilintaram como um sino na sua mente. No momento a seguir, uma dor excruciante rompeu-lhe do peito. A espada caiu, quando levou as três mãos à zona onde a bala penetrara.

– Seu… – Foi incapaz de terminar a ofensa. A dor tornou-se mais intensa, enraizando-se-lhe no peito para a seguir se propagar.

E ele continuou com o rito:

Implanta-te no cerne e cresce,

Consome o que há a consumir,

Permite-te a ser Futuro,

E com a sua vida florir.

As pernas da deva vacilaram e ela caiu, agarrada a si mesma. As lágrimas escorreram-lhe pelo rosto, primeiro límpidas, depois cor de sangue, quando mil estiletes invisíveis lhe perfuravam a carne.

Absorve então a dor,

A seiva de espírito carmim,

Toma-a para ti e que o teu começo,

Seja agora o seu fim.

As paredes estremeceram com o grito de Kali. A sua vontade era arrancar pele e carne com as próprias mãos, acabar com a dor lancinante que a trespassava. Os próprios pulmões desfaziam-se dentro de si. Tentou que o espírito se libertasse do invólucro físico, porém este ancorava-se ao coração, fixo pelo projéctil amaldiçoado. A deva contorceu-se no chão, com o sangue a sair-lhe da boca em golfadas descontroladas, numa mistura do seu com o dos asuras.

Elo finaliz

De súbito, as dores decaíram. Por um momento, pensou que estivesse morta, que o espírito se tivesse libertado do corpo. No entanto, o peso dos membros desenganou-a, tal como o sabor férreo a sangue que lhe enchia a boca. Abriu os olhos, vendo tudo num baço avermelhado. Passou uma mão pelos olhos, esfregando-os até a visão se tornar mais nítida. Ainda foi a tempo de ver o corpo do asura cair diante de si, sem cabeça. De pé, atrás do local onde estivera aquele fragmento de Raktabija, estavam a ratazana amedrontada, pendurada no sári da asura fêmea que a ajudara a sair da gaiola. A mulher empunhava a espada caída do demónio, com ambas as mãos, para evitar que a arma tremesse ainda mais. A pequena serva de Karni Mata provavelmente chamara a demónio quando vira a deva em sérios apuros. Ambas a tinham salvado, uma segunda vez. Inspirou fundo com dificuldade e tossiu, lançando restos de sangue no chão. O corpo apressava-se no processo de cicatrização, as dores diluindo-se num alívio que nunca antes imaginara vir a sentir.

– Ele matou-o, não matou?

Kali fitou-a por segundos, gastando mais energia do que o normal a processar a questão.

– Penso que sim. Lamento. – A sinceridade da última palavra até a si mesma espantou.

A jovem inspirou fundo e os olhos inundaram-se em lágrimas, largando por fim a espada. O embate do metal no chão ecoou sobre os gemidos e os lamentos. Fez um aceno mudo de compreensão, as palavras fugindo para parte incerta, e afastou-se, procurando o dono legítimo da arma.

A deva ergueu-se com cuidado e rodou a cabeça. Um ou outro Raktabija ainda vivia, para além do segundo espadachim, porém o desespero havia-os já tomado por completo. Caminhou até eles, deixando pegadas rubras de pés descalços atrás de si. Matou-os de modo rápido para, a seguir, consumi-los. Um fio de sangue brotou de cada um dos corpos ou pedaços caídos, formando uma miríade de finas linhas de sangue que convergiam, como imensos afluentes do sagrado Ganges, em direcção à boca de Kali. Um a um, o caudal dos fios diminuiu até secar. Certificou-se que, desta vez, não sobrava uma só gota caída.

Inspirou fundo ao terminar. O único som que pairava no ar provinha dos soluços da jovem asura que, por fim, acabara por encontrar o corpo do dono da espada. Kali observou-a por um momento, agarrada a ele no seu pranto de dor. Os punhos da deva cerraram-se com força, antes de tomar uma decisão.

Quando a asura deu pela aproximação da deusa, apertou ainda mais o corpo drenado contra o seu, como se o quisesse proteger do perigo latente que Kali representava. O rosto do morto, encarquilhado pela falta do fluído que o irrigara, estava repleto das lágrimas que por ele eram vertidas. A deva acocorou-se junto dela e esticou uma das mãos, tocando-lhe na fronte.

– Ele irá regressar. – E, apesar de o pronunciar num murmúrio, não havia dúvidas nas suas palavras. Era a promessa de uma deusa. – Terás a minha bênção, jovem.

A rapariga fixou-a de olhos arregalados. Os lábios entreabriram-se, contudo permaneceu muda. Kali acabou por se erguer e voltar-lhe as costas, dirigindo-se para a saída da sala. Shiva esperava-a, encostado à parede, do lado de fora, com um leve sorriso nos lábios e com ar de quem a estava a observar há algum tempo.

– Então, Kali, a Terrível…

– Cala-te – ordenou, num tom cortante, ao passar por ele. – Fizeste de propósito ao não me ires ajudar. Vais pagar-mas. Vou dançar em cima de ti até ficares tão espalmado que…

Shiva sorriu um pouco mais, sem negar a acusação e não fazendo caso das ameaças. Não era o tipo de ajuda que ele podia dar que Kali necessitara. Era a ajuda daquela rapariga que a deva acabara de abençoar, assim como a dos dois asuras que se tinham recusado a enfrentá-la e dos quais só um sobrevivera. Apesar das intempéries que a deva causava à sua passagem, não só a sua fúria era um bem necessário ao equilíbrio. O reconhecimento e a percepção da diferença entre aqueles que a rodeavam era um largo passo em direcção à harmonia do Todo.

*

Da bênção divina que marcou essa noite repleta de sangue, surgiu um novo culto dedicado ao lado benevolente da deva, que passou a ser venerada como uma deusa-mãe, uma faceta que a própria acabara de descobrir dentro de si.

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