Aquela mulher era uma das descendentes de Raktabija, um dos frutos que nascera da semente de sangue, igual em força, mas diferente em aspecto. Isso Kali conseguia perceber, só não entendia o porquê de ela estar ali, com a ratazana e com aquela conversa.

– O que queres? – A deva atirou-lhe as palavras. – Fazer pouco de nós?

– Vim ajudar a… libertar-vos. – Sussurrou a última palavra, como se as paredes tivessem ouvidos.

– E como pensas fazer isso, asura? – perguntou Shiva, num tom mais ponderado do que a sua explosiva esposa. – E em troca de quê? Tens noção que Kali veio aqui para vos matar.

– Compreendo e aceito-o. Por todo o mal que o meu sangue já causou – disse a mulher, firme nas palavras. – Nem todos temos intentos malignos. O sangue só nos transmite a força, não a personalidade do primeiro Raktabija.

– Então trairás o teu sangue? A tua família? – O deus ergueu as sobrancelhas.

A jovem engoliu em seco e inspirou fundo, antes de responder. Havia traços na sua expressão que transmitiam pensamentos que não exprimia por palavras. Pensamentos ao qual um par de passos, vindo do corredor, deu forma.

– Mãe, o ratinho? – perguntou uma voz fina, infantil. Uma coisa pequena surgiu de entre a escuridão, indo agarrar-se à roupa da mulher, e fazendo-a tremer ainda mais. Uma lágrima escapou-se, escorrendo pelo rosto e acabando por pingar para o chão. – Mãe? O que foi?

Os olhos grandes e escuros do rapazinho que acabara de surgir dirigiram-se curiosos para os dois deuses engaiolados, qual aves raras.

– Esta é a decisão da minha família – disse a mulher, pousando a mão livre na cabeça do filho. – Só peço que o fim que lhes possa dar, senhora, seja gentil.

Kali não respondeu, fitando a criança que, na sua inocência, não compreendia como a morte pairava tão perto de si.

– Liberta-nos, por favor – pediu Shiva.

A mulher fez um leve aceno, antes de dirigir a atenção para o animal que amparava. Murmurou-lhe qualquer coisa, sorrindo-lhe com uma gentileza que só um crente do templo de Karni Mata teria, e afagou-lhe o peito. A ratazana soltou um leve guincho, e roçou a cabeça nas vestes da asura, numa afectividade peculiar. Por fim, foi pousada no chão e dirigiu-se para a gaiola, a qual começou a trepar com a agilidade de um roedor, sem falhar nenhum passo com as patas pequenas, em direcção ao amuleto de aprisionamento.

Shiva seguiu-lhe os movimentos, sorrindo para si. No entanto, a atenção de Kali continuava na mãe e no filho, a pouco mais de três metros de distância, a mão crispando-se no punho da cimitarra. Ao alcançar o amuleto, a ratazana pegou-lhe com as patas dianteiras e roeu-o até quebrar o feitiço embutido. Ambos sentiram o poder desvanecer-se em redor e, com isso, o dourado da gaiola esvaiu-se e o metal oxidou, deteriorando-se de um instante para o outro. Liberta, Kali avançou pela saída em arco.

A mulher agarrou-se melhor à criança e fechou os olhos, quando a deva se aproximou, passou por eles e continuou na direcção do corredor, sem uma palavra.

Shiva seguiu-a, mas deteve-se por um momento ao lado da asura.

– Ela queria dizer “obrigada” – murmurou, antes de seguir no encalço da esposa.

Atrás de si, as pernas da mulher cederam, levando-a a cair de joelhos sobre a pedra. Soltou um soluço e chorou, agarrada ao filho.

Kali seguiu pelo corredor, até atingir uma bifurcação. A cada avanço, o aspecto humano abandonava-a, para dar lugar a semi-nudez selvagem, aos quatro braços, à saia de antebraços, ao colar de cabeças cortadas, ambos os adereços provenientes de asuras que matara no passado. Fechou os três olhos e escutou o que a aguardava de um e do outro lado. De ambos chegava-lhe o som de respirações, umas leves e constantes, de quem repousava, outras ofegantes, acompanhadas de gemidos e risos de alegria embriagados.

– De um lado é o quarto das crianças – comentou Shiva, alcançando-a num instante. A ratazana seguira-o e contara-lhe os pormenores. – No outro fica a zona do altar dedicado ao Raktabija. Tudo isto é um templo subterrâneo que foi sendo construído desde a sua derrota às tuas mãos. É uma espécie de labirinto onde se têm escondido.

– Cuida das crianças. – Tomou a direcção contrária do corredor, sem esperar resposta. – Eu já volto.

Shiva e a ratazana entreolharam-se e o deva deu-lhe uma ordem muda, à qual o animal se apressou a obedecer, seguindo no encalço de Kali.

A deva parou antes do término do corredor, encoberta pelas sombras. Diante de si, abria-se um salão amplo, bem iluminado. A frieza da pedra das paredes havia sido forrada com tecidos em tons de dourado e vermelho vivo. Estatuetas ricas, tapeçarias intrincadas, amplos almofadões e tapetes espalhavam-se pelo chão, enquanto candeias que pendiam do tecto e velas em castiçais iluminavam todo o espaço. No centro estendia-se uma fonte estreita, cujas águas libertavam um bafo de vapor. No seu interior relaxavam vários asuras, nus, uns conversando entre si, outros dormitando, e outros dando aso aos seus desejos sexuais com as suas irmãs de sangue.

Kali deixou que a sua pele, como a de um camaleão, se camuflasse melhor com o espaço em redor. Deu mais um passo, preparada para matar o primeiro que a visse.

Do lado esquerdo do salão, sentado num trono alto de puro ouro, estava o Raktabija que se tornara o cabecilha daquela trupe de criminosos. Observava os irmãos de sangue, com um sorriso de plena satisfação e vitória, enquanto bebericava de um cálice incrustado a rubis. De pé, de cada um dos seus lados, armados como guardas, estavam os dois homens que vira aquando o seu aprisionamento. Um deles olhava discretamente na sua direcção, vendo-a através da sua camuflagem, por saber o que procurava. Já o deveria estar a fazer há alguns segundos. Fitaram-se por um momento, antes de ele desviar os olhos para a carpete a seus pés. O outro guarda, apercebendo-se do movimento do irmão, fitou-a também, e ergueu as sobrancelhas. Kali preparou-se para atacar, porém o demónio desviou a atenção, sem a denunciar.

Quantos traidores haveria e quantos seriam fiéis ao irmão que os comandava? A lâmina da cimitarra seria incapaz de os distinguir, esquartejaria qualquer um. Um leve sorriso irónico ergueu-lhe um dos cantos dos lábios. Seria aquilo o vacilar da sua vontade férrea de os eliminar a todos? Kali, a Terrível, punha em dúvida o seu próprio intento? Suspirou baixinho e pôs essas incertezas a um canto da mente. Sem um sinal claro, não haveria como os distinguir.

Ao escutar um guincho baixo junto aos seus pés, a deusa baixou o olhar e fitou a ratazana que a seguira. Aquele animal estava morto de medo, ainda assim, aguardava os seus próximos passos, expectante.

Kali não o desiludiu e entrou então no salão, com um andar felino.

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