As crianças aninhadas no chão soltaram gritos de terror e só não se encolheram mais porque não conseguiam.

– Desapareçam daqui! – gritou-lhes a deva, depois de desembainhar a lâmina de ambos os corpos que tombaram diante das pequenas. Elas fitaram-na, petrificadas de horror. – Já!

O segundo grito quebrou a paralisia e fê-las correrem, desaparecendo pela porta escancarada. Tirando os cadáveres espalhados pelo chão, os restantes humanos tinham já desaparecido. E o último asura esfumara-se simplesmente. Suspirou e mirou a criança que acabara de trespassar. Estendeu-lhe a mão.

– Vá lá, vá lá, estamos sozinhos, não é preciso mais teatro, Shiva – disse-lhe.

O rapazito soltou um gemido e fez uma careta, antes de aceitar o apoio, sentando-se e passando a mão pela barriga.

– Aquela porra doeu, Kali… era preciso trespassar-me? – perguntou, encarando-a, meio ultrajado.

– Sou Kali, a Terrível. Tenho que manter a reputação – notou, largando-o e dando agora mais atenção ao asura ali caído.

O rapazito ergueu-se e depressa o seu corpo deixou de ser o de uma criança para se transformar no de um belo homem, vestido com roupas ricas e elegantes. Shiva, o seu amado consorte, concordara em ajudá-la naquela caça ao Raktabija. Ele negava-o, mas Kali sabia perfeitamente o porquê dessa ajuda. Quando, há muito tempo, pensara ter morto o general-asura, ela própria descontrolara-se de tanta euforia e quase destruíra o mundo. Shiva estava ali para evitar que tal voltasse a acontecer.

Depois de beber o sangue de todos os demónios que matara, a deva mirou o marido.

– Um escapou.

– Eu vi-o. Não saiu do edifício. Anda – disse, guiando-a até à parte de trás do balcão, onde serviam as bebidas. – Veio para aqui e desapareceu.

Examinaram as tábuas do soalho e o próprio material do balcão. Não havia ali nenhum alçapão, nenhuma passagem secreta. Kali mordeu o lábio inferior, contrariada, até o seu olhar cair sobre uma grade de cervejas. Por cima das garrafas, estava um espelho oval, com dois palmos de comprimento. O que, de todo, era um sítio demasiado peculiar para se guardar tal objecto. Pegou-lhe com cuidado, observando atentamente a moldura dourada rodeada com formas de pequenos demónios de expressão maldosa e língua de fora da boca, como se fizessem pouco de quem estivesse a olhar. Inscritas junto às figuras, mas já na superfície reflexiva, várias palavras em sanscrito védico revelavam a função do objecto.

– É um espelho encantado. Ele entrou por aqui – murmurou. – É uma passagem, que talvez só pudesse usar em último caso.

– Activa-a, então – urgiu Shiva.

Kali fez um leve aceno e recitou:

Caminhai sob o encanto

Passai se é desejo passar,

Mergulhai na cortina que é espaço

E reflexo na água a perturbar.

A superfície ondulou, como se de um lago se tratasse, as pequenas ondas lambendo a moldura. Quando serenaram, a superfície encarnava a própria escuridão. Kali tocou-lhe com a ponta de um dedo e esta ofereceu somente uma ligeira resistência, antes de ceder. Deu a mão a Shiva e ambos mergulharam no espelho, com um impulso da mente.

Não demorou mais do que um instante a libertarem-se da substância negra, da qual foram cuspidos. Kali soltou um leve gemido de dor quando Shiva, que vinha atrás, lhe caiu em cima.

– Desculpa… foi pela espada – sussurrou, saindo de cima dela. – Ah, Kali…

A deva apoiou as mãos no chão duro para se erguer. Era feito de lajes frias e húmidas, tão cinzentas quanto um céu de tempestade. As luzes de tochas instáveis tremeluziam em seu redor, oferecendo uma parca iluminação de sombras oscilantes. Ergueu a cabeça, levada por um mau pressentimento, e deu de caras com um gradeamento dourado, de malha fina e elaborada em espirais. Rodou a cabeça para um lado e para o outro, os olhos arredondando-se. Pareciam estar no interior de uma gaiola. Para além deles, havia somente o espelho receptor, caído no chão. E, atrás de si, erguia-se uma entrada em arco, sem porta, além da qual eram observados por cinco indivíduos.

– Raktabija… – sussurrou, semicerrando os olhos. Fitava o do meio, apesar de todos eles, de certa forma, serem o mesmo. O sorriso de triunfo no rosto dele realçava-o dos restantes, duas mulheres e dois homens, os últimos armados com espadas, que o ladeavam.

– Senhora Kali, deusa do Poder e da Destruição. Que honra ter aceite o meu convite para se nos juntar. E trouxe o seu honrado esposo, uma das três maiores divindades do nosso culto – comentou o homem, vestido num traje tradicional em tons de vermelho, talvez em modo de desafio pelo sangue que derramava para se multiplicar. – Duas belíssimas aves raras, presas na minha gaiola.

Kali ergueu-se e caminhou com passos largos para a entrada. Raktabija não recuou, fitando-a com um desafio claro no olhar. Nos seus companheiros havia um medo óbvio pela sua própria vida. Quando a deva estava a uma fracção de passar, Shiva agarrou-lhe o pulso, detendo-a.

Olhou-o por cima do ombro, contrariada.

– Não o faças – pediu o deus, apontando para cima. Kali seguiu a indicação e franziu as sobrancelhas. Havia algo a pender do topo em abóboda daquela prisão dourada. Quando conseguiu identificar o que era, soltou um rosnar baixo mas feroz.

– Bem, parece que não vão a lado nenhum. Já agora, aquilo não somente vos aprisiona como vos drena a energia. Por isso sugiro que não tentem fugir. O resultado não será agradável.

Kali arreganhou os lábios e mostrou-lhe os dentes numa ameaça que faria muitos treparem pelas paredes e fugirem.

– Não esperes pela demora, vou arrancar-te o sorriso com a lâmina da minha cimitarra! – gritou, apontando a arma ao demónio. Shiva crispou melhor a mão no braço da deva, impedindo-a de cometer qualquer desvario.

Face à ameaça, Raktabija limitou-se a rir, cruzando os braços sobre o peito.

– Felizmente, as descrições dos livros sagrados são só fruto de uma imaginação muito fértil… ou essa raiva e esse olhar já teriam dizimado metade do mundo. – Executou uma vénia ampla, acompanhada de toda a sua chacota. – Mas espero ansiosamente por isso.

A seguir voltou-lhes as costas e, seguido pelos quatro asura, abandonou a câmara. Só depois do grupo desaparecer por um corredor largo, é que Shiva se atreveu a largá-la. No pulso da esposa ficou a marca vermelha de cinco dedos.

Kali afastou-se dele com passos pesados, aproximando-se da periferia do gradeamento. Tocou-lhe com a ponta da cimitarra, esperando ver algum fenómeno particular, porém nem sequer um estremecimento sentiu. Baixou a arma e aproximou a mão, devagar, parando um instante antes de tocar no metal, ao sentir uma barreira invisível. Pressionou os lábios, resoluta, e tocou na gaiola. Uma tremenda força puxou-lhe a alma, tentando arrancá-la de si, e tudo o que ela continha. Cerrou os dentes, tentando combatê-la, contrariá-la, mas tal como o asura afirmara, a fraqueza depressa começou a corroer-lhe músculos e ossos. Acabou por puxar a mão com um esticão, libertando-a. Ofegou, por um momento, e a seguir inspirou fundo, enquanto o corpo recuperava as energias drenadas com uma rapidez sobrenatural. No entanto, se por alguma razão tivesse ficado com a mão presa naquela malha dourada, o fluxo de saída de energia divina seria maior que o de recuperação, levando-a ao esgotamento e matando-a.

Shiva reservou-se ao silêncio, enquanto olhava em volta, em busca do ponto fraco daquela armadilha. Bateu com os pés nas lajes, testando o som e a dureza da pedra. Não havia uma forma rápida de remover a terra e a pedra para escaparem por um buraco, não com a paciência da sua deusa a decair de forma tão drástica. O deva olhou para cima. Outra forma seria quebrar o feitiço que pendia sobre as suas cabeças, do lado de fora da gaiola…

Sobressaltou-se com um súbito estrondo metálico, voltando-se de imediato para Kali. Ela preparava-se para dar um novo golpe de espada na estrutura que os aprisionava.

– Kali… – chamou. Ambos sabiam que aquilo não resolveria nada, mas a deusa parecia tentada a conseguir o impossível. Na verdade, estava somente a destilar a raiva por ter caído numa armadilha bem pensada que, acima de tudo, fora feita para lhe ferir o orgulho. – Kali, pára com isso!

Ela deixara de usar a espada, para se arremessar de ombro contra o metal. Shiva agarrou-a pela cintura, prendendo-a a si, de costas contra o seu peito. O olhar dela era um misto de raiva e contrariedade, quando o mirou por cima do ombro.

– Deixa-me descarregar em alguma coisa!

– Não. Temos de procurar uma saída e, se for preciso, escavá-la.

– Não há nada por onde escavares. A gaiola forma uma barreira perfeita, incluindo a área sob os nossos pés. Vê como está alicerçada. Para além disso, pude senti-lo ao tocar-lhe: há ramificações do feitiço. Não há forma de sairm…

– Há, senhora Kali. – Uma voz meio esganiçada interrompeu o discurso frustrado da deva.

Ambos desviaram o olhar para a entrada em arco, dando de caras com uma das mulheres que acompanhara Raktabija. Ela tremia como varas-verdes, mas por entre todo o seu medo, havia uma óbvia coragem que a impedia de fugir. Contra o peito amparava uma ratazana enfezada e de pêlo revolto: a mesma à qual, nessa mesma noite, Kali atribuíra uma missão.

4x5 original

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