Mal entrou, foi atacada pelo calor húmido que dominava o local. A nuvem de fumo com a qual se deparou quase toldava a visão de um homem normal, erguendo-se de pontos estratégicos, onde tinham sido montados incensórios que, simultaneamente, libertavam um brilho místico, hipnotizante, tanto que duas ou três traças cabeceavam de forma cega o vidro dos mesmos. Um arrepio percorreu-lhe a pele e ao princípio não percebeu a razão, até olhar os incensórios uma segunda vez. Eram antigos e mágicos, feitos para esconder a presença espírita dos asura. O fumo espalhar-se-ia por ali, assim como na periferia do edifício, desviando as atenções de quem pudesse ter aptidão para os sentir.

Na sala, homens e mulheres sentavam-se diante de mesas baixas ou escondiam-se atrás de biombos que deixavam somente ver sombras. Entre eles viu mais uma cara conhecida, conversando com o que reconheceu como sendo um asura. As serventes andavam entre as mesas, distribuindo bebidas pelos clientes, ou quedavam-se nos seus colos, de olhar pouco nítido, enquanto as mãos deles vagueavam sobre e sob a roupa. Contudo, não havia somente mulheres. Homens adultos também sofriam desses abusos, assim como crianças de expressão desolada.

Um dos cantos dos lábios de Kali estremeceu, contudo ainda foi a tempo de reprimir um intenso esgar de raiva. O asura levou-a até uma mesa vazia, num canto, e convidou-a a sentar-se.

– Deseja provar uma bebida típica? – ofereceu-lhe, com um sorriso tão prestável que lhe causava náuseas.

– Fresca, por favor – pediu, sentando-se num almofadão já velho e manchado.

O ambiente ali dentro quase cortava a respiração, de tão pesado que era.

Quando ele já estava suficientemente longe, viu, pelo canto do olho, o rosto seu conhecido a aproximar-se. Era um homem jovem e bem-parecido, de face barbeada. Debruçou-se junto dela.

– Sete danças – disse, não num murmúrio, mas evitando sobrepor-se ao barulho em redor. – Aceitas?

Kali sorriu levemente.

– Talvez mais do que isso. Quando fores dançar, dança com as pequenas… – baixou o tom. – Para longe daqui.

– Cuidado com os ratos, vi vários, a entrar, andar por aqui, e desaparecerem nos buracos e fendas.

A deva sorriu um pouco mais, mas disfarçou o lado obscuro da sua satisfação.

– É muito amável da sua parte avisar-me, senhor – disse.

Quando se apercebeu de outro movimento atrás de si, bateu com a unha do indicador no tampo de madeira. O homem endireitou-se, tossicando e olhou para trás. O asura regressara e lançava-lhe um olhar de predador a quem estavam a tentar roubar a presa. Deste modo, o homem limitou-se a afastar-se. Mais calmo, o demónio pousou as bebidas e sentou-se, mantendo uma conversa gradual e algo enfadonha.

Enquanto isso, Kali cheirou e provou o líquido semitransparente que enchia copo. O sabor a álcool e especiarias era forte, o suficiente para disfarçar a presença subtil de outra substância, uma droga potente que poria qualquer humano inconsciente em pouco tempo.

“Estes tipos são tão óbvios que até dói” pensou, enquanto bebia, golo a golo.

Ele continuava a falar, de olhar atento nela, aguardando. Por fim, a deva fez-lhe a vontade. Levou uma mão à fronte, apoiando o cotovelo na mesa. As pálpebras descaíram por um momento.

– Não me sinto nada bem – murmurou.

– Não? Deve ser deste calor…

Ele não tinha sequer um tom convincente. Kali esfregou os olhos e, devagar, descaiu a cabeça sobre o braço. O asura tocou-lhe no ombro, sem obter reacção. Os segundos passaram. Por um olho entreaberto, a deva viu-lhe ser retirada a mochila que outrora pousara no colo. A seguir, foi lançada sobre o ombro dele e levada para trás de um dos biombos. O demónio não teve cuidado ao deixá-la cair sobre um colchão improvisado e pouco confortável. Quando ele se debruçou sobre ela, Kali também não teve cuidado, atingindo-o no nariz com uma tremende cabeçada. O grito do asura fez-se ouvir por um momento, e o impacto do golpe distraiu-o o suficiente, de modo que a deva teve tempo de agarrá-lo, puxá-lo para o colchão, de barriga para baixo, e subir-lhe para as costas, torcendo-lhe ambos os braços.

– Quando te criou, o teu mestre devia ter-te dado um pouco mais de inteligência – ciciou-lhe. – Onde está ele?

– Cabra…

– É a última vez que te pergunto: onde está o vosso pai de sangue?

– Vai-te fo…

Os olhos do asura esbugalharam-se, antes de poder terminar a frase. Usando a mão como arma, Kali trespassara-lhe as costas, por entre as costelas, até lhe chegar ao coração, o qual atravessou de um lado ao outro.

– Já não há respeito pelos deuses – resmungou.

A remoção da mão foi acompanhada por um ruído lento de sucção. Kali observou a cor rubra que a tingia e não tardou a lamber a pele, até esta voltar a ser pálida. De seguida bebeu o restante sangue do corpo, fazendo-o percorrer um caminho linear até à boca, com um feitiço. Por fim, ergueu-se e saiu detrás do biombo.

As pessoas mais perto lançaram-lhe uma mirada curiosa, enquanto a deva estendia a mão direita diante de si.

– Vem. – A ordem foi dada em voz alta. Não que fosse necessário, porém, dessa forma, continuava com as atenções sobre si.

Vinda de trás do balcão, a mochila precipitou-se para si, rasando uma dúzia de cabeças, até lhe chegar à mão. Mal tocou a pele dos dedos, alongou-se e retomou a forma original, mortífera. Ainda havia quem a fitasse, boquiaberto, no entanto outros começavam a erguer-se, alguns com intenção de a enfrentarem, outros a prepararem-se para fugir.

A menos de dois metros de si, detectou outro asura. Investiu em frente, apoiando o pé no tampo da mesa mais próxima e saltando. O demónio, na forma de um homem de barba larga e turbante, atirou-se para o lado, evitando o primeiro golpe, para a seguir levantar-se. Contudo a cimitarra atingiu-o pelas costas, trespassando-o de lado a lado. O corpo caiu para a frente, acertando num dos almofadões.

Após um instante de silêncio petrificado, os gritos de terror rodearam-na. Eram uma espécie de música com a qual podia dançar. Chegou-se ao demónio e puxou a espada, desencravando-a do corpo, para de seguida a língua percorrer a lâmina, deixando-a como se não tivesse sido maculada. Acocorou-se junto ao corpo e bebeu o resto do sangue, ignorando o movimento que primeiro a cercou e depois tentou escapar-se na direcção da porta aberta e das janelas fechadas.

Sentindo uma ligeira corrente no ar, diferente do normal, Kali largou o asura morto e rodou sobre si, investindo com a espada num golpe horizontal. A lâmina abriu-lhe um golpe profundo no ventre, do qual as vísceras espreitaram. O homem atrás de si, que trouxera em mãos uma cadeira erguida acima da cabeça, pronta para lhe acertar, deixou-a cair e agarrou-se às próprias entranhas, enquanto caía de joelhos. Este era realmente um humano; não que isso lhe interessasse para alguma coisa, já que não era melhor do que a maioria dos demónios.

Kali ergueu-se e decapitou-o de um só golpe, antes de procurar novas vítimas. O seu cúmplice ajudava os escravos daquele lugar a fugirem, contudo não podia evitar que os culpados fizessem o mesmo, por entre a confusão. Quanto aos outros cinco asura que ali estavam, nenhum deles havia ainda conseguido sair, apesar de empurrarem e pisarem quem fosse preciso. Avançou nessa direcção, em passo de corrida. Quem a viu aproximar-se, de espada manchada, guinchou e afastou-se em desordem, abrindo-lhe caminho para os alvos. Dilacerou as costas do primeiro com um golpe de força colossal, que o arremessou contra uma parede, levando duas pessoas atrás. O segundo tentou agarrá-la por trás, contudo a deva pontapeou-o para o afastar e aproveitou o desequilíbrio causado para lhe enterrar a cimitarra no coração. Faltavam três. Enquanto matara estes dois, os outros tinham desistido da porta, da qual ela estava demasiado perto, e tinham acorrido para as janelas que os humanos tinham já conseguido abrir, por entre o pânico.

Kali desapareceu, para no segundo seguinte surgir diante de um deles. Não precisou de o atacar porque, por entre a fuga desenfreada, ele não foi capaz de travar a tempo e caiu sobre a ponta da lâmina, com um grito sufocado.

– Pfff, idiota – comentou, enquanto deixava o corpo escorregar um pouco mais pela lâmina abaixo, antes de se soltar. Ele contorceu-se no chão, cuspindo sangue, mas a deva não lhe deu tempo para mais. A cabeça foi apartada do resto do corpo, com a expressão de terror ainda presa ao rosto.

Kali rodou sobre si e encarou a próxima vítima. Para sua surpresa, ele encarava-a também, com um olhar de desafio. Junto aos seus pés duas crianças tremiam de medo, abraçadas uma à outra, com os olhos repletos de lágrimas. Ele agarrava uma terceira, soluçante, ao pescoço da qual apontava uma adaga.

– Se te atreveres a chegar mais perto, este puto morre! – gritou-lhe o asura.

A deva ergueu uma sobrancelha loira.

– E achas que EU tenho problemas com a morte de uma criança? – Deu um passo em frente. – Sou Kali, a Terrível. O título não é em vão.

Os olhos do demónio escancararam-se quando a viram avançar sobre si, não lhe dando tempo de se afastar. A espada trespassou primeiro a criança aterrorizada e depois o monstro, matando-o.

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