Arrastou o cadáver atrás de si pela rua deserta. Os outros tinham fugido, alguns nem percebendo realmente o que ela era. Pelo menos não no momento do impacto da transformação. Mas não tinham forma de se esconder. No grupo em fuga, havia somente mais um asura descendente sanguíneo de Raktabija. Com o passar dos anos, sob o velo do segredo da sua existência, Raktabija conseguira fazer com que as suas réplicas não fossem exactamente iguais na sua aparência. Ajudava-o a passar despercebido, enquanto crime após crime era cometido, violação após violação. Quanto aos outros que estavam com os asura, dois deles eram meros humanos, influenciados pelos desejos negros dos demónios. Não que isso os tornasse impunes. Para um asura maligno influenciar uma alma, é necessário que a semente de mal esteja já plantada no cerne do Ser.

Saiu do beco, levando em cada mão cabeça, restante corpo e espada. A que estava livre pendia ao lado do corpo, acompanhando o passo dos pés descalços, em direcção ao rumorejar do Ganjes. Mal alcançou a margem, atirou para as águas o corpo decapitado e respectiva cabeça, com um movimento desinteressado. Meia dúzia de salpicos saltaram na sua direcção, contudo afastaram-se no último instante, embatendo num campo de energia divina, caindo a seus pés.

– Que as águas sagradas vos absorvam males e pecados, e vos purifiquem.

– Só estás a atirar mais lixo aí para dentro, pelo prazer de o veres a afundar. O Ganjes já não cheira suficientemente mal, para ter aí mais carne a apodrecer?

A mulher de quatro braços rodou ligeiramente a cabeça, mirando de soslaio o homem que acabara de surgir lado a lado consigo. O rosto severo não lhe dava mais do que quarenta Outonos e os orbes, tão vermelhos quanto os seus, fitavam o rio, apreensivos. Condiziam com a túnica, também ela lembrando o sangue e a vida nele contida. O bigode encaracolado do homem estremecia.

– Parece que fui apanhada… Mas não te preocupes. Não penso tardar em matar todas as sementes de sangue do Raktabija. Quando a última desaparecer, os corpos destes asura desfazer-se-ão em cinza, e eu dançarei sobre ela.

Yama, o deus dos mortos, fungou, céptico.

– Sobre aquela cinza não irá ser. – Apontou o local onde o corpo afundara. – E vê se desta vez te controlas. Da última, estiveste prestes a acabar com o mundo com os teus passos de dança. Seria um fim ridículo.

Ela soltou uma gargalhada animada.

– Os maridos servem para alguma coisa, não é? O Shiva impede-me, se eu ficar assim tão eufórica após a vitória. – A arma tomou a forma de mochila, a qual a deva lançou sobre as costas. – Vemo-nos por aí, Yama.

Voltou-se na direcção contrária à do rio e afastou-se. Quando o deus dos mortos olhou para trás, viu uma mulher de longos cabelos loiros e saia rodada até aos pés a quase desaparecer na noite.

– Kali – chamou.

A mulher mirou-o por cima do ombro, com dois olhos azuis curiosos. Já não havia vestígios do terceiro olho na fronte, nem do par de braços extra. Lançou-lhe um sorriso inocente.

– Sim?

– Não subestimes um asura. Eles não são muito diferentes de nós – avisou.

– Não te preocupes – disse, agora num perfeito inglês arranhado com sotaque de França. E a deva, na pele de turista, seguiu o seu caminho em busca do covil das suas presas.

*

Deteve-se num cruzamento de duas ruas estreitas. Um par de olhos pequenos e brilhantes espreitou-a de entre uma pilha de lixo, atento, cauteloso. Naquilo, o animal era mais inteligente que Raktabija. Se o asura tivesse ficado no seu canto, sem interferir com o mundo dos humanos, não teria de morrer. Antes, preferira desafia-la, crime após crime. Não o toleraria.

– Ssssh, anda cá – chamou, num tom calmo, suave. No entanto, as suas palavras continham a força sobrenatural de uma ordem.

O lixo revolveu-se e do interior surgiu um enorme roedor, de espírito desconfiado. Kali baixou-se e estendeu-lhe a mão.

– Vem a mim, descendente de Karni Mata.

Apesar da utilização da linguagem humana na ordem dada, o poder em que estavam embebidas as palavras fez o animal aproximar-se da mão estendida e empoleirar-se nela. A deva ergueu-o até junto do rosto, sorrindo-lhe. A ratazana farejou-lhe a cara, apoiada nas patas traseiras, reconhecendo nela um ser divino também ele parte da deusa Durga, tal como a sua ascendente sagrada.

– Eu sei que és uma menina mais inteligente do que muitos julgam – disse-lhe, sorrindo. – Por isso tenho uma missão especial para ti e para os teus amigos. Encontrem este cheiro, e mantenham-se na sua beira.

Abriu a boca e lançou sobre o animal um bafejar repleto do odor a sangue de asura. O pêlo do animal eriçou-se, a coluna arqueou-se e as garras pequenas mas afiadas cravaram-se na palma da mão de Kali. O rosto da deva não foi maculado por uma única expressão de dor ou desagrado. Tinha noção que seria um dever árduo para um ser que agia por instinto.

Fez-lhe uma festa no pêlo encardido pelo lixo que esgravatava dia e noite. Aos poucos, o animal serenou, retirando as unhas do interior da carne dela. Voltou a pousá-lo no chão e deixou-o ir à sua vida. Os pequenos furos na mão reabsorveram o sangue vertido e sararam, sem deixar cicatriz.

Com o auxílio dos roedores, não tardou a encontrar o segundo asura diante de duas portas entreabertas. A nesga deixava escapar o tremeluzir de chamas, música e gargalhadas alteradas, assim como um fumo branco com um intenso cheiro a incenso de segunda categoria. Se alguém se atrevesse a queimar tal coisa no seu templo, teria um destino doloroso.

O asura ofegava, com uma mão apoiada no peito e outra na ombreira, quando a deva se aproximou. Ele sobressaltou-se, ao ouvir os seus passos, já demasiado perto. Desta vez não havia saltos para ouvir à distância – Kali trocara os sapatos por um par de sandálias rasas de aspecto gasto. Olharam-se, ele visivelmente assustado, ela com uma falsa inocência curiosa e preocupada.

– O senhor precisa de ajuda? – perguntou.

Ele mediu-a por segundos, vendo numa primeira ronda se seria perigosa, e numa segunda dando atenção ao seu aspecto feminino estrangeiro. No fim, caiu no engodo, e o corpo do asura descontraiu.

– Não, estou bem. Estava a ser perseguido por uma cadela vadia, mas acho que a despistei. A senhora não devia estar sozinha por aqui. Quer entrar? – Apontou o edifício atrás de si e as portas que pouco prometiam de bom para uma mulher.

Kali ajeitou melhor a mochila atrás das costas. A sua cimitarra iria adorar correr aquele local a pente fino, principalmente depois daquele comentário da “cadela vadia”.

– Oh, bem… – Hesitou um pouco, olhando o lugarejo. Naquele campo, indecisão era sempre uma pequena demonstração de fraqueza.

– Só um copo, para agradecer a sua preocupação, senhora – insistiu o asura, ele mesmo abrindo a porta, para deixar escoar um pouco mais de luz do interior.

– Bem, só uma bebida não deve fazer mal – fingiu ceder, avançando com um passo tímido para o interior do edifício.

4x5 original

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