“Há muito tempo, o mundo foi ameaçado pelos asura, seres tão poderosos quanto deuses, alguns deles considerados demónios. Um dos seus líderes era Raktabija, um general-asura. A este ser foi concedida uma dádiva, pelo deus Brahma: cada vez que uma gota do seu sangue fosse derramada, o seu poder multiplicar-se-ia por mil. O seu nome reflectia isso mesmo, significando “semente de sangue”.

Os asura, comandados por Raktabija, devastaram o mundo e os seus habitantes, perante o ultraje dos deuses. A poderosa deusa Durga veio em auxílio dos humanos, montada num tremendo tigre, e matou todos os demónios que a enfrentaram, até sobrar somente o seu general. A deusa atacou-o vez após vez, e o sangue de Raktabija espalhou-se em redor. De cada gota brotavam mais mil demónios iguais a ele, formando exércitos montados em elefantes e carros de guerra, todos eles fazendo pouco da provação de Durga. E isso enraiveceu-a. A deusa fechou os olhos e, da sua raiva e concentração, invocou Kali, a Terrível.

Mal a poderosa deusa de quatro braços surgiu, armada com um bastão encimado por uma caveira, com uma forca e com a Espada da Vingança, os demónios mais próximos foram consumidos pela sua raiva. Metade dos exércitos pereceu só de fitar os seus terríveis três olhos cor de sangue. Kali soltou um grito terrível e petrificante, que fez com que mais uma boa parte caísse a seus pés. Matou ainda alguns com a sua espada e abocanhou muitos deles. Os restantes tentaram fugir da feroz deusa, porém ela riu-se e não o permitiu. Kali abriu a boca e esticou a língua tragando todos os elefantes, carros e condutores em fuga para o abismo negro das suas entranhas.

Com os exércitos destruídos, a deusa voltou-se para Raktabija, perfurando-o de lado a lado. De seguida, bebeu-lhe todo o sangue, não havendo gota que escapasse para formar novos demónios. No fim, livrou-se do corpo morto do general-asura e dançou.

Assim rezam as escrituras sagradas Hindu.”

 

A noite imperava na antiga e sagrada cidade indiana de Varanasi. Ao longe, as águas do rio Ganges rumorejam, contendo em si a voz de inúmeros defuntos que ali tinham dado o último passo em direcção à purificação nas mãos de Yama, o Senhor da Morte.

Pela rua deserta, uma jovem avançava com passos rápidos, as ancas oscilando de forma sensual sob uma minissaia que revelava as pernas morenas, esguias, femininas. Calçava uns sapatos cujo salto fino estalava de encontro ao passeio, marcando o ritmo. O cabelo comprido, de um negro brilhante, seguia-lhe o rasto, algumas madeixas flutuando ao sabor da brisa.

Mais à frente, por entre risos e conversas, surgiu um grupo de cinco homens que seguia na direcção contrária. Ao cruzarem-se, a mulher lançou-lhes um sorriso tímido, sem palavras. Nos olhos negros só havia uma simpatia inocente que não tardou em seguir caminho. No entanto, atrás de si, um assobio cortou o ruído do estalar dos saltos, vibrando na noite. Houve uma troca sussurrada de palavras e um assentimento em comum, antes dos homens se calarem.

Vários pares de passos começaram a ressoar na mesma direcção que a da mulher, seguindo-a. Ela olhou para trás uma vez, franzindo as sobrancelhas escuras. Virou numa esquina e depois noutra, acelerando ligeiramente o passo. Porém, atrás de si, eles imitaram-na. A jovem voltou a olhar por cima do ombro, agarrando melhor a mala, antes de desatar a correr pela rua.

Se nada mais o tivesse feito, uma risada que seguiu no seu encalço fá-la-ia constatar que as intenções de quem a perseguia eram tudo menos boas. Voltou numa nova esquina e desembocou numa rua… sem saída. Estacou, mirando o muro alto. Toda aquela zona padecia de uma tremenda falta de iluminação. A pouca luz que entrava no beco serviu somente para agigantar as sombras do grupo que a alcançou, bloqueando-lhe qualquer tipo de fuga.

– Então, linda, espero que não te tenhas cansado. Esta corrida foi só o primeiro aquecimento para algo bem melhor. – O tom do homem que falara era divertido, antevendo uma coisa que deixaria qualquer presa em puro pânico.

A mulher rodou sobre si e encarou-os, um a um. O que estava um passo à frente dos outros, e que parecia ser também o porta-voz, hesitou por um momento, analisando a vítima. Não havia medo no seu rosto, muito pelo contrário. A diversão era mútua, tanto que ela sorria. A cor dos seus olhos, outrora escura, diluiu-se num vermelho que brilhava no escuro.

– Digo o mesmo. – A mala deslizou-lhe pelo ombro até atingir a mão direita, a qual se crispou na alça. – Asura.

A bolsa estreitou-se e alongou-se, tornando-se afilada, de brilho metálico e mortal. Contudo, não fora só aquele objecto que sofrera uma metamorfose. A minissaia, outrora feita de tecido, dividira-se em farripas, e cada uma delas tomou volume e uma forma muito específica: a de um antebraço amputado. Pendiam presos por uma corrente que lhe envolvia a cintura, abaixo do tronco nu. O grupo não precisou de ver o segundo par de braços surgir acoplado à zona lateral do corpo, nem o macabro colar de cabeças cortadas sobre o peito, ou o terceiro olho que se abriu na testa e os fitou de modo implacável.

– Fujam! – urgiu o primeiro, dando meia volta. Mas, antes que pudesse afastar-se, a lâmina da cimitarra alcançou-lhe o pescoço, cortando carne e osso. A cabeça caiu para trás, com um grito mudo preso à expressão de terror.

A mulher baixou-se e agarrou a cabeça pelos cabelos, erguendo-a até ao nível da sua.

– Escapou-se-me uma gota de sangue, há milénios. Certificar-me-ei de que não volta a acontecer, Raktabija. Cada partícula que te corre nas veias será minha, até não haver mais nada – sussurrou-lhe.

Entreabriu os lábios, deixando a língua escapar-se da boca, estendendo-se de forma inumana até à zona de corte. Tocou-lhe, provando o fluído de sabor férreo, tóxico, corrosivo. O sangue de um asura, tal como o de um deva, um deus hindu, era muito diferente do dos comuns mortais. Aquele seria veneno puro para todos em que nele tocassem, derreteria as entranhas de um morcego que se atrevesse a bebê-lo. Mas tais efeitos não se aplicavam a alguém como ela. Bebeu uma das gostas que caía, para a seguir sorver cada partícula de sangue até a cabeça se tornar uma coisa mirrada e ressequida. A seguir acocorou-se no chão, fazendo os antebraços da saia moverem-se de forma quase viva. Agarrou o resto do corpo pela parte de trás da camisa, cuja gola começava a empapar-se, e drenou-o também. Quando terminou, o olhar cor de sangue delineou a pequena poça escura e os respingos que tinham saltado. Estes abandonaram a superfície suja, erguendo-se até ao nível da língua que os absorveu no ar. Por fim, lambeu também a lâmina da cimitarra, certificando-se de que não sobrava um único resquício vital que pudesse ser semente.

4x5 original

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