– O que é que se passa aqui, Emma?

A pequena ressaltou-se ao escutar a voz ríspida vinda de um ponto perto das suas costas.

– Mãe! – Rodou a cabeça e o tronco para trás, tanto quanto conseguia, numa tentativa de vislumbrá-la. – Mãe, ajuda-me! Aquela coisa quer matar toda a gente!

A poucos metros de distância, a Morte Ernestina endireitou as costas e olhou naquela direcção. Ou só figuradamente, porque a sua legítima cabeça estava virada noutra direcção, e, em todo o caso, as suas órbitas eram dois poços vazios.

– Outra pagã metediça…

A mãe de Emma ergueu uma sobrancelha, encarando o cadáver de andrajos negros.

– Mais uma vez, Emma, o que é que se passa aqui? – perguntou, mantendo a Morte debaixo de olho.

– O deus cristão enviou-me uma carta a pedir que, com os meus grandes poderes, ajudasse o senhor Jacinto a deter aquela Ceifeira maluca que escolheu a época do Carnaval para ceifar almas indiscriminadamente, como se ninguém levasse a mal – explicou rapidamente.

– A quem é que a carta estava destinada?

– A mim! – disse Emma, em tom de pequeno orgulho.

A mãe olhou-a de lado.

– O nome que vinha no envelope.

A filha baixou o olhar e a sua resposta tardou, revelando a culpa que tentara esconder.

– Menina Violeta…

– E quem é a menina Violeta?

– Somos nós as duas…

– Exacto! Podias ter morrido, Emma! – A reprimenda fez a criança encolher-se. – Já te disse muitas vezes que, como a mãe não é casada, há muitos seres que se me dirigem dessa forma. Agora… – Encostou a vassoura a uma árvore. – Vais ficar aí presa, a pensar nos teus erros, enquanto eu trato do assunto.

O lábio inferior da pequena estremeceu quando ela fez beicinho, voltando a baixar o olhar.

Violeta encarou a Morte, que ficara a escutar a conversa, como se fossem contas do seu rosário, e avançou com passos decididos. A mão esquerda fechou-se, como se segurasse algo com firmeza. Baixou as pálpebras por um instante de concentração. Quando se voltaram a abrir, a Morte havia já puxado o cabo da gadanha, preparada para a nova oponente. Por um momento Violeta ponderou recomendar-lhe a rendição, mas isso foi antes de se relembrar que a sua filha estaria morta se não tivesse consigo um artefacto mágico de protecção. Aquele monte de ossos precisava era de um bom pontapé no traseiro ossudo, para aprender a ter respeito pela Existência.

Parou a dois metros da Morte.

– Então, não me atacas? É medo? Ou és tão cobarde que só atacas crianças e humanos indefesos? – desafiou, fechando a outra mão, de modo a manter ambas crispadas.

A gargalhada de Ernestina revibrou por entre as árvores, e nem sequer se deu ao trabalho de lhe responder. Deu dois passos largos e rápidos em diante e golpeou na direcção dela com a lâmina larga da gadanha, tentando ceifar-lhe a alma. Porém, a arma estacou com um ruído de entrechocar de metal.

Ernestina depressa percebeu o que poderia estar a enfrentar, e aquilo que a pagã segurava em cada uma das mãos: armas invisíveis.

Aquando o impacto, o braço livre da pagã avançou sobre ela. Ainda tentou recuar, contudo a lâmina invisível atingiu-a no ombro. Apesar de não haver nada de físico em si capaz de produzir som, o seu grito troou, lancinante. Sem saber como, a arma atingira-lhe a alma, da mesma forma que a sua gadanha anímica conseguia fazer. Tentou afastar-se para um ponto seguro, porém a bruxa não lhe deu tempo, investindo. Pensava poder estar já fora do alcance, quando sentiu primeiro o toque nos andrajos negros, e depois na base da coluna vertebral. Era gélido, como se uma fracção muito importante de si congelasse para se estilhaçar de seguida. Foi quebrada na zona do embate, a parte de cima resvalando para o lado, e o que restava para trás. Ainda assim, crispou ambas as mãos na arma e, antes do tronco tocar o chão, deu impulso suficiente para contra-atacar. O movimento apanhou a bruxa desprevenida, atingindo-lhe a maçã do rosto.

Esperou vê-la cair morta, no entanto a bruxa limitou-se a levar a mão ao rosto, constatando o golpe e o fio de sangue que começou a escorrer. Ernestina teria arregalado as pálpebras se tivesse carne para o fazer na cabeça por ali caída. A lâmina principal da gadanha era incapaz de cortar a carne dos vivos com alma, fora feita somente para ceifar a parte espiritual. Como conseguira a maldita pagã escapar?

– Fim da linha, Ceifeira – disse a bruxa, antes de erguer mais um pouco o tom de voz:

“Contém a alma, restringe o osso

E o pensar poderoso.

Sustém o esforço,

Detém o reflexo e o gesto impensado.

Paralisa a consciência e o mexer,

Retém todo o seu ser.”

A firmeza das palavras de aprisionamento constrangeram cada articulação do esqueleto. Por um instante, os presentes ainda conseguiram ouvir o princípio de uma praga, antes de também a sua alma se silenciar.

– Agora… – Violeta lançou uma mirada à filha, antes de sussurrar algo ininteligível.

As raízes que a prendiam ao chão começaram a recuar aos poucos e poucos, até voltarem ao seu leito sob o solo. Emma flectiu as pernas como que para se certificar de que estava mesmo liberta. Depois olhou em volta, semicerrou as pálpebras e aproximou-se da cabeça decapitada.

– Pensavas que vencias a minha mãe, coisa?! Ela é penta-campeã em combate com armas psíquicas. – Deu-lhe um pontapé que a fez voar três metros e embater num tronco.

– Emma, pára com isso! Não quero esse tipo de comportamento da tua parte!

A voz da mãe fê-la encolher-se, arrependida.

Violeta soltou um suspiro e abanou a cabeça. Teria de ter mesmo uma conversa muito séria com a filha, quando chegassem a casa. Olhou depois para o coveiro deitado no chão e aproximou-se.

– Lamento não ter chegado mais cedo – disse, baixando-se junto dele. – Vou tentar remediar o que aquela Ceifeira fez.

Executou um gesto com o dedo em direcção às pernas cortadas. Elas ergueram-se do chão e flutuaram meio metro até junto do resto do corpo. Com mais um movimento, fê-las deitarem-se e aproximarem-se dos fémures cortados. Pouco depois, sob um feitiço murmurado, osso, carne e pele voltavam-se a unir. O senhor Jacinto apoiou-se numa mão, e segurou no ventre rasgado com a outra, enquanto se sentava com cuidado.

– Obrigado pela ajuda – disse, reconhecendo que não se teria safado de todo se aquela mulher não tivesse aparecido.

O sorriso que a bruxa lhe lançou era amável, ao levar um dedo à fronte dele. O coveiro ficou muito quieto, por precaução, vendo-a fechar os olhos e recitar outra bruxaria incompreensível. Ressaltou, quando sentiu o osso do seu crânio a mover-se, as fendas suturando-se por si mesmas e as partes partidas a voltarem ao sítio. Por fim, o escalpe refez-se. Passou a mão livre pela cabeça. Por Deus, já não era calvo, tinha cabelo! Não é que não conseguisse curar essa parte de si por si mesmo, mas nunca conseguiria um milagre tão vasto quanto esse.

– Só falta o ventre, se me permitir – disse Violeta. – Verifiquemos se os seus pequenos companheiros roedores estão todos bem.

Jacinto fez um leve aceno, sem discutir (ele que tanto resmungava). Voltou a deitar-se sob a indicação da bruxa, e ela levou uma mão ao rasgão das jardineiras, na zona do umbigo. Com um estalar de dedos fez meia-dúzia de chamas surgirem em seu redor, iluminando melhor aquela zona, e tocou na pele cortada, antes de deixar a mão entrar na ferida. Tirou um ratinho pela cauda, pousando-o no peito do coveiro, depois outro, e outro, e mais um, sempre com todo o cuidado. Os roedores aninharam-se junto uns dos outros, tremendo de medo e frio.

– Sete ratinhos ilesos – comentou Violeta, acabando por retirar a mão. Cheirou as manchas vermelhas que a cobriam. – E licor de morango com cheiro a chocolate.

Jacinto soltou um longo suspiro, como se tivesse contido durante todo aquele tempo o ar que não respirava. Nunca se sentira tão aliviado em toda a sua vida, nem em toda a sua morte. Os seus companheiros de todos os dias estavam bem, sãos e salvos. Não havia sangue nenhum, nem feridos. Sorriu, ele que raramente sorria.

Depois de lhe sarar aquele último ferimento, Violeta ergueu-se e sacudiu a saia com duas palmadas, na zona dos joelhos.

– Agora tenho de ir invocar uma alma, ali à frente, que estão duas crianças a chorar pela sua mãe – disse-lhe, com um sorriso simpático. – Até à próxima, senhor Jacinto. Tome conta de si e dos seus pequenos. Eu tomarei conta da minha…

De onde estava, Emma lançou um olhar às copas das árvores. Nunca antes se apercebera que eram tão bonitas despidas das suas folhas naquele Inverno frio.

Jacinto ficou a vê-las afastarem-se, em silêncio. Talvez no próximo Carnaval arranjasse um fato de tipo latagão e jeitoso para vestir o seu esqueleto. Ou oferecesse um a si mesmo já na próxima Páscoa, para ir visitar aquela senhora bruxa e a sua filha à colina ventosa onde viviam. “Não é mau pensado, não”, ponderou para si mesmo.

Parte IV

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