A Morte tornou-se visível, quando a lâmina recurvada da gadanha estacou a pouco menos de dez centímetros de ceifar a alma de Emma. Apesar de uma caveira ser tudo menos expressiva, a criança imaginava o ar assassino e furioso que não teria, se tivesse músculos que delineassem uma expressão. As partículas de ar vibraram em redor da pequena bruxa, levando à formação de um círculo de luz branca entre as duas, com centro na zona de impacto. A linha que o formava era, na verdade, uma corrente de runas mágicas, com um poder inato repulsivo. O brilho das inscrições explodiu de súbito, enchendo aquela zona do jardim com um flash de luz que catapultou a Ceifeira para longe. Emma levou a mão ao braço esquerdo e levantou um bocadinho da manga. No pulso tinha uma pulseira com sete contas de madeira, esféricas e douradas. Uma delas, porém, era tomada gradualmente por uma nuvem que a enegreceu por completo. Descarregara uma das esferas da “sete-vidas”. Inspirou fundo e apontou a varinha à Morte.

*

A meia dúzia de quilómetros dali, debruçada sobre um espesso tomo de páginas amareladas, uma mulher lia o que se intitulava como “Assar peru com uma varinha mágica”. O seu cabelo era de um negro de azeviche, pintalgado de fios níveos. A expressão no rosto novo formava leves rugas de concentração na testa. Nesse dia queria fazer uma surpresa, algo diferente. Olhou o eterno abeto de Natal, num canto da sala, povoado de pequenas fadas luzentes. A sua filha adorava-o tanto que estava sempre montado, mês após mês, ano após ano, e, por isso, tornara-se um lar para outros seres. Suspirou. Já que há cerca de dois meses não tivera tempo de fazer almoço nem jantar decentes, esse seria o dia.

No momento em que voltava a página da receita de culinária, um ardor súbito atingiu-lhe o pulso. Franziu as sobrancelhas e mirou a pulseira que aí tinha. Uma das contas estava a mudar de cor.

Ergueu-se quase de um salto, abandonando a leitura. A saia comprida restolhou em redor dos calcanhares quando correu para a entrada. Retirou um poncho de lã do suporte aí pendurado e enfiou-o num segundo pela cabeça abaixo. A seguir pegou na Hélice K4000, uma das suas vassouras de competição, e abriu a porta. Foi recebida por um vento álgido que lhe revolveu os cabelos. Na colina as rajadas eram sempre terríveis, e no Inverno tornavam-se ainda piores. Passou uma perna por cima da vassoura, deu um pequeno impulso para cima e para a frente com os pés, e activou-a de forma que começou a pairar por si mesma. Deu-lhe um toque junto ao cabo e ela arrancou a toda a velocidade, por entre o vento vespertino, em direcção ao centro da cidade.

*

O espanto de ver por ali a pequena bruxa não tolheu os movimentos de Jacinto. Mal a Morte se tornou visível, o coveiro investiu contra ela, não lhe dando tempo de reagir. A pá acertou-lhe com toda a força na cabeça, fazendo-a desarticular-se do topo da coluna vertebral e cair nos detritos do solo. O resto do esqueleto rebolou pelo chão, afastando-se do alcance de um novo golpe que o pudesse desmembrar. Ergueu-se sem cabeça, apoiado na gadanha. Não atacou logo. Antes, ponderou nas hipóteses que tinha contra dois oponentes.

– Precisar da ajuda de uma criança é descer muito baixo, primo – notou a Ceifeira. A mandíbula da caveira caída movia-se ao ritmo da fala, apesar de a voz vir do resto do corpo, a meia dúzia de metros de distância.

 – Eu não pedi ajuda – resmungou o senhor Jacinto, lançando um olhar de esguelha a Emma.

A pequena semicerrou os olhos.

– Só conseguiu acertar-lhe graças a mim. Se não fosse eu, já estaria aí todo desossado. – Deitou-lhe a língua de fora.

O coveiro voltou a encarar a Morte, não admitindo que a criança tinha razão.

– Ainda assim, não têm hipótese.

O esqueleto de capa negra investiu a uma velocidade sobrenatural. Desta vez foi a lâmina da gadanha que embateu no cabo da pá, ferindo-lhe a superfície de madeira. Arrancou-a num movimento seco, fê-la rodar rapidamente nas mãos, posicionando-a para um golpe que se seguiu sem hesitação. O senhor Jacinto ainda tentou recuar, mas o alcance da arma era demasiado amplo.

O golpe atingiu-lhe o ventre, rasgando-lhe jardineiras, camisa e a pele que havia sob elas. Guinchos estridentes de puro terror repercutiram-se de dentro do seu corpo. A lâmina da gadanha esborratara-se de vermelho depois daquele ataque.

– O que é isto? – A caveira da Ceifeira movera-se um pouco de forma a conseguir ver a dona, estranhando a existência de um tom tão sanguinolento.

O coveiro levou uma mão ao ventre, chocado, tentando segurar as entranhas. Sussurrava para elas, numa tentativa de as acalmar, contudo ele próprio mal conseguia manter a calma, depois daquele golpe. Os guinchos esmoreceram-se aos poucos, perdendo-se na tarde. E, ao longe, ouviam-se as risadas do Carnaval, como se fizessem troça de si.

“Terá morrido algum?” perguntou-se Emma, contendo a respiração. O senhor Jacinto ficaria destroçado se assim fosse. Os ratinhos a quem chamava “intestinos” eram uma espécie de família que ele tinha, que moravam nele, como se o coveiro fosse uma espécie de lar.

– Que tipo de parasitas tens dentro de ti? – exigiu saber a Ceifeira. – Tornaste-te demasiado inferior, tão baixo quanto eles, lixo. – Avançou para o primo com a capa a adejar. A gadanha rodou no ar. – Primeiro despedaço-te o corpo, depois a alma. Não mereces outra coisa.

Terminou num rosnar embebido em raiva, enquanto a gadanha desferia um golpe vindo de baixo. Jacinto defendeu-se, mas a Ceifeira desapareceu no segundo a seguir. Ouviu um movimento nas suas costas e, mal rodou a cabeça, viu o brilho da arma precipitar-se sobre si. Fendeu-lhe o crânio estremecendo-o de cima a baixo.

Do seu esconderijo, Emma soltou um guincho aflito. Não sabia o que fazer, como pará-la. Apertou o graveto na mão e inspirou fundo. Precisava de pensar num feitiço mais poderoso, que fizesse frente àquela arma. Insuflou as bochechas de tanto pensar, até que apontou a varinha ao chão.

“Alicerces de vida que habitam a terra,

Raízes que alimentam o coração,

Faia, cipreste, sabugueiro e hera

Abeto, pinheiro e cedro do japão,

Brotem e sejam quem impera,

Tomem-na e prendam-na ao chão!”

Sob os seus pés a terra estremeceu, primeiro levemente, depois de tal forma que quase a derrubou. De entre a terra ergueram-se braços de lenho, uns finos outros quase tão espessos quanto a base de um ramo maior. As raízes mais pesadas rastejaram pelo chão, as mais leves como que pairaram, ambas dirigindo-se para a Ceifeira. A gadanha rodou no ar e, com vários golpes letais, cortou os alicerces da vegetação, como se mais não fossem que papel. Contudo, as raízes não se voltaram somente contra a Morte. Um toque leve na perna chamou a atenção de Emma.

– Não! Quietas! Eu sou a vossa mestre! – protestou, afastando os pés. Contudo as plantas não ouviam a voz da sua invocadora e, não obstante a tentativa de fuga, as mais finas prenderam-lhe as botas ao solo, trepando-lhe de seguida pelas pernas para firmar melhor o aprisionamento. A Morte decapitada deveria ter um sorriso nos lábios invisíveis, ao ver o feitiço voltar-se contra a feiticeira.

Apesar de tudo, parecia que as raízes não tinham qualquer interesse pelo coveiro. A cabeça de crânio fendido em nada lhe afectou os movimentos. Não tinha nada lá dentro que pudesse realmente sofrer danos, e nunca ligara propriamente ao lado estético da questão. Se ligasse, o seu saco de ossos não seria um velhote careca, mas um latagão jeitoso que encheria o cemitério de miúdas vivas. E talvez algumas vampiras sanguessugas.

Enquanto Ernestina se distraía, com um contentamento quase infantil, a esquartejar raízes, o coveiro firmou as mãos no cabo de madeira e atacou-a com um golpe diagonal, de cima para baixo… atingindo somente o ar, quando o alvo se limitou a esfumar e desaparecer.

– Se é um ataque pelas costas que queres, tê-lo-ás. – Mal a Morte o disse, algo frio tocou-lhe as pernas, cortando carne e osso, cinco dedos acima dos joelhos, num golpe de lâmina que atingiu ambas as pernas.

Emma soltou um grito de pânico ao deparar-se com tal cenário. Jacinto caiu para a frente, devido ao impacto e ao peso da pá. Ele praguejou, os seus intestinos soltaram guinchos abafados, e o resto das suas pernas continuaram na vertical, como se não fosse nada com elas. Quanto a Ernestina, soltou uma gargalhada incorpórea que invadiu a tarde, tomando cada partícula e qualquer alma em redor. A criança estremeceu, sentindo uma terrível fraqueza tomar-lhe o peito. Aquela Ernestina claramente devia ser despedida de um cargo de tão grande responsabilidade.

A Morte rodou a arma e, como se cortar as pernas ao coveiro não fosse suficiente, trespassou-lhe o peito com a extremidade em espigão, cravando-a no chão sob ele.

– Se tivesses coração, ele teria parado agora – declarou, apoiada na arma, de forma quase descontraída. Talvez olhasse para o oponente, ou talvez não. Com a cabeça ainda pelo chão, era difícil ter certezas.

Jacinto soltou um rosnar de fúria. Não podia estar mais frustrado com a situação. A sua prima ganhara-lhe, não conseguira cumprir o que lhe fora ordenado, tal como Emma não o conseguira ajudar, como a carta pedia.

Parte III

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