Emma baixou-se ao lado da senhora morta e estendeu-lhe uma mão sobre o corpo, antes de começar a recitar:

“Bate e torna a bater,

Que a tua chama continue a arder;

Bate e torna a bater,

Que este feitiço não te deixe morrer!”

As pontas dos dedos pequenos brilharam, para libertarem fios alaranjados, tão finos quanto cabelos, que se embrenharam nas malhas do casaco da senhora caída, encadeando-se como um reforço. Quando terminaram de se mover, o casaco brilhava de forma viva. Emma olhou as duas crianças. Eram um palmo mais baixas que ela, e o chapéu pontiagudo tornava-a ainda mais alta.

– Fiquem ao pé da vossa mãe. E tu, toma conta deste. – Passou o gato preto para os braços de um, para depois retirar o sapo de sob o chapéu. – E tu fica com este. Tomem conta deles.

Na verdade, não falava com as crianças, mas sim com os seus dois amigos. De seguida olhou para trás, tentando perceber para onde fora o senhor Jacinto e correu para lá. Pelo caminho apanhou um graveto retorcido. Aproximou-o dos lábios, inspirou fundo e soprou, libertando uma pequena nuvem de vapor para o frio da tarde. A madeira do pau estalou e endireitou-se o suficiente para não parecer um boomerang, formando a sua nova varinha mágica. Na verdade, de mágica nada tinha. Era somente um canalizador, óptimo para feitiços que pudesse querer lançar de forma literal. Como pôr a loiça a lavar, quando se está no sofá a ler.

Jacinto avançou com a pá em riste. Ela detectara a sua aproximação e esperava-o, com o rosto cadavérico e inexpressivo voltado para si. Alguns chamavam-lhe Morte, outros nomeavam-na Ceifeira. Mas ele tratava-a pelo nome próprio. Porque, no final de contas, eram primos em segundo grau.

– Estás a passar dos limites, Ernestina.

Ela soltou uma risada, a mandíbula movendo-se para cima e para baixo. O espírito que habitava o esqueleto vestido de negro ainda não perdera o velho hábito humano de rir, mesmo sabendo que não necessitava daquele gesto para se fazer escutar.

– Não passas de um guardião dos mortos metido num saco de ossos. Nada podes contra mim. – Fincou o cabo da gadanha no solo. Era uma arma sagrada, com cerca de dois metros de comprimento, capaz de varrer qualquer alma, a sua inclusive. Teria de ter extremo cuidado.

– Ele enviou-me para te deter, por isso obviamente pensa de forma diferente.

Ela voltou a rir-se.

– Ou então foi a maneira mais simples que arranjou para se livrar de ti, Jacinto. É o meu dever ceifar as almas dos vivos, é o que tenho feito.

– Não és tu quem decide a sua hora de morte. Não tens autorização para matar ninguém a teu bel-prazer.

– Matar? Quem falou em matar? Esse não é o meu dever. Deixo isso nas mãos da Natureza. A minha lâmina nunca será maculada com sangue infecto de pecadores.

Os intestinos dele revolveram-se em resposta à irritação. O coveiro sabia bem que ela não os matava literalmente. Se matasse, ele não teria o trabalho de vigiar campas, não fosse um idiota meio podre sair de lá a roncar “céééreebrrrrooos”. Mas já estava cansado de conversas. Posicionou um pé diante de si, segurando o cabo da pá com as duas mãos e impulsionou-se na direcção dela sem aviso. Desferiu um golpe forte com a cabeça da pá, de cima para baixo. O metal retiniu contra o corpo da gadanha, e a Ceifeira recuou um passo. Ela empurrou-o de seguida com um safanão brusco e contra-atacou com a extremidade oposta à da lâmina. Jacinto viu-lhe passar junto ao rosto o brilho de um espigão afiado, mortal, que havia estado escondido na camada de neve, ervas e folhas secas que cobria o chão. Aquele não ceifava almas e era óbvio que Ernestina não se renderia.

Varreu o ar à sua frente, num golpe horizontal. A pá rasou-lhe os andrajos negros. Precisava de lhe arrancar a gadanha das mãos.

Emma observou-os, de cenho franzido, escondida atrás de uma árvore. Tirou um papel amarrotado do bolso do casaco e leu-o uma sétima vez. A mensagem que recebera horas atrás não especificava como deveria ajudar o senhor Jacinto, mas ele estava claramente em desvantagem. Ergueu o olhar para os ramos das árvores, alguns despidos, outros dobrados sob o peso da neve que se acumulara numa instável estabilidade. De trás do tronco, Emma ergueu a varinha torta e apontou-a a um desses ramos, sussurrando:

“Abana, abana e torna a abanar,

Abana-te sem parar.”

Nesse mesmo momento, o senhor Jacinto investiu contra a Ceifeira com uma pazada de todo o tamanho. Ela saltou para o lado, como se as suas pernas fossem, na verdade, de gafanhoto. A neve resvalou e caiu no local onde, um segundo atrás, estivera a Morte, acertando em cheio no coveiro. Ele praguejou a alto e bom som; Emma, pelo contrário, fê-lo num sussurro. Porém conteve, ao mesmo tempo, uma enorme vontade de rir, agarrando-se à barriga. Manteve-se atrás da árvore, esperando que ninguém tivesse dado por si.

O senhor Jacinto mal teve tempo de se afastar, quando a lâmina da gadanha lhe rasou o pescoço. Ripostou, mas varreu somente o ar frio da tarde. O corpo da Ceifeira Ernestina desmaterializara-se, antes de o metal lhe tocar. O coveiro olhou em volta, atarantado. A sua prima não parecia estar em lado nenhum, o que queria dizer que o poderia atacar de qualquer lado.

“Sopra com o fôlego dos deuses,

Sopra pelos teus três irmãos,

Sopra num ímpeto suave e varre

Neve, folhas e detritos deste chão.”

Emma levou as mãos em concha aos lábios e segredou no interior.

O vento começou a soprar, primeiro devagar, depois com um pouco mais de força, erguendo o manto de detritos e fazendo espiralar os flocos que caíam. O senhor Jacinto semicerrou os olhos. O vento tomava direcções aleatórias, ora soprando de um lado, ora soprando de outro, lançando-se sem destino. No entanto, por entre os seus movimentos incertos, havia uma zona que a neve e as folhas evitavam macular, uma zona que avançava na direcção dele. O coveiro detectou-a e, quando estava ao alcance da pá, atacou-a de rompante. Apesar de não se ver realmente aquilo em que acertara, os braços do senhor Jacinto vibraram com o impacto.

Um estardalhaço de ossos embateu contra o tronco mesmo ao lado daquele atrás do qual Emma se escondia. A queda de algo invisível revolveu o solo húmido. A criança conteve a respiração, de olhar fixo naquela zona. Era impossível ela não a ver e não ligar os acontecimentos ao chapéu pontiagudo que lhe encimava a cabeça. Apertou o graveto entre os dedos.

– Uma pagã maldita! – A interjeição veio do nada, ecoando no jardim com a voz da Morte. O chão voltou a revolver-se de súbito.

Emma recuou um passo, mas não teve tempo de fugir.

Parte II

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