A imagem no interior do espelho alterou-se e revelou uma criatura grotesca. O corpo, de forma humana, era coberta por uma hirsuta camada de pêlo negro. A cabeça, afunilada e com dois longos chifres que nasciam logo acima da testa, fazia lembrar um bode, porém, os longos caninos que sobressaiam dos lábios conferiam-lhe um ar predatório.

– Baphomet, mestre, os teus humildes servos estão aqui reunidos – declarou Jacques, dirigindo-se para a criatura no espelho. – Quais são os seus desejos?

O estranho ser olhou em redor, avaliando os homens que o rodeavam. Foi então que o seu olhar se cruzou com o de Gérard, escondido junto às escadas com os companheiros.

– Seus idiotas! Temos intrusos na câmara! – berrou o demónio.

Os cavaleiros de capa negra levantaram-se de imediato e olharam para a porta, apressando-se a tirar as espadas das bainhas.

Gérard tentou contar o número de oponentes. Eram perto de trinta contra eles os três. Não havia forma de sair com vida daquele confronto. Alguém tinha que avisar o Papa e os membros da Ordem do Templo ainda leais à Igreja.

– Apanhem-nos! – ordenou Jacques.

– São demasiados! Depressa, fujam! – alertou Gérard.

Apressaram-se a subir as escadas que tinham acabado de descer. Atrás deles, o bando de cavaleiros em fúria seguia-os de perto, ansiosos por derramarem o sangue dos três intrusos com a lâmina da espada.

Gérard estava quase a alcançar o topo da escadaria quando ouviu um grito de dor. Um olhar rápido para trás mostrou-lhe Hugues a cair por terra, com uma espada a trespassar-lhe o peito. Por muito que desejasse ir em socorro do companheiro e vingar a sua morte, já nada podia fazer.

– Despacha-te, William! – berrou para o companheiro.

Estavam já no corredor que terminava na porta de metal que conduzia à galeria. Um pouco mais e estariam de novo na floresta, onde facilmente podiam despistar os homens.

Ao alcançarem a porta de metal, William empurrou Gérard para o exterior.

– Vai!

– O que é que estás a fazer?! – protestou Gérard.

– Eles são demasiados, não conseguimos escapar os dois – explicou William. – Vai e conta ao Santo Padre do que descobriste. São essas as nossas ordens. Eu aguento-os aqui para te dar tempo.

– Não faças isto, William!

– Foi uma honra lutar a teu lado, Gérard von Esbeke. Que Deus te proteja!

Dito isto, William empurrou a porta e fechou Gérard do lado de fora.

Sem olhar para trás, Gérard pegou na tocha pendurada junto à porta e correu para o exterior, avançando pelo terreno enlameado e ensopado de água.

Ao bater-lhe no rosto, o ar fresco da noite provocou-lhe um arrepio. Estava encharcado em suor e sem fôlego. Contudo, sabia que não podia parar. Livrou-se da tocha e guardou a espada na bainha. Correu para o interior da floresta, procurando refúgio entre as árvores e os arbustos. Ia ter que despistar os homens na vegetação da floresta

***

Jacques de Poitous aguardava junto ao rochedo pelo regresso da última patrulha. Era quase dia e não havia sinais de Gérard von Esbeke. Por fim, vários cavaleiros aproximaram-se a cavalo.

– Encontraram-no?

– Lamento, senhor. Perdemos-lhe o rasto um pouco acima da ribeira. Não há sinal dele em lado nenhum…

Jacques manteve-se em silêncio durante alguns instantes. Conhecia Gérard bem demais para saber que ele não ia desistir. Era uma questão de tempo até relatar o que vira.

– Informem os nossos irmãos. Quero patrulhas em todas as estradas daqui até ao Vaticano – ordenou Jacques. – E tragam uma carroça. Temos de levar o nosso mestre Baphomet daqui. Este local já não é seguro…

O ídolo 1

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