A sonda fora destruída quase de imediato pelas defesas planetárias. No entanto, transmitira todas as coordenadas relevantes. Pelo menos era o que esperava o comandante Nebu.

Observou os instrumentos da nave. Estavam rodeados do vazio. Literalmente vazio. Nem sequer o espaço existia à sua volta. Se os escudos da nave falhassem, deixariam de existir. Por definição, estavam fora do universo e viajavam acima da velocidade da luz, num espaço criado pelos próprios cruzadores. Pensou nas outras naves. Tinha a certeza que estariam por perto, mas, sem espaço entre elas, era impossível detectá-las.

— Comandante Nebu, estamos a aproximarmo-nos do destino — anunciou o primeiro-tenente.

Achava estranho tratarem-no por comandante, até porque qualquer um deles tinha mais experiência militar que ele. Nebu era um cientista. Decerto que desenvolvia tecnologia militar, mas isso não fazia dele um soldado. Só circunstâncias tão extraordinárias como estas o poderiam colocar ao comando não de um, mas de oito colossais cruzadores, as maiores naves em serviço da nação Fuiana, cada um pilotado por mais de uma centena de seres. Logo ele que nunca tinha pilotado sequer um caça. A nebulosa rigidez hierárquica assustava-o. Do mesmo modo que o protegia.

— Qual é o nosso T? — perguntou ao primeiro-tenente, tendo o cuidado de usar o termo militar.

— Setenta e seis segundos.

Apreciava as respostas curtas e directas dos militares. Desejava que os colegas da Academia Imperial de Ciências não complicassem tanto o que era simples.

Este não era o primeiro teste desta tecnologia, mas era o primeiro em condições reais. O alvo era um planeta num braço distante da galáxia. Não seria uma batalha longa, caso conseguissem chegar ao local correcto. A grande vantagem desta tecnologia de viagem, em oposição à criação de wormholes meta-estáveis, era possibilitar a ligação entre dois pontos do universo e usar uma velocidade superior à da luz. O maior problema é que necessitava de escudos poderosíssimos, de forma a garantir uma fina camada de espaço entre a nave e o nada. Os primeiros protótipos haviam desaparecido sem rasto, desvanecendo-se no nada. Só as naves maiores conseguiam criar um escudo com densidade suficiente.

O momento crítico aproximava-se, faltavam poucos segundos. Onde estariam realmente quando as naves saíssem do espaço Gamma? Conseguiriam sobreviver à libertação de energia gerada pelo colapso do espaço em que viajavam?

— Tripulação, preparar para o combate — ordenou Nebu, inseguro, enquanto se sentava na cadeira central da ponte de comando. — Primeiro-tenente Färe, faça a contagem.

— Atenção tripulação, saída do wormhole em 10 segundos – transmitiu o primeiro-tenente para toda a nave.

De súbito, lembrou-se dos cálculos que fizera um par de anos antes. E se se tivesse enganado no factor de conversão de energia? E se não fosse suficiente? Färe continuava a contagem decrescente. Tinha de agir de imediato.

— Färe, desactivar as armas — gritou, fazendo com que várias cabeças se voltassem na sua direcção e o primeiro-tenente ficasse com um ar incrédulo. — Redireccionar toda a energia para os escudos.

A surpresa não durou mais que uma fracção de segundo antes da ordem ser cumprida. O último pensamento de Nebu antes de deixarem o espaço Gamma, foi de gratidão por o primeiro tenente não ter hesitado. Bendita a hierarquia!

Uma sobrecarga de energia inundou os instrumentos. Os escudos falharam uns segundos depois. O radar gravitacional ficou cego logo a seguir. Várias luzes começaram a piscar no painel de instrumentos. Os sistemas de renovação de ar, comunicações e gravidade artificial foram desligados. Sentiu-se a fugir da cadeira. A iluminação foi reduzida. A nave fora atingida por uma massiva descarga electromagnética.

— Tenente, reactivar o escudo assim que possível — comandou, um pouco mais confiante, mesmo sabendo que a ordem agora era redundante.

Os sensores foram os primeiros a conseguir reiniciar. A estação espacial jazia parcialmente desintegrada junto a eles, alguns dos detritos precipitavam-se, atraídos pela gravidade do planeta. A formidável plataforma defensiva fora obliterada pelo colapso do espaço Gamma. Um golpe de sorte. Tinham ultrapassado e estavam fora de alcance da maior parte das defesas concentradas à volta do nó espacial. O nó é on único ponto que pode ser usado para criar um wormhole meta-estável, que a maioria das naves usava para iniciar ou terminar as suas viagem. Outros sete pontos em formação surgiram à sua volta. As outras naves tinham conseguido efectuar a viagem. Sorriu, a missão estava a ser um sucesso. O sorriso só durou até se aperceber que vinham bastante danificadas.

— Escudos reactivados, 10% de potência — informou Färe.

Quatro outros pontos surgiram no visor. A sonda não os tinha detectado. Armas planetárias. Satélites gigantes, com um poder de fogo enorme. Bastava um disparo para destruir um cruzador. Tomavam posição de ataque.

— Transmitir para todas as naves: colocar toda a potência nos escudos – comandou, sentindo a pulsação acelerar.

— Escudos ao máximo.

— Iniciar acelerador primário.

A primeira arma disparou nesse momento. O feixe de partículas atingiu a lateral de uma nave aliada, atravessando o canhão de partículas. Nebu lembrou-se do momento em que os torpedeiros venceram as defesas do nó espacial de Guiras VII, o seu planeta natal, obrigando-os a entrarem no espaço Gamma com os cruzadores ainda inacabados. Não fazia ideia se haveria sobreviventes.

— Disparem assim que estiverem prontos! — ordenou Nebu, agarrando-se com força à cadeira.

Quatro cruzadores dispararam quase em simultâneo. Os feixes cruzados cortaram a arma planetária em dois, lançando detritos em todas as direcções. Os satélites ripostaram, os feixes azulados a fenderem o negrume do vazio, iluminando de forma terrível os cascos das naves mais próximas. A batalha tornou-se numa confusão difícil de seguir. Mal as armas gémeas de cada cruzador se encontravam carregadas, disparavam contra o alvo mais próximo.

A nave rodou pesadamente sob um novo eixo. As luzes desligaram-se momentaneamente.

— Escudos?

— A reiniciar!

— Casco?

— Danos nos sectores F5, G5, T1 e T2.

— Selar e prosseguir!

Nesse momento, um clarão cegou-o. Um dos cruzadores acabara de ser destruído com um tiro certeiro na ponte de comando. As duas facções continuaram a trocar tiros até que os propulsores da última arma foram desactivados. Foi a nave de Nebu que deu o tiro de misericórdia ao satélite desgovernado.

— Detecto fragatas inimigas a deixarem o planeta — informou o técnico de radar.

— Transmitir para todas as naves: retirar.

Os cruzadores começaram a acelerar na direcção do planeta. Os escudos, ainda a recuperar, estavam reduzidos a metade da potência. Estavam vulneráveis. Bem mais do que gostaria.

— Qual o nosso T?! — gritou Nebu.

— Vinte segundos até atingirmos a velocidade necessária.

As fragatas estavam a aproximar-se. Eram pelo menos duas centenas. Cada tiro disparado conseguia destruir uma fragata, mas, apesar disso, cada ataque ia enfraquecendo os escudos. A diferença numérica era excessiva, tal como em Guiras VII. Nebo sentiu-se estremecer. Os primeiros disparos inimigos foram absorvidos pelo escudo. Nenhum dos cruzadores interrompeu a retirada para disparar contra os atacantes.

— A entrar no espaço Gamma em 3 — informou Färe.

Foram atingidos mais duas vezes antes da nave entrar no vazio. A tripulação abandonou os seus lugares para o ritual de vitória, apesar dos semblantes carregados. Iam voltar a casa. Aliás, para o que restasse dela.

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