Uma. Duas. Três…

Várias, milhares. Nessa altura, não era ainda consciente. Nessa altura, as milhares de pinceladas que se marcavam na tela pouco mais eram que tinta, talento e técnica.

Mas esses eram tempos de que não tinha memória, conquanto estivesse ciente de que haviam acontecido, num passado em que Basil entrava.

O conhecimento da sua própria existência fora algo, parecia, que viera com o contrato. O almejo que tanto tinha de espontâneo quanto de profundo selara as assinaturas. Saberia Dorian daquilo a que se destinava? Não. Bem sabia que não. O que por Dorian passava, também por ele corria. Os saberes daquele que fora o mais belo e inocente dos jovens pertenciam-lhe também a si. As dores. As vivências. Os impulsos.

Tudo Dorian partilhava consigo.

Soubesse o rapaz do preço do seu desejo, nenhuma diferença haveria. Não tinham sido, afinal, as escolhas seguintes realizadas em sapiência? Não sabia Dorian o desfecho que por sua mão causaria em Sybil?

Ah. A pequena e bonita Sybil. A pobre e triste Sybil. A marca que dela obtivera ainda lhe latejava nas feições: a materialização inegável de que a paixão pouco mais era que fugaz, e o encanto, esse enganador encanto, um fantoche suspenso em cordas gastas. Nunca, contudo, a esqueceria. Aos outros sim. Confundia caras, varria nomes. Que eram amantes senão a presença do momento e a sombra indistinta do passado? A marca de Sybil tinha apenas identidade pelo tudo que com ela viera. Ofertara-lhe a mudança, a carícia sobrenatural, a desconfiança de que algo se encontrava em curso.

Apenas por isso a recordava. Por si. Por Dorian.

Devolver-lhe-ia Sybil, no final. Tudo o que de Dorian guardava era um empréstimo a prazo certo. Ouvia-lhe já os passos nas escadas: vigorosos, na sua falseada juventude. A porta do sótão rangeu, prefaciando o reencontro há muito prometido. Escutou o hesitar na respiração postada diante de si. Sentiu a decisão no roçagar do pano que o tapara por tanto tempo. O tecido deslizou, rápido como o tempo de uma vida, caindo ao encontro do soalho.

Os olhos azuis fitavam-no, temerosos. Na sua imensidão, o horror tomou lugar. O rosto caquéctico, pelos anos e pecados deformado, sabia-se explorado. Tudo o que a alma de Dorian sofrera, era seu. Tudo o que Dorian desejava, a sua figura lhe mostrava: na sua metamorfose, tornara-se tanto retrato quanto espelho.

Vane desapareceu. Começarei de novo. Começarei melhor.

Raiva. Frustração. A hipocrisia que era aquele desejo ria-se de Dorian, através do retrato. Os dedos jovens retesaram-se em torno da faca que trouxera consigo, um elo ao assassínio de Basil.

Lamentá-lo-ia, se Dorian lhe tivesse dado a capacidade de lamentar por outrém.

A lâmina perfurou o ar, num atentando à tela amaldiçoada, e o arquejar surpreso abandonou os lábios que gretavam.

O corpo caiu num baque: enrugando-se e encarquilhando-se. Os olhos enevoavam-se, tomando a velhice que sempre fora deles.

E, contudo, viam. Observavam a carcaça que cedia ao tempo, de lâmina espetada no coração. Sentiam o reparo que pela tinta corria, o rejuvenescer dos traços eternos que pela tela se reformavam.

Julgara, o homem tolo, poder escapar-se de maneira similar à fuga que fizera de Basil, Sybil, Verne, e tantos, tantos outros.

Ignorara, ou não quisera ver que, na sua acção, acabava, assim, o seu contrato.

E não mais o retrato lhe seguraria a aparência.

Retrato de um Contrato imagem

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