Havia já dois anos que Simão falhava na sua espera pelo Pai Natal. Mas aquele ano seria diferente: agora era um menino crescido, e conseguiria manter-se acordado. O tio rira-se quando partilhara a sua resolução durante o jantar, entre garfadas de bacalhau e couve de Natal. A avó dera-lhe pancadinhas na cabeça, com carinho, dizendo-lhe que quem trazia as prendas era o Menino Jesus, não o Pai Natal. Simão não lhe disse que não, porque já tinha aprendido que os mais velhos não gostavam quando achavam que sabiam alguma coisa e não sabiam. Eram muito orgulhosos.

A Missa do Galo tinha sido um momento de perigo. O incenso, os cantares, a voz calmante dum dos senhores em cima do Altar… Quando Simão acordou, estava com a cabeça encostada ao ombro do pai, balançando enquanto era carregado escadas acima. Piscou os olhos, sonolento, e algum queixume confuso deve ter-lhe fugido, porque o pai ajeitou-o no colo.

“Então, campeão?”

Voltou a dormitar enquanto lhe tiravam as roupas bonitas e as substituíam pelo pijama. Não sentiu quando o enfiaram na cama, nem quando ficou sozinho. Quando voltou a abrir os olhos, contudo, as luzes estavam apagadas e a casa silenciosa.

Não sabia o porquê de ter acordado. Fora algo repentino, um consciencializar sobressaltado. Achou que não estava sozinho no quarto, mas após segundos a ouvir a própria respiração, conseguiu conter a vontade de ir ter com os pais.

E, de repente, lembrou-se. Era a noite em que deveria esperar pelo Pai Natal. Fugindo dos cobertores, saiu para o corredor, os carapins almofadando-lhe os passos. As luzes do pinheiro, ainda acesas, iluminavam tenuemente as escadas em sombras alternadas de azul, vermelho e amarelo. Seguiu as cores até à sala, onde a decepção já o esperava: empilhados em frente à lareira, os presentes natalícios diziam-lhe que tinha chegado tarde demais.

“Oh!”

Não fora naquele ano, afinal. Ainda não era crescido o suficiente para se aguentar acordado. Espreitou a cozinha, onde o prato de biscoitos já se encontrava desfalcado. Tirou um para si e voltou para junto dos presentes, sentando-se de pernas abertas. A tremura dos lábios pelo falhanço foi substituída pelo empolgamento de brinquedos novos. Ademais, tinha a certeza que no próximo ano sim, iria conseguir. Foram poucos os segundos necessários para que papel colorido se encontrasse espalhado à sua volta, e Simão se debatesse com as caixas de cartão. Carrinhos, chocolates… A bicicleta que tinha estado a pedir desde sempre! (Dois meses, em contagem de adulto.) Estava já no selim e preparado para a experimentar em algumas voltas pela sala quando o ruído o imobilizou.

“Papá?”

O barulho repetiu-se, acompanhado pela queda de alguma fuligem sobre as brasas que ainda resistiam à noite. Simão saiu da bicicleta, pousando-a no chão e aproximando-se da lareira. O coração forçava-se contra o peito. Teria o Pai Natal voltado? Ter-se-ia esquecido de alguma coisa?

Afinal, ia mesmo ser aquele ano.

O vulto caiu com um baque seco sobre as brasas. O grito estridente assustou Simão, fazendo-o afastar-se, enquanto a figura – demasiado pequena e esguia para que pudesse ser o benfeitor de barbas brancas – fugia para fora da lareira.

“Ai! Ai! Ai!”

Simão ficou tonto na tentativa de acompanhar os saltos e choros da criatura. Não era o Pai Natal. Isso estava claro. Não era nada, nada, como o Pai Natal devia de ser. Parecia mais um dos duendes que por vezes o ajudavam: mais esquelético, mais verde, mais curvado. E mais nu também.

“Quem és?”

A criatura imobilizou-se, de costas para si. A carantonha virou-se para o rapaz, o nariz comprido espreitando por cima do ombro esquelético. As luzes do pinheiro, em mudança de amarelo para vermelho, sulcaram-lhe as feições, tornando-o ainda mais feio do que já deveria ser. O medo de Simão não apareceu. Tinha visto o duende gritando de dor por conta das brasas e o menino lembrava-se, ainda, de quando ele próprio se fascinara pelo vermelho brilhante, tentando pegar numa brasa. Simão sabia o que era sentir a dor que o duende estava a sentir.

“E quem és tu?”, retorquiu o duende.

“Eu vivo aqui”, ofendeu-se Simão.

“Eu vivo ali”, defendeu-se o duende, um dedo nodoso apontado para cima. Estava agora de frente para o rapaz, e Simão conseguia ver o pedaço de pano que ele trazia apertado à cintura. “Quem és tu?”

“Simão.”

“Ah!” O duende animou-se. “Assim, sim. A minha mãe chama-me Masi.”

O duende sentara-se de pernas cruzadas, ao lado da bicicleta. Simão aproximou-se, possessivo, segurando no presente pelo volante. Masi, contudo, parecia consideravelmente mais atraído pelos papéis de embrulho rasgados. Passava-os pelos dedos, esfregando-os, as orelhas agitando-se perante o ligeiro rufar que a acção causava. Uma careta deixou clara a sua opinião quando levou um pedaço à boca. Não demorou para que descobrisse os encantos de se entreter com a sua destruição.

E ainda menos para que Simão se lhe juntasse.

Era uma questão de evolução natural. Bolas de papel amarfanhado começaram a voar, acertando nas pernas da mesa, na bicicleta esquecida e, vez ou outra, num braço erguido para proteger a cara. Simão sempre fora bom em jogos de fuga, mas Masi tinha um dom para se esgueirar que ultrapassava a capacidade humana. O clarão súbito de um papel que aterrara nas brasas acompanhou o bater de uma porta no andar de cima. Simão parou a meio de um arremessar, enquanto Masi procurou, sem sucesso, esconder-se entre as agulhas do pinheiro.

“Que árvore é esta!?”, reclamou, num guinchar ofendido.

“Sssshhhh!”, alertou Simão, sabendo, por experiências passadas, o perigo de ser encontrado ali pelos pais quando era suposto estar no seu quarto, a dormir. Não gostava de castigos, ainda menos em alturas de festa.

O rosnido pareceu, inicialmente, como uma barriga com fome. Só quando Masi falou é que Simão percebeu ser zanga, e não a necessidade de comida, o que motivava o ruído.

“Mandar-me calar, a mim? Sou o quê, para me dares ordens?”

Simão franziu o cenho. O que é que ele era? Como é que Masi não sabia o que era?

“Um duende.”

Masi não gostou.

O corpo rápido da criatura saltou pelo ar, aterrando sobre o rapaz. Simão gritou, abanando os braços, num impedimento a que Masi lhe alcançasse a cara. O pinheiro caíra, partindo bolas e fundindo parte das luzinhas. A penumbra da sala aumentou exponencialmente.

“Um duende! Um duende!”, guinchava Masi, em indignação, as mãos ossudas tentando chegar ao rosto de Simão. Um arfar quebrou a ladainha, resultado do pontapé que o rapaz conseguira desferir. Masi soltou Simão, rolando para longe. Encolheu-se perto do pinheiro caído, cujas luzes pintavam agora a sala em tons azulados. O corpo deformado começou a tremer, em soluços abafados. O choro fugia também de Simão, assustado com a súbita violência do outro, e a incompreensão de onde a dita viera. Quando brigava com os outros meninos no infantário, era porque alguém tinha tirado alguma coisa a alguém. Mas ele não pegara em nada que fosse de Masi, nem Masi pegara em nada que fosse dele.

“Ma-Masi”, chamou, o choro deformando-lhe as palavras. Conseguira levantar-se, apesar do medo e da confusão, preparando-se para caminhar até ao outro, quando as últimas brasas se apagaram, cobertas pela quantidade considerável de fuligem que caíra pela lareira. O som de osso a arrastar em pedra preencheu a sala.

Desta vez, Simão não considerou a hipótese de se tratar do Pai Natal. Recuou, tropeçando sobre a bicicleta e caindo sobre o brinquedo. A carantonha, réplica aumentada da de Masi, espreitou pela abertura. Os olhos redondos fixaram o rapaz, antes de se desviarem pelo restante da sala, acabando por pausar em Masi, que procurara, sem sucesso, encobrir-se entre as agulhas do pinheiro. O duende guinchou quando o braço esquelético se alongou na sua direcção, acompanhado por um suspiro profundo. Os dedos prenderam-no pelo cachaço, ignorando os protestos exasperados.

“Quantas vezes preciso de te dizer…”

A voz pareceu trovejar, apesar de não ter sido mais que um sussurro. Simão sentiu a humidade que lhe tomou as calças do pijama.

“Mas, mamã, foi só para brincar!”

As sombras azuis metamorfosearam-se em nuances amarelas, acompanhando o desaparecimento de Masi e da criatura gigantesca. Os protestos do duende foram-se atenuando, até a sala regressar ao seu silêncio inicial.

Demorou alguns minutos para que Simão se levantasse, precisando de desprender uma das pontas do pijama, presa na bicicleta caída. Num passo rápido, subiu as escadas, ignorando a árvore caída e os brinquedos novos. Empurrou a porta do quarto dos pais, deixada sempre destrancada, e tacteou o seu caminho até à cama.

“Papá”, chamou, puxando os cobertores que cobriam o vulto escurecido do pai. “Papá.”

O pai roncou, entreabrindo os olhos. A resposta saiu-lhe num arrastar.

“Simão?”

“Papá, posso dormir contigo?”

Talvez no próximo ano já fosse um menino crescido o suficiente para esperar pelo Pai Natal. Talvez no próximo ano já fosse capaz de se manter acordado.

Mas nunca mais o voltaria a fazer.

imagem pela chaminé abaixo

Anúncios