Dois minutos depois de Prince decidir passar pelas brasas, recebeu uma chamada da secção de engenharia.

– Comandante, é o Miguel. Precisava que viesse aqui. Com urgência.

Sentindo um acesso de azia, levantou-se e foi, quase a correr, até à sala das máquinas. Uma vez lá, encontrou Miguel debruçado sobre o conteúdo de uma caixa, que reconheceu de imediato. Era o contentor dos drones, e os aparelhos do tamanho de um pardal estavam todos partidos.

– Miguel, o que é que se passou?

– Bem, há um bocado a Maria ligou para aqui e disse que havia um problema qualquer com os aparelhos, e pediu-me para dar uma olhada. Eu estava a terminar umas calibrações nos motores auxiliares e disse-lhe que os trouxesse para aqui, que os via mal pudesse. Ela apareceu aí, pousou a caixa, e passado um pouco foi embora. A murmurar qualquer coisa, não percebi o quê.

– Os drones já estavam danificados?

– Acho que sim, não me pareceu que ela tivesse mexido na caixa quando estava aqui. Mas não estava muito atento, confesso. – Dito isto, assumiu um ar mais grave. – Comandante, lamento dizer, mas os drones estão para além de qualquer conserto. Os três.

– Isto é um desastre. – Prince dirigiu-se ao intercomunicador e pressionou um botão. – Professor? – Nenhuma resposta. Pressionou outros botões e chamou o académico, sempre sem resultado. Entretanto, ouviu Carlos perguntar ao irmão:

– Sabes onde está o soldador laser? Tinha-o na bancada há pouco e agora não o consigo encontrar.

Prince ficou gelada. Saiu a correr em direcção à parte central da nave. Entretanto ouviu Smith chamar por ela no sistema central de comunicação:

– Comandante, venha já ao refeitório! – A aflição na voz do piloto praticamente confirmou os seus receios – É o Professor! Está ferido!

Momentos depois, a comandante deparou-se com um cenário horrendo. O piloto e o navegador debruçavam-se sobre Klemt, que tinha a cara e parte dos braços queimados. O homem nem gemia, apenas se ouvia a sua respiração pesada.

– Levem-no imediatamente para a enfermaria!

– Muito bem, comandante – respondeu Tomasson, que parecia ligeiramente mais composto que Smith.  – Mas duvido que o autómato médico dê conta de ferimentos tão graves.

– É tudo o que temos. Pelo menos pode tirar-lhe as dores.

– Como é que isto foi acontecer? – O piloto repuxava os próprios cabelos, num gesto de impotência – Ouvi-o gritar e quando cheguei ele estava assim.

– Aqui está tudo em ordem – constatou o navegador enquanto tentava erguer o ferido. – Nenhum equipamento queimado ou rebentado, nem sequer comida quente. Como é que ele se queimou desta maneira?

– Não se queimou, foi queimado – respondeu Prince, fazendo os outros dois imobilizarem-se a olhar para ela. – Onde está a Maria?

Como em resposta, sentiu a nave estremecer. Um alarme soou e as luzes brancas normais foram substituídas por luzes vermelhas de emergência.

A comandante saiu a correr em direcção à ponte.

“Não, não, não! Isto não pode estar a acontecer! Como fui tão burra?”

Quando entrou na ponte viu Delforte a queimar os painéis de instrumentos com o soldador laser.

– O que pensas que estás a fazer?! – gritou-lhe. – Pára imediatamente!

Precipitou-se na direcção da académica, travando no momento em que esta lhe apontou o soldador.

– Para trás! – ordenou a jovem. – Bruxa blasfema. Não me vais impedir de fazer o que está correcto!

– “Bruxa”? Mas tu estás doida? – Pensando bem, era mais uma pergunta de retórica, considerou uma parte da mente da comandante que não estava assoberbada com o horror da situação.   – O que é que tu fizeste, Maria?

– Fiz o que tinha de ser feito! Vocês estão todos feitos com o Anti-Cristo!

“Oh, que maravilha. Então és uma dessas?” pensou Prince, enquanto a outra continuava:

– Eu não queria acreditar no que vocês estavam a fazer, queria confiar em vocês. Foi estupidez minha. Quase me enganaram, mas a minha fé foi mais forte! Sim, Deus ajudou-me a perceber! Quando saltámos, ficou tudo claro! O vosso plano maldito para destruir a fé não podia ir em frente! E cabia-me a mim impedir-vos!

Enquanto se rejubilava com as suas acções supostamente divinas, Delforte distraiu-se momentaneamente, o suficiente para que Prince lhe arrancasse das mãos o soldador. As duas envolveram-se em confronto corpo-a-corpo, com a mais nova, de olhar esgazeado e munida da força dos ensandecidos, a tentar esganar a comandante, enquanto vociferava qualquer coisa como “Não permitirás que a bruxa viva”. Prince conseguiu acertar-lhe com o soldador na cabeça, derrubando-a. Delforte ficou aninhada em posição fetal no chão. Ainda conseguia repetir uma frase em voz baixa:

– O Salvador será salvo. O Salvador será salvo.

Prince decidiu que a mulher enlouquecida, de momento, não era mais uma ameaça. Voltou-se para os painéis estragados. Os comandos estavam derretidos; Delforte devia ter mexido neles antes de os destruir, porque um dos monitores que ainda funcionava indicava uma perda progressiva de altitude.

A Star of Bethlehem estava a entrar na atmosfera. Era o fim. A nave tinha sido construída exclusivamente para se deslocar no vácuo; o casco não tinha os escudos térmicos necessários para resistir ao atrito da entrada. Iam começar a arder dentro de momentos, já sentia o calor.

Uma voz electrónica informou, friamente, através dos vários comunicadores da nave:

– Protocolo Zero iniciado. Detonação em quinze segundos.

Prince baixou a cabeça ao escutar o anúncio que qualquer viajante do tempo esperava nunca ter de ouvir. Não havia nada a fazer. O Protocolo Zero era a salvaguarda final imposta pelo CCC em todas as expedições de documentação histórica: uma vez que, na teoria, até um parafuso abandonado proveniente do século vinte e cinco poderia criar uma distorção temporal, em caso de compromisso da expedição (como era o caso), toda a nave seria vaporizada por uma bomba de antimatéria, numa explosão eficiente que não deixaria uma partícula intacta.

Enquanto escutava a contagem decrescente, um dos últimos pensamentos da comandante foi que, pelo menos, não ia ter tempo de assar viva dentro da Star.

O outro pensamento, que se começou a formar enquanto fitava a causadora do desastre, e que nunca chegou a terminar, foi:

“Espero que estejas contente, minha grandessíssima…”

Era noite na Judeia.

Três sábios que tinham previsto, ao ler as estrelas, que um Messias ia nascer, tinham encetado viagem para o ir presentear, um com ouro, outro com incenso e outro com mirra. Recentemente, tinham-se encontrado uns aos outros no deserto e resolveram seguir caminho juntos.

Infelizmente, e apesar da sua sabedoria, não conseguiam pôr-se de acordo quanto à localização exacta do local do nascimento.

Uma vez mais, resolveram recorrer ao auxílio das estrelas.

E então, um deles observou uma pequena estrela cadente, que parecia arder lentamente, ao contrário do que era habitual nesses casos. Alertou os outros, que ainda a conseguiram ver, deixando um rasto durante uns segundos, antes de desaparecer num clarão mais intenso.

Era um sinal, sem dúvida.

Satisfeitos com o que viram, decidiram que era para Belém que se deviam dirigir.

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