A Star of Bethlehem atingira quase a velocidade máxima. Prince mandou que todos se sentassem nos respectivos postos e prendessem os cintos. Iam ter de desligar a gravidade artificial antes de darem o salto, porque o gerador gravitacional interferia com o cronodeslocador e arriscavam-se a ir parar ao século errado.

Toda a tripulação, embora traduzindo eficiência em todos os seus actos, emanava alguma ansiedade perante o momento que se avizinhava. Isto é, toda a tripulação excepto Maria, cujo rosto era uma máscara de impassibilidade. Parecia completamente desligada de tudo em seu redor.

“Bolas, já a tinha visto amuada antes, mas isto é um exagero”, pensou Klemt.

– Muito bem – começou a comandante – Smith, velocidade?

– 99,9% da velocidade da luz e a acelerar, Comandante. Rota bloqueada e de acordo com a navegação. Atingiremos a velocidade da luz dentro de um minuto e vinte segundos.

– Tomasson?

– Coordenadas cronológicas inseridas e bloqueadas no sistema, comandante. Cronodeslocador ligado e em stand-by até atingir velocidade da luz.

­Prince ligou o intercomunicador para a secção de motores, na traseira da nave:

–  Ibañez e Ibañez, tudo em ordem na sala das máquinas?

– Afirmativo, comandante. Motores em condições óptimas de funcionamento – respondeu Miguel.

– Deslocador cronológico activo e sem problemas – respondeu Carlos.

– Excelente. Tudo pronto, então. Connor?

– Velocidade da luz dentro de trinta segundos.

A comandante virou-se para os académicos. Klemt estava hirto, nunca tinha dado um salto no tempo. Provavelmente ia ficar desorientado, como acontecia com os iniciantes. Possivelmente, poderia vomitar. Prince esperava que não. Maria, por outro lado, estava calma. Quase se diria demasiado calma…

– Velocidade da luz em dez segundos… nove… oito…

– Cronodeslocador a postos, comandante – reforçou “Tom-Tom”.

– Cinco… quatro… três… dois… um… velocidade atingida!

– Activar cronodeslocador! – ordenou a comandante.

Se alguém conseguisse acompanhar a Star de modo a poder vê-la no momento do salto, provavelmente ficaria decepcionado com a simplicidade quase anticlimática do mesmo. Nada de relâmpagos, clarões luminosos, explosões ou labaredas. A nave pura e simplesmente deixou de estar lá.

E, de repente, quase dois mil e quinhentos anos antes, no mesmo local, a nave materializou-se de modo igualmente inconspícuo.

– Salto completo, e com aparente sucesso, comandante – anunciou o navegador, satisfeito. Os sensores estão a mapear as estrelas visíveis para confirmação da data.

– Muito bem, comecem a desacelerar e vamos regressar ao sistema solar. E activem os geradores gravitacionais, parece que o Professor vai precisar…

Klemt estava, de facto, com um ar agoniado, e a ausência de gravidade não o devia estar a ajudar. Maria, por outro lado, parecia continuar calma, calma demais para quem acaba de dar o primeiro salto no tempo… excepto por um tremor fino em ambas as mãos.

“Hmm, esta é nova. Se calhar tem a ver com a repressão da ansiedade”, pensou Prince. Com a sua experiência de tantos saltos, já quase esquecera o efeito esmagador que o primeiro salto podia ter num indivíduo… Especialmente um salto desta magnitude, que até a ela fazia sentir desorientada.

No dia seguinte, e à medida que se dirigiam para o sistema solar, após corrigirem a trajectória de acordo com a posição contemporânea do mesmo, encetaram os preparativos para a documentação do nascimento de Cristo. De acordo com os cálculos e com o estudo levado a cabo pelo Professor (que passara anos a tentar determinar a data correcta), devia ocorrer dentro de uma semana. Tempo suficiente para testarem os drones que iam registar o evento, e de localizar o sítio preciso. Sempre invisíveis e a partir de órbita, claro.

O Professor Klemt parecia estar a recuperar bem, até melhor do que seria de esperar num maçarico que tivesse a sua estreia num salto daqueles. Smith e Tomasson até diziam que o queriam como tripulante regular.

Já no que dizia respeito a Maria Delforte, a história era outra. Quando foi desempacotar o equipamento, já não tremia, mas os gémeos contaram à comandante que a ouviram a falar sozinha a maior parte do tempo. Um deles dizia que ela rezava, o outro estava convencido que a tinha ouvido a rir a propósito de nada.

Prince não estava satisfeita com esses relatos, naturalmente. Decidiu mantê-la debaixo de olho. O Professor confiava inteiramente nela. Já a comandante não. Habituara-se, ao longo da sua carreira, a ler as pessoas, e embora Delforte aparentasse ser uma pessoa forte, especialmente nas suas convicções,  Kristina via nela alguém com uma fragilidade muito bem disfarçada. Receava que toda a missão, e agora o salto, a fizessem colapsar. Sabia que ela e Klemt tinham tido uma discussão no início da viagem, mas o académico mais velho apenas lhe dissera que se tratava de uma “divergência de opiniões”.

Só esperava que ela não se fosse abaixo. Não tinham ninguém que soubesse operar os drones tão bem como ela. Klemt tivera algum treino, mas era manifestamente trapalhão, e não podiam dar-se ao luxo que ele fizesse um drone esbarrar nalguma coisa ou até em alguém. Não adiantava nada que os aparelhos tivessem silenciadores e distorcedores de luz para que ninguém os pudesse ouvir nem ver, só para que algum operador inepto fizesse um deles esbarrar na cabeça de um Rei Mago ou outro desastre do género. Seria o fim deste tipo de missão, nunca mais seriam autorizados pelo CCC a visitar nenhum evento histórico.

Isso se não alterassem o curso da história. A probabilidade era pequena, mas já estavam a apostar tanto na missão. Admirava imenso a coragem do Papa em promover a mesma, e recordou toda a turbulência política e religiosa dos últimos meses… houvera mesmo radicais a acusar Francisco VII de ser o Anti-Cristo.

Enfim… Havia que ser optimista.

Smith informou-a que entrariam no sistema solar no espaço de horas, e continuavam a desacelerar. Em breve chegariam à Terra.

No segundo dia após o salto, chegaram a casa, por assim dizer. Ordenou ao piloto que colocasse a nave em órbita; iriam fazer um varrimento de superfície ao planeta antes da missão principal; já que gastavam biliões nesta missão, iam aproveitar para obter o máximo de informação, a qual sem dúvida ia manter os historiadores a dar pulos de excitação durante uns anos.

Smith assim fez, e pediu para sair um pouco.

A comandante assentiu e reclinou-se na cadeira. Estava sozinha na ponte. Se calhar ia aproveitar para dormitar um pouco. A nave estava a circular em piloto automático. Fechou os olhos e relaxou…

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