No segundo dia de viagem já tinham acelerado quase até metade da velocidade da luz, um novo recorde, dizia Connor. A Star tinha os melhores motores iónicos que o dinheiro podia comprar, e o projecto First Noël não tinha falta de fundos. Agora, o “Ibañez dos motores” (era como Connor gostava de lhe chamar, só para o irritar, fazendo de conta que não sabia qual o serviço atribuído a cada gémeo) só tinha de os manter afinados. Mais um dia e iam poder saltar para o passado. Depois disso, era inverter o trajecto, desacelerando à medida que voltavam para o sistema solar.

Conhecer Cristo! Que ocasião! Já houvera expedições destas antes para documentar o passado, aliás, era tudo o que o CCC permitia que se fizesse, mas nunca um momento tão marcante. Iam refazer história, por assim dizer, e Connor mal conseguia conter a excitação.

Mas nem todos os membros da tripulação partilhavam o estado de espírito empolgado do piloto. Uma pessoa em particular sentia-se muito apreensiva com todo o empreendimento. Maria estava sentada em silêncio na mesa da pequena divisão onde preparavam e comiam as suas refeições, meditando sobre uma chávena de café instantâneo. Ou pelo menos, do que passava por café naquela nave. Podiam estar quase a entrar no século vinte e seis, mas algumas coisas não mudavam. Por exemplo, os americanos continuavam a produzir uma zurrapa castanha que nada devia aos cafés italianos a que estava habituada. Mas não era o café que preocupava a jovem investigadora, era a expedição. O que iriam descobrir poderia mudar todo o cristianismo, e ter imensas repercussões na sociedade em geral. Mesmo mantendo o resultado em segredo até análise pelos maiores cérebros da teologia, da sociologia e de outras “logias”. Mas, se descobrissem que Cristo não era nada do que se acreditava, do que a Igreja defendia? Pior ainda… a ideia até a gelava por dentro… e se descobrissem que Cristo nem existira?

Estava perdida nestas ruminações quando o seu mentor a interrompeu.

– Aposto que sei em que estás a pensar…

– Claro que sabe, Professor. Naquilo que nos fartámos de discutir nos últimos tempos.

– Continuas com reservas acerca do projecto todo. – Não era uma pergunta.

– Sim.

– No entanto, não quiseste deixar de vir. – Maria levantou os olhos da chávena, fitando Klemt.

– Ora, já me conhece bem o suficiente para saber que seria incapaz de não vir.

– Mesmo sabendo que o que vamos investigar pode destruir todo o teu sistema de crenças? – Ironicamente, Klemt não era cristão. De facto, não seguia nenhuma religião. Muitos opositores do projecto haviam insinuado (ou até acusado) que ele queria destruir, numa atitude insidiosamente iconoclasta, uma figura essencial do Cristianismo. Nada se afastava mais da verdade. Tal como muitos indivíduos indisciplinados eram atraídos por organizações rígidas, o académico agnóstico tinha um fascínio tremendo e uma atracção apaixonada pelas religiões. Só não acreditava nelas. Mas considerava que o Cristo era uma das figuras mais importantes da História, fosse humano ou divino, e que era quase uma obrigação sua dar a conhecê-lo ao mundo.

– Sim, Professor. Se a minha fé não pudesse ser posta à prova… não seria verdadeira fé, não é verdade?

– Sim, suponho que é.

– Preocupa-me é que a nossa viagem, por si só, possa interferir negativamente com o nascimento…

– Tolices! Não me venhas com essa treta neoschrodingerista de “a observação de um evento histórico por cronodeslocados pode alterar o evento”. O projecto foi todo escrutinado pelo CCC, sabes que nunca nos teriam deixado vir se achassem que havia o mais pequeno risco de alteração da história. Temos protocolos dentro de protocolos de segurança. Vamos ficar em órbita, os drones de gravação que vamos enviar para a superfície são perfeitamente invisíveis e inaudíveis… Mas tu sabes isso tudo, até melhor que eu, já que os vais comandar.

– É verdade – anuiu ela – E de qualquer modo, na pior das hipóteses, se não descobrirmos nada, ou se descobrirmos algo… perigoso, por assim dizer, o mais certo é o comité de investigação não divulgar os achados, certo?

Klemt ficou silencioso de repente, o que alarmou Maria.

– Certo? – quis ela confirmar.

– Maria… então não te informaram.

A jovem ficou completamente pálida.

– Informarem-me? Sobre quê?

– Antes de partirmos, na última reunião… Julguei que já soubesses…

– O quê?! – A voz de Maria tornou-se mais aguda.

– Maria, o Papa decidiu que é para divulgar qualquer achado. Não importa o que seja.

– Mas isso é uma loucura! Não posso crer! Ele quer arriscar-se a destruir completamente a Igreja?!

– Creio que ele está mesmo muito confiante na nossa missão. Ou não decidiria isso. Uma questão de fé, no fundo, não?

– Ai sim? E se descobrirmos que Cristo era um deficiente, ou que não nasceu? Ou que era uma mulher? Onde é que a fé nos vai deixar?

– Acalma-te, sim? Ainda há pouco falavas da necessidade de colocar a fé à prova. Era conversa fiada ou falavas a sério? Tinhas razão, a fé tem que ser testada. Creio que o Papa está a fazer isso. E de resto, ele não é um idiota. Alguma coisa de bom há-de conseguir tirar de tudo isto, independentemente do resultado.

– Para alguém que nem sequer é religioso, agora é o Professor que fala de fé como um entendido. Vai-me perdoar se não concordo com tudo isto. Devíamos voltar para trás, isso sim.

Klemt ficou a olhar para ela espantado e simultaneamente com um ar quase divertido.

– Ah, claro que sim. Uma pessoa fica com dúvidas e vamos cancelar um projecto que custou biliões. Com base num…

Maria silenciou-o com um indicador em riste, quase o espetando na cara do seu mentor.

– Livre-se de dizer “capricho”! Bem sei que não podemos cancelar tudo, mas estou a dizer que seria a atitude mais correcta. Só isso.

– Não vai acontecer.

– Eu sei. Mas biliões à parte, agora estou convencida que estamos a fazer uma asneira colossal.

Depois desta conversa, Maria recolheu-se na divisão onde tinham os beliches. Não falou com mais ninguém, e recusou-se a juntar ao resto da tripulação nas refeições, bem como nos momentos de descontracção.

– Que pena – comentou, a propósito disso, Tomasson enquanto jogava uma partida de ultra-poker com Connor e os gémeos  – Ouvi dizer que era óptima em dominó 3D.

– Esquece lá o dominó. Que obsessão! – resmungou o piloto – Muito gostas de jogos esquisitos.

– Não há nada de esquisito acerca do nobre dominó tridimensional. É um jogo de cavalheiros e damas, nada como esta vulgar salsada de cartas que estamos para aqui a jogar.

– Só é “salsada” porque estás a perder – ripostou Smith – Quem me dera estar a jogar a dinheiro, estavas completamente depenado. A propósito, vejam e chorem: poker de trezes! – pousou as cartas na mesa, mostrando as quatro cartas de treze e uma de nove.

– Ha! Quem vai chorar és tu! – respondeu Carlos – Poker de Cavaleiros!

– Mano, porque é que tens dois Cavaleiros de copas? – atirou Miguel.

– Batoteiro! Eu acuso! – berrou Smith, um segundo antes de a comandante entrar no compartimento.

– Cavalheiros, está na hora. Aos vossos postos.

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